terça-feira, 28 de maio de 2013

A Voz que Nos Rasgou por Dentro  

De onde vem - a voz que
nos rasgou por dentro, que
trouxe consigo a chuva negra
do outono, que fugiu por
entre névoas e campos
devorados pela erva?

Esteve aqui — aqui dentro
de nós, como se sempre aqui
tivesse estado; e não a
ouvimos, como se não nos
falasse desde sempre,
aqui, dentro de nós.

E agora que a queremos ouvir,
como se a tivéssemos re-
conhecido outrora, onde está? A voz
que dança de noite, no inverno,
sem luz nem eco, enquanto
segura pela mão o fio
obscuro do horizonte.

Diz: "Não chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro húmido dos versos."

Como se a ouvíssemos.

Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"

segunda-feira, 27 de maio de 2013

ali


quarta-feira, 22 de maio de 2013

tempos

O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.


T. S. ELLIOT

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Mãos


terça-feira, 30 de abril de 2013

ébano



domingo, 28 de abril de 2013

fogo aberto


Pedra a pedra a estrada antiga
sobe a colina, passa diante
de musgosos muros e desce
para nenhum sopé;

encurva, na abstracta encruzilhada;
apaga-se, na realidade. Morre
como o rastilho do fogo,
que de campo em campo aberto

seguia, e ao bater na mágica cancela
dobrava a chama, para uma respiração,
e deixava o caminho do portal
incólume e iniciado.

Fiama Hasse Pais Brandão, in "Três Rostos - Ecos"

terça-feira, 23 de abril de 2013

a minha ilha de pé salgado

 a cidadela é mais branca que cal
e o sol nem sequer consegue beijar as rubras flores...

som ou silêncio?

Música Calada   

Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar. 

E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar. 

Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar.

 Luís Filipe Castro Mendes

quinta-feira, 18 de abril de 2013

5ª sinfonia


quarta-feira, 17 de abril de 2013

ao sul

Acercam-se as sombras,
tão longe despenha-se o sol, algures no mar.
As casas são baixas, alinhadas em declive,
os telhados oblíquos,
os pátios circulares, em repouso a esta hora.
Vastas são as vinhas e os terraços,
vastas as vagas de um mar próximo, as pegadas
na praia agora deserta,
recolhidos os remos e as redes,
recolhida a minha vida.
Nada espero senão esta hora já lenta,
uma lua cheia de cio e aflições,
o regresso dos homens e dos cães, a treva.
Que cheguem.
José Agostinho Baptista, Morrer no Sul

sexta-feira, 12 de abril de 2013


Amigo, 
tu que choras uma angústia qualquer 
e falas de coisas mansas como o luar 
e paradas 
como as águas de um lago adormecido, 
acorda! 
Deixa de vez 
as margens do regato solitário 
onde te miras 
como se fosses a tua namorada. 
Abandona o jardim sem flores 
desse país inventado 
onde tu és o único habitante. 
Deixa os desejos sem rumo 
de barco ao deus-dará 
e esse ar de renúncia 
às coisas do mundo. 
Acorda, amigo, 
liberta-te dessa paz podre de milagre 
que existe 
apenas na tua imaginação. 
Abre os olhos e olha, 
abre os braços e luta! 
Amigo, 
antes da morte vir 
nasce de vez para a vida. 

Manuel da Fonseca in
"Poemas Dispersos".

terça-feira, 9 de abril de 2013

Terreno


Esta terra é nossa - dizem.
Esta terra lembra o desalento do nada
a saudade do verde que se teima em querer durar na nossa vida
Falam de feridas abertas
onde a dor se acende e o vento morno nos embala
A irmã lua ainda dança
para a gente cantar
A mãe lua ainda chama
para a gente dançar...

E se quisermos dobrar a alma
e tecer a tristeza em toques de veludo e de urze despida,
estamos à vontade e à frente do tempo e dos tempos

Vale o cântico desta terra
a fonte que não seca
o xisto que constrói pontes dentro de nós

Onde quer que eu vá
em toda a parte
onde quer que o sonho e a fadiga telúrica me leve,
hei-de lembrar-me de ti.

Terra minha. Terra nossa.

sábado, 6 de abril de 2013

Magnólia viva

um dia de púrpura.
promessas cumpridas.
paixões acesas.
um toque de sol.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

caixa de palavras

Guardarás numa caixinha
o que não fiz por ti,
a mão que não chegou à sobrancelha
que nem aflorou,
o beijo repetido nas palavras
sem que o tacto
o multiplicasse qual se desejava.


Nessa caixa de nada não tardará depois
a não estares só tu,
a não estar só eu,
a estarmos só os dois.


PEDRO TAMEN

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Ilha




Houve uma ilha em ti que eu conquistei.
Uma ilha num mar de solidão.
Tinha um nome a ilha onde morei.
Chamava-se essa ilha Coração.

Que saudades do tempo que passei.
Nenhum desses momentos foi em vão.
Do teu corpo, de ti, já nada sei.
Também não sei da ilha, não sei, não.

Só sei de mim, coberto de raízes.
Enterrei os momentos mais felizes.
Vivo agora na sombra a recordar.

A ilha que eu amei já não existe.
Agora amo o céu quando estou triste
por não saber do coração do mar.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

quinta-feira, 21 de março de 2013

poemário

Com uma pêra, dou-lhe um nome de erro
entre mim e tudo, na mão, amadureço
enquanto ela se torna propícia,
amarela ao influxo do vento de estrela para estrela.
O sangue da mão ensombra a fruta na sua volta
de átomos, abala
imagem, arquitectura.
E o espaço que isto cria: a noite
aparece no ar. E dura, leve, tersa, curva,
a linha
do fogo entrecruza
os pontos paralelos: a pêra desde o esplendor,
a mão desde
o equilíbrio, os centros
do sistema geral do corpo, o buraco negro.
Morro?
Escrevo apenas, e o hausto aspira
dedos e pêra, enigma e sentido, ordem, peso, o papel onde assenta
a constelação do mundo com esse buraco
negro e as palavras em torno.
No instante extremo de
desaparecerem.
Se morro, é por exemplo.

Herberto helder
Do Mundo
Assírio & Alvim, 1994

quinta-feira, 14 de março de 2013

aquário


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

a visita do tio oscar

A 85.ª edição dos Óscares decorreu esta madrugada dentro, no Dolby Theatre, em Los Angeles, numa cerimónia apresentada pelo comediante Seth MacFarlane.

Ao longo de três horas foram atribuídas 24 estatuetas.

Melhor Realizador
Ang Lee - «A Vida de Pi»

Melhor Filme
«Argo»

Melhor Atriz Secundária
Anne Hathaway - «Os Miseráveis»

Melhor Atriz Principal
Jennifer Lawrence - «Silver Linings Playbook»

Melhor Ator Principal
Daniel Day-Lewis - «Lincoln»

Melhor ator secundário
Cristoph Waltz, «Django Libertado»

Melhor argumento adaptado:
"Argo"

Melhor argumento original:
"Django Libertado"

Melhor filme estrangeiro (de língua não inglesa):
"Amor" (Áustria)

Melhor filme de animação:
"Brave"

Melhor documentário:
"Searching for sugar man"

Melhor documentário em curta-metragem:
"Inocente"

Melhor curta-metragem:
"Curfew"

Melhor curta-metragem de animação:
"Paperman"

Melhor produção artística:
"Lincoln"

Melhor fotografia:
"A vida de Pi"

Melhor montagem:
"Argo"

Melhor caracterização:
"Os miseráveis"

Melhor guarda-roupa:
"Anna Karenina"

Melhor Banda-sonora original
«Life of Pi» (Mychael Danna)

Melhor Canção original
"Skyfall", de "007 - Operação Skyfall" - Adele (música e letra)

Melhor montagem de som:
"Skyfall"
"00:30 Hora Negra"

Melhor mistura de som:
"Os miseráveis"

Melhores efeitos visuais:
"A vida de Pi"

sábado, 16 de fevereiro de 2013

O mestre mentor

THE MASTER, herdeiro da minha MAGNÓLIA, definitivamente, não é um filme fácil.
Mas é o melhor filme do ano.
Adulto, comprometido, acre, profundo, insuportavelmente perdido...
«O Mentor» é o sonho vivo e materializado do eterno estudante de Cinema, e uma adição meritória ao cânone formidável de Anderson sobre as falhas da natureza Humana.
Phoenix, insuperável (mesmo por Day Lewis).
Hoffman, o dito vulcão.
Adams, admirável.
A cena em que ele parte numa motorizada rumo ao infinito para nuna mais voltar é antológica.
A tempo de curar as feridas do passado e as promessas do futuro, num presente exangue, volúvel e inconsistente.
Num mundo em que alguém tem sempre um dono, em que alguém comanda sempre alguém...
MAGNÍFICO!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

ave eva



Eva... ave
Entrego o pôr-do-sol nas tuas mãos
E procuro a mundividência fora dos teus olhos (embora por eles queira ver o mundo)
Sou um salteador de trovas perdidas
Domesticador do azul que de mim brota

Se te disserem que não te mereço
Pensa que o azul sempre se deu bem com o fogo que te amarrota...

Sabes, esperarei sempre por ti, mesmo que chegues a horas pardas!