domingo, 16 de março de 2008

Um tiro no escuro


Houve tiros na noite coimbrã.
Ouvi tiros perto de casa.
Esta noite.
Na dança das luzes,
no vinil palco de um qualquer antro de diversão.

O que costuma estar à distância,
esta noite aproximou-se da nossa pretensa tranquilidade,
da pacatez dos nossos casarios,
da morna normalidade dos nossos bairros...

Começamos a ter medo. Muito medo.
Para que conste,
neste início da Semana Maior, neste 7º dia dos Ramos Santos,
aquele que começa a celebração da dádiva de Vida Daquele que comanda os ventos e as marés...

sábado, 15 de março de 2008

Orquídeas, magnólias e magnálias



De volta.
Ao meu relógio de sol.
Ao meu canto
que tão bem regado foi pelos meus comparsas, cúmplices autores.

Vim hoje de uma ilha.
Solarenga.
Dona de tanta aguarela.
Florida.
Breve.
Singular.
Em forma de veleiro.

Hospedado numa Orquídea com nome de hotel,
trouxe notícias de novos ventos.
De Mónicas, Ruis e Ritas,
de felizes encontros,
novas amizades que se bordam na sombra dos dias,
tudo por causa deles,
os tais infantes que me vão albergando os cansaços de uma carreira profissional...

Chegado ao Continente, folheio uma revista fatigada de um jornal diário.
E leio algo improvável:
um poema, feito a horas marcantes, por um homem de cifrões, a quem não associávamos à cor das palavras.

Fala de nós. Das Magnólias e das dálias.
Vejam:

"Irrompeu
linda, linda,
no vértice
do pátio
magno

num ápice
provinda
da erva das terras

ou

da era
das trevas

uma magnificiente dália
ou talvez
uma magnólia
cor de magna

para Lineu
é indiferente
em todo o caso
não por acaso

dália
ou
magnólia
mas magnália"

O autor da magnália (este lado reverso) chama-se Paulo Teixeira Pinto. Ponto.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Tarde Sem Fé

A tarde chegou cinzenta e parda e trazia no vento remoinhos de desgraça.
Os velhos avisados de outras tardes, aconselharam os novos a guardarem-se.
E as mulheres a esconderem-se.
O infinito entrançado do nevoeiro lançava o mesmo aviso lamuriento e gélido.
O vento esticava o nevoeiro em tiras longas como fiapos de pano.
E estes formavam imagens de fantasmas suspensos no vazio.
Não havia casas, árvores, rios ou estrelas.
Tudo estava camuflado naquele imenso aperto de cinzento.
A vida suspendeu-se.
A esta hora chega a noite e a tarde confunde-se com ela.
Talvez mais tarde amanheça….

quinta-feira, 13 de março de 2008

Sem cumplicidade




Estavam um frente ao outro.
Ela absorta tentando lembrar-se do que lhe queria pedir.
Ele contemplando-a, brincava com ela na sua mente.
Corriam já por entre as árvores, jogando às escondidas o erótico jogo do amor.
Ele já previa as carícias que lhe faria, os beijos que lhe daria, o amor que lhe ofereceria.
Umas vezes refreava-se outras não.
De repente ela lembrou-se: queria uma garrafa de água para a mesa sete!
Ele sobressaltou-se.
Ele não estava na cabeça dela.
Ele olhou-a e antes de lhe entregar a garrafa compôs-lhe o laço.

Rush (Hour)


Se não é fotomontagem (e provavelmente é), acham que alguém se apercebeu do momento de tiragem da foto no meio da individualidade/egoísmo que corre nas cidades ?

Só porque...


...é uma foto bonita.

Ilhas


Há quem, entre nós, tenha que viajar em trabalho para certas ilhas solarengas. Uma boa ida e melhor regresso. Não interessa a quem dedico isto.

Avós


Para todos os avós do mundo....para os meus, que tive a sorte de conhecer, e com eles conviver atéà idade adulta, e de quem sinto muita saudade. Que estejam entre as estrelas (sei que estão).

Mãos


Não sei quanto a vocês mas eu reparo, de imediato, nas mãos de uma pessoa.

Podem dizer tanto.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Afinando


Na vibração da alma, no som do espírito, na suavidade do coração...O pensamento a todos une e separa... E o tempo todos controla...Os dedos deslizam e a vida abranda, tudo começa a fazer sentido... A suave canção entra-nos no espírito e aquece-nos... Os acordes de alegria dão lugar aos de tristeza como numa reviravolta de emoções... Apenas mais uma...Mas... nem tudo está certo... A vida entristece e passa e a radiosa juventude dá lugar à melancólica e sábia velhice... O preto de força e o dourado de luz, luz e brilho dão lugar à melodia do branco...Então, aquando do sono no tempo, da passagem da harmonia da vida para o silêncio da morte nasce a derradeira presciência...Está então tudo afinado...Faça-se música !


Este texto foi escrito pelo Maracujá mais velho da Passiflora Maré, que tem 14 anos.

Feminino singular


Vejam isto.
Não digo mais nada...
(obrigado Tia T.)

Adolescência


Flutuar numa montanha de algodão branco e sedoso!
Planar num mar de rosas vermelhas de veludo!
Rebolar num campo de erva verde e macia!
Brincar num rio de águas cantantes e frias!
Ou
Flutuar numa cama de algodão quente e gemente!
Planar num ar de rosas húmidas e cheirosas!
Rebolar num prado de erva ondulante e fresca!
Pular num rio de águas límpidas e brancas!
Caminhar pela vereda do amor rumo à felicidade.

O lobo e o cordeiro




Uma razão nunca pode ser um vento capaz de correr em todas as direcções.
Os prevaricadores gostam de usar razões desta natureza.
E se com elas não convencem, então, partem para o uso da força.
Nós, Magos das Regras, tentamos conhecer os limites das razões e dos argumentos e, por vezes, tendo-os não os usamos porque dizemos: Este argumento é um pau de dois bicos.
A propósito de uma "reunião" como "Maga de Regras" que tive ontem e a propósito do "político" e do "social" actual, lembrei-me de um exemplo clássico de pseudo-retória de prevaricação.

Um lobo e um cordeiro, movidos pela sede, dirigiram-se ao mesmo riacho.
O lobo parou ao alto, o cordeiro muito mais abaixo. Então, o velhaco do lobo, invadido por uma desenfreada gulodice, procurou um pretexto para entrar em litígio.
-Por que é que - disse - turvas a água que eu estou a beber? - Cheio de temor, o cordeiro respondeu-lhe: - Desculpa, mas como é que eu posso turvá-la? A água que eu bebo passa primeiro por ti.
E aquele, vencido pela evidência do facto, disse:- há seis meses disseste mal de mim. E o cordeiro replicou: - Mas há seis meses ainda nem sequer tinha nascido.
- Por Hércules, então foi o teu pai que disse mal de mim - disse o lobo.
E saltou de repente para cima do cordeiro, despedaçando-o e matando-o injustamente.
Esta fábula foi escrita para aqueles homens que oprimem os inocentes com falsos pretextos.
Citando Fedro, escreveu Umberto Eco, no seu livro "A Passo de Caranguejo", Ed. DIFEL.

Os (meus) sapatos vermelhos


Hoje não tenho certezas
Talvez a próxima paragem da vida me traga o verde do bilhete de ingresso
a ilusão que julgava perdida
mas que persiste incólume na geometria dos afectos
apesar do escorpião atormentado

Talvez me tivesse feito passageiro da agonia
para degustar melhor o sabor da estrelada vaga
que vem dormir a meus pés, longe do mar a que não pertenço

Talvez me enganem quando me falam de um ideal
Deixem-me:
os sapatos já não me pesam
o bilhete é só meu...

terça-feira, 11 de março de 2008

(Um) Sonho


Há metas dificeis e destinos, por vezes, ainda mais complicados...mas, queira Deus, chegaremos lá em breve. Obrigado.

Caravaggio (Beleza Suprema)


As cores, a luz, as sombras, a intensidade...Caravaggio é sublime.

Entre outras, há que ver as obras expostas na Igreja de São Luis dos Franceses em Roma...

O sinónimo de Plenitude Espiritual....

O dominó dos Andes e o lápis bailarino




Machu Pichu já tem concorrente - um dominó interminável, com sabor a Guiness.

O lápis do ilustrador ganha estranha vida.

Onde reside o talento e o engenho do Homem...


(obrigado, Sérgio)

Causa e Efeito


"Mesmo que a verdade histórica não fosse respeitada, ninguém lhe poderia levar a mal. Não é de resto tarefa fácil dar essa verdade, pois nesse círculo vicioso de sentimentos contraditórios, de interacções múltiplas, não ouso definir o que é causa e o que é efeito".


in "Souvenirs Pieux" de Marguerite Yourcenar (Desculpem a insistência)

TE DEUM


Explodiu a granada.
Inquietaram-se os ventos.
Eclodiu uma perigosa e dantesca tempestade.
Mas caiu o pano, nessa mesma noite em que se tinha erguido.
Ruiu a murada. Nesse mesmo estado de espírito em que se tinha erigido.
Soltaram-se as pétalas do napalm, daquela fecunda flor que ninguém plantou.
Desistiram os heróis bélicos da paz de todos os dias.
Tudo sucumbia, sem saber como, sem saber porquê.
Até as preces dos hereges mais crédulos pareciam já não afectar ninguém...
Amigos insensatos, para onde vai a vossa saudade?
Tendes receio da musa que vai inspirando os vossos pensamentos?
Como podeis evitar que os pássaros voem em redor dos vossos vazios?
Nada sabeis, nem o pouco que pensais saber,
Nada pensais, nem o muito que sabeis pensar.
Para onde convergem os gritos satânicos de Armagédon?
Para onde vindes, a que vindes, como vindes?
Como ousais tudo isto saber se viver passa a ser proibido?
Como quereis subir mais alto se, a partir de hoje,
e na força indómita do pai que abraçava, sem o saber, o filho já morto,
andam gnomos equivocados a apagar os degraus da grande escadaria?
Oh respeitáveis inimigos íntimos, para quê a cólera
Se nem tempo ides ter para levantar uma mão que seja?
Calaram-se os actores, os autores dos dias e de parte das noites e os adereços.
Em nome de uma nova geração de eleitos,
foi suprimida a bonança em todos os lares, em todas as camas, em todas as lamas.
Aí passou a pensar-se que, afinal, tudo é impossível!
Cegou o inacuto poeta. No mesmo dia em que tudo parecia ter visto.
Endoideceu o são Arlequim. No mesmo dia em que tirara a máscara e se vestira de vulgar veneziano.
Adormeceu o Vigilante. No dia em que os homens olharam para dentro de si...
(...)
Deus olhou para a sua obra e suspirou.
Viu o novo tempo.
Difícil.
Turbulento.
Opaco.
Mas não me parece que tenha existido algum momento da nossa história em que Deus se tivesse sentido realmente à vontade!
********************************************************************************
(ao som desta canção deve ser lido o texto acima transcrito)

segunda-feira, 10 de março de 2008

Alma de Cristal


Senhora da Aflição.
De traje de ouro e bordão.
Tira as nódoas à minha alma,
Que é feita de mata borrão.

Senhora, minha Senhora.
Manda-me atravessar o Mar
e aportar às suas praias.
Transpor a África a pé
e subir os Himalaias.
Mas ajuda-me senhora.

Queria alma de cristal
onde o que toca não "borra".
Queria iniciar a manhã
Sem o pesar da Aurora.

Há teatro no limoeiro


Imaginem 4 ventos em conversa.
Vadia.
Após uma função judiciante.
Escrevi isto (era a cena final) há 9 anos quando, num certo pomar, quis levar à cena algo de diferente.
Vieram os outros ventos – que não estes 4 – e deixaram-me isto em carteira.
Vai para a magnólia, pelo 11 que fomos e por tudo aquilo que os outros ventos nunca serão.

UM- Caiu a noite sobre esta função.
Em tudo o que fazemos, há sempre uma noite que cai...
Há que desmontar o espectáculo, há que desmontar as ideias
Apagar as luzes, recolher os destroços, arrumar as becas e as togas, ouvir as últimas alegações...

DOIS- Ouviram falar de voar, de navegar, de voltar

TRÊS- Conheceram as cabeleiras, os processos e as demandas

QUATRO- Viram nas mãos dos outros as tábuas dos mil e um mandamentos

UM- Glórias e misérias de um edifício centenário, de olhos por olhos, dentes por dentes, de veredictos e saneadores sem sombra de pecado

TRÊS- Viram-se naus submersas em conciliações que não se chegam a fazer, em acidentes que são sempre dos outros, em salários de fome, férias que apenas se gozarão no próximo Verão, faltas que apenas justificam o nosso apego à vida, feriados que não se guardam, trabalho à noite com a companhia da face oculta da Lua, trabalho àquelas horas pardas em que o sono se faz anunciar entre trombetas e pestanas solarengas e crianças de olhos redondos que ganham 3000$00 por semana e a quem são prometidas aquelas próteses, eco do que perderam entre moinhos de cimento....

QUATRO- Ouviram falar de crimes e escapadelas, cúmulos da nossa sociedade de estigmas, de furtos, roubos, falsificações, segredos de justiça mais mal que bem guardados, instruções, prescrições mal amadas e Procuradores em tom de despedida...

DOIS- Ouviram ecos dos saneadores, autênticos Cabos das Tormentas Civis da nossa lide diária, de embargos cinzentos e meios inteiros de prova, de acções, registos, perfilhações, causas de lidar ou de pedir, recursos capazes de provocar a ira dos deuses...

UM- Cantámos os hinos de Beijing e de Riade, sofremos com os riscos de mil e um infantes nascidos sem decreto, fomos apresentados a pais e mães capazes de bater com a porte e naqueles frutos de um soslaio de fugaz paixão vivia nove meses antes, escutámos o tédio quotidiano de mil casais divorciandos em busca do tesouro escondido em novas relações, em novas Primaveras...

UM- Dos trinta

QUATRO- Ou dos quarenta

TRÊS - E nesta viagem pelo rio abaixo, em busca das JUSTAS NAUS, rumo a comarcas tão diversas e tão iguais, iremos ver o sussurro da vida gritada às postas, mangas arregaçadas, naquele escrever de água que logo se apaga mas que subsiste na gramática dos vossos sentidos, convicções, julgamentos, acusações, admoestações, tentativas de conciliações...

QUATRO- Se navegar é preciso, um toque de emoções vindas das profundezas dos ventos e dos mares é sempre um ingrediente indispensável ao imprevisto, à loucura saudável e ao inconformismo de que também se vestem as vistas e as conclusões

UM – Um sistema é como uma cauda da verdade e essa verdade é como um lagarto – deixa-nos a cauda nos dedos e foge, sabendo perfeitamente que lhe crescerá uma nova num abrir e fechar de olhos

DOIS – Em qualquer aventura, o que importa é PARTIR, não é CHEGAR

TRÊS- Boa Viagem, e não se esqueçam a cauda que aqui deixaram e que ficou nas mãos deste canto de limoeiro...

(…)

QUATRO- Ó vento do Norte, que novas me trazes das minhas becas?

DOIS- Senhor, só vejo esperanças à espera de melhores dias

QUATRO- Ó Vento do Sul, já encerraram as audiências?

TRÊS- A Justiça nunca se fecha, apenas se reforma...

QUATRO- Ó Vento do Oeste, resta algo das minhas naus?

UM- Ó rei, só vejo caras novas, renovadas, sangue quente em água fria.
Mas ao longe, Senhor, vejo um homem e uma mulher que embarcam na última das barcas e que se escondem da boca do mundo para soltar o mais passional de todos os delírios de Amor...

QUATRO- Que fazer com estas naus, com estas gentes?
Deixo-as e deixo-os aos amantes...

UM- ... da vida
DOIS- ...dos ventos
TRÊS- ... das marés
QUATRO- ... das quimeras e das paixões

UM- Nós... vamos com as aves!.

(E deixam a cena os VENTOS um por um, ao som de "A Barca dos Amantes" de Sérgio Godinho)

Trabalho para o 11? Um dia?


domingo, 9 de março de 2008

A casa do jardim


Veio-me uma saudade com sabor a noite e pela casa ondulou preguiçoso o cheiro do pinhal.
Sentei-me à secretária e resolvi escrever-te.
A casa está plantada num rochedo, no cimo de um monte.
Parte das árvores que a rodeiam estão com as raízes no Rio.
Do outro lado as montanhas ondulam até os seus picos, ao longe, tocarem o céu.
A casa tem a forma de um navio, em dias de nevoeiro balouça-se sobre o abismo e no seu interior cheira a maresia.
Nesses dias lembram-se viagens por mares longínquos e tragédias com fins ambicionados.
No Verão o jardim cheira a flor de limoeiro e as "caneleiras" informam o visitante das viagens que a casa empreendeu.
Os cucos vêm em Março e ouvem-se todos os dias até ao mês de Junho.
Os pardais vêm comer nas macieiras e as crianças crescem descalças no jardim.
Nela o único luxo é o espaço, que espera pacientemente as coisas desconhecidas que a hão-de encher.
O tempo passa por ela devagar visto que é nova.
E por ela perpassa um frio angustiante dos dias desconhecidos que a esperam.
O timoneiro sou eu. Uma mulher que deseja a tua chegada.
Se viesses podíamos ver as estrelas até de manhã e falar da cor do luar nas folhas prateadas dos carvalhos.
Talvez nos deitássemos sobre a relva e desejássemos fazer outra vez os filhos que já temos.

Camarada (em terra verde)

(foto de Manuel Nogueira)
As ondas, os olhos, a voz
A barba para fazer noutra madrugada,
O movimento
Inseguro e forte.

A luz, agora menos pesada, cai nas pedras:
Escrita de cinza, em novelos de riso pueril

Caligrafia solar,
Nua e breve
Como a areia de Setembro, longa asa em repouso.

Rosto a ser próximo,
Sempre pronto para os outros,
Horizontal e sábio senso

Nas ondas aprendes, ao som de uma morna de Celina ou de uma balada de Fausto,
O sabor do tempo:
Viagem circular e luminosa, rumo a um São João Novo,
Com terra à vista,
Ainda perto dos infantes (que ensinaste) que continuam a saltar na praia mais salgada do teu Norte

A manhã, a tua manhã (abrindo)
É ainda uma gaivota aflita,
Já não um leão do Bolhão,
Qual marinheiro que respira
Uma planície de estrelas como chão
Ao N.

sábado, 8 de março de 2008

A Mulher ou a Guardiã da Humanidade.




Uma mulher só o é verdadeiramente quando tem filhos.
Biológicos, adoptados, enteados, emprestados, dados, acolhidos, desde que amados.
Mãe de um filho. Mãe de toda a Humanidade.
No rol destas mulheres não há lugar para Hilary, nem para Thatcher, nem para todas as que fazem guerras, que lhes dão o beneplácito, que pegam em armas.
Não há lugar para todas as que não dizem: "Nós não fazemos isso".*
O imenso poder nas mulheres é moldar a humanidade, como a água molda a rocha.
Educar os seus filhos sózinha ou acompanhada, cúmplice ou desamparada, na sombra ou alumiada.
Mas educar os seus filhos para que eles não sejam capazes de querer matar os seus irmãos.

*Ler Günter Grass, "Descascando a cebola", Autobiografia. Ed. casadasletras.

P.S. que ninguém pense que eu sou doméstica ou sequer que não sou "poderosa" na acepção social da palavra.

Lugar?


"E quando para ele já não houvesse, nos estrados de madeira, qualquer lugar, por pequeno que fosse, cuidaria das velas, seria o que as acende e as apaga, no fim, uma por uma. Mas porque sabia todos os papéis, tomá-lo-iam também para ponto: a sua voz estaria, como quem diz, em todas as vozes. Apoderava-se dele uma alegria febril, nessa sensação de ser tantas pessoas ao mesmo tempo, a viverem tantas aventuras. O pequeno Lázaro não tinha limites, e bem podia sorrir amigavelmente ao seu próprio reflexo, que um pedaço de espelho entalado entre duas traves lhe remetia:não tinha forma, ele; tinha mil formas"
Marguerite Yourcenar in "Como a Água que Corre"

Cores?


"O branco tem de ser a cor mais clara numa imagem. Na tricolor, por exemplo, o branco não pode ser mais escuro que o azul e o vermelho. Temos aqui uma espécie de matemática da cor... que importância tem o conceito de cor saturada?"
pois...
Ludwig Wittgenstein in "Anotações sobre as Cores"

ALMA


"Almazinha, alma terna e flutuante, companheira do meu corpo, de que foste hóspede, vais descer áqueles lugares pálidos, duros e nús onde terás que renunciar aos jogos de outrora. Contemplemos juntos, um instante ainda, as praias familiares, os objectos que certamente nunca mais veremos... Procuremos entrar na morte de olhos abertos..."
in "Memórias de Adriano" de Marguerite Yourcenar.


Como a Maré cheguei...


Como a Maré cheguei.
E como ela andarei.
Umas vezes baixa, outras vezes alta, algumas vezes viva.
Como a Passiflora serei.
Sempre flor, com paixão.
Não esperem de mim senão rebelião.
Para o provar, neste dia de todas as Evas ofereço uma maçã, principalmente ao meu polinizador.

Beija-flor, o meu polinizador.

Quer mel do meu jardim Beija-flor?
Voa, e beija os brincos de princesa, a boca das dedaleiras, os novelos, e a rosa.
Quer pólen da minha mata, Beija-flor?
Corre, beija o tojo, a urze, a alfazema e a flor da carqueja.
Beija-flor, o que você quer de mim, que lhe afague o seu bico? A sua cauda?
Escute Beija-flor, o melaço vem do beijo. E o esfregaço do desejo.
E agora Beija-flor poisa numa e noutra e de uma para a outra, sem parar e beija e cheira e pica e quando der por ela o mel vem e com ele a rebentação ...

Evas


(...) Mas para vos contar a minha história, têm apenas que imaginar a figura de uma menina num quarto com uma caneta na mão. Ela só tinha que mover aquela caneta da esquerda para a direita (...)
Enquanto eu estava a escrever, descobri que se fosse escrever livros, teria de travar uma batalha com um certo fantasma. E o fantasma era uma mulher a que chamarei "the angel of the house".
Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel quando eu estava a escrever. Era ela que me incomodava e roubava o meu tempo e atormentava-me, até que acabei por matá-la (...)
Ela era imensamente sensível e encantadora. Dominava todas as difíceis artes da vida familiar. Sacrificava-se diariamente. Se era galinha, ela ficava com a pata, se havia uma corrente de ar, ficava ela nesse lugar - preferia concordar sempre com as ideias e desejos dos outros.
(...)
E quando vim a escrever, encontrei-me com ela logo nas primeiras palavras. A sombra das suas asas caiu sobre a página; eu ouvi no quarto o roçar das suas saias...
(...)
As mulheres devem encantar, dizia-me ela. Devem conciliar, devem mentir se for preciso para que se saiam bem. Todas as vezes que eu sentia a sua sombra da asa ou a luz da sua aura radiante sobre a página, eu pegava no tinteiro da tinta e atirava sobre ela. Ela custou imenso a morrer...
(...)
Já libertas desse fantasma, vocês ganharam o vosso próprio espaço na casa até agora exclusivamente possuída por homens. Vocês são capazes de pagar as despesas mensais. Vocês já estão a ganhar as suas 500 libras por ano. Mas essa liberdade é apenas o começo - o quarto já é vosso, mas ainda está vazio. Ele tem de ser mobilado. Tem de ser decorado, tem de ser repartido. Como irão vocês mobilá-lo? Como irão decorá-lo? Com quem vão dividi-lo, e em que termos?
(...)
Neste dia das Evas (como se necessário fosse um dia para as louvar), deixo-vos este eloquente trecho de uma conferência realizada por Virginia Woolf na "National Society for Womens Service", corria o dia 21 de Janeiro de 1931.
Direi apenas que a Mulher é, inequivocamente, o melhor ser intermediário entre o homem e a Humanidade.

A magnólia celebra este dia com uma nova flor em forma de maré que se aproxima e com uma canção de Katie Melua (uma das melhores songwriters da actualidade, a par de Suzanne Vega, Vanessa Carlton, Tori Amos, Lene Marlin e KT Tunstall) que poderão ouvir no endereço abaixo indicado - trata-se do magnífico "If you were a sailboat" (album "PICTURES" - 2007).


Ave, Eva!

sexta-feira, 7 de março de 2008

D.

Eis que, na véspera do Dia que festeja toda a Mulher, a magnólia dá entrada à primeira no seu jardim.
Somos já três a cuidar desta magnólia tão viva.
Mais seremos.
Em nome do 11...

Dou, então, entrada a uma Carmencita de cabelos viúvos e ondulantes,
que se definirá a si própria.

Tratem-na bem, por favor.
A casa é tua...

Babel (a vermelho suave)

Escreveu Almada Negreiros:

«Há palavras que fazem bater mais depressa o coração – todas as palavras – umas mais que as outras, qualquer mais que todas.
Conforme os lugares e as posições das palavras.
Segundo o lado de onde se ouvem – do lado do Sol ou do lado onde não dá Sol.
Cada palavra é um pedaço de Universo.
Um pedaço que faz falta ao Universo.
Todas as palavras juntas formam o Universo.
As palavras querem estar nos seus lugares!»
Digo eu - desarrumem as palavras, por favor.
E, sobretudo, pintem o azul - um outro nome para o negro que, por vezes, nos vai na alma -
com o lápis vermelho.
Baralhem as tintas,
confundam os tons
misturem as aguarelas.
Nesse caos, encontrareis a ordem das manhãs de Março
Nessa Babel, repousará (impublicável e imperfeito) o poema imprescindível.

quinta-feira, 6 de março de 2008

LUZ


César (meu caro....a distância é grande em kms, nenhuma em nada mais, para que conste), estou deslumbrado com este renascer de algo que, nunca tendo morrido, estava um pouco cristalizado e vivia de memórias. Comoveu-me imenso toda esta energia e cumplicidade. Como é BOM, compensador e tão reconfortante reencontrar tudo isso que tu, e os outros do "11", sabem. Creio que haverá muita gente a interrogar-se se não seria um grupo terrorista...

Um Grande Abraço, Beijo e Bem Hajam...

Eu agradeço imenso.

Aniversário


Os pequenos são assim. Até festejam os dias e os meses.
Nasci para este espaço há um mês.

Foi a 6 de Fevereiro de 2008 que icei a âncora e comecei a navegar por este mar da vida, por este pantanal de ideias, por esta vadia janela aberta para o nosso mundo.
Aqui sinto-me bem. E faço-me acompanhar por quem tem ideias primas ou irmãs.
O Gui aproximou-se da magnólia há duas semanas e temos, os dois, tratado a flor com todo o esmero, sem falarmos um com o outro (porque há distância, muita distância entre nós)...
Sinto-me muito feliz porque por este mês de vida temos conseguido unir um sagrado grupo 11 que nos embalou a pequena adultez, muitas luas atrás.
Faltam duas personagens para conseguirmos o pleno (olá Lisboa, olá Leiria).
A seu tempo...

Por ora, deixo este hino à magnólia, este mar com dois rochedos (por enquanto) que vão assistindo ao cruzar das águas felizes dos outros, que vão soletrando alegrias e desamores, angústias e pequenos ódios, suores e vermelhas veias...
Não quero que o sol se ponha atrás de nós.
Quero molhar os pés na seiva do meu pensamento, dando largas (e palco) à minha imaginação (a tal "louca da casa") e gargalhando, rindo, sorrindo ou chorando, conforme as estações.
Contigo, Gui.
Comigo, César.
Convosco que sei que me vão lendo todos os dias.
E, sobretudo, para ti, C.

Venham mais meses.
Venha mais gente tentar colher esta magnólia.
Mas, por favor, não a levem, tá?

quarta-feira, 5 de março de 2008

O Sol de Picasso



"Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela, mas há também aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol”

"Deita fora todos os números não essenciais para a tua sobrevivência.
Isso inclui idade, peso e altura"
Pablo Picasso

Livros e provas


Hoje deixo duas notas.
Ambas visuais.

A primeira, a pedido de várias famílias, prende-se com a capa do livro que ontem referi aqui - PATRIMÓNIO de Philip Roth. Autobiográfico e notável.

A segunda é um vídeo espirituoso, mostrado numa altura em que os professores deste país se sentem injustiçados e receosos de ser avaliados.

À vossa consideração!

terça-feira, 4 de março de 2008

Partidas e epitáfios




Recebi hoje um telefonema de uma Amiga de longa data, daquelas que não se vêem todos os dias mas que permanecem, para sempre, no baú das nossas melhores recordações, guardadas na gaveta mais secreta e íntima do nosso ser.
Tinha ela assistido a uma partida recente de um ente querido, após um calvário de sofrimento.

Dois dias antes, uma outra (senhora de braços inquietos e de discernimento inigualável) o tinha também feito, desta feita por ataque fulminante.

Parei um pouco e pensei que, realmente, estamos numa idade em que as nossas raízes começam a secar, em que os nossos alicerces começam a ruir e em que nos sentimos mais sozinhos do que nunca.

Nada substitui uma raíz sólida, nem sequer um fruto suculento e sumarento.
Nessas horas sentimo-nos naquele estrado de madeira, rodeados por água e fustigados por uma chuva (aparentemente) constante que tudo molha, que tudo amarrota...
Não podemos dar um passo à frente pois a queda parece-nos certa e fatal.
Olhar para o lado é angustiante pois só vemos água e nunca terra firme.
Recuar é impossível pois não podemos voltar a jogar aquele jogo de xadrez - as peças não nos pertencem, os instantes não são nossos, as horas são de Alguém que tudo vela, que tudo sara também.

Que fazer?
Dizem que o tempo tudo cura, que os relógios continuam sempre a trabalhar, por mais cansados que se sintam.
É este o nosso destino, é esta a nossa sina de resilientes.

Deixo aqui um pedaço do livro que actualmente estou a ler e que consegue, em palavras brandas e sábias, dizer tanto daquilo que eu queria deixar expresso a estas minhas duas cúmplices de vida.
Falo de "Património" do Philip Roth (Dom Quixote), um dos maiores romancistas vivos.
A brisa do vento diz isto:

"Penso que enquanto visitamos uma sepultura temos pensamentos que são mais ou menos os pensamentos de toda a gente e, pondo de parte a questão da eloquência, não diferem muito de Hamlet a contemplar o crânio de Yorick. Parece-me pouco haver para pensar ou dizer que não seja uma variante de "ele carregou-me mil vezes às suas costas". Estar num cemitério faz-nos geralmente recordar como é tacanho e banal o nosso pensamento a este respeito. Podemos tentar falar com os mortos e sentimos que isso ajudará; podemos começar por dizer, como eu fiz naquela manhã, "Bom, Mãe...", mas é difícil não sabermos que é como se estivéssemos a conversar com a coluna vertebral suspensa no consultório do osteopata. Podemos fazer-lhes promessas, actualizar-lhes as notícias, pedir a sua compreensão, o seu perdão, o seu amor - ou podemos optar pela outra abordagem, a abordagem activa, arrancar as ervas, alisar o cascalho, passar os dedos pelas letras gravadas na lápide; podemos até baixar-nos e colocar as mãos mesmo acima dos seus despojos - tocando no chão deles, podemos fechar os olhos e recordar como eram quando ainda estavam connosco. Mas estas reminiscências, este recolhimento não mudam nada, a não ser o facto de os mortos parecerem ainda mais distantes e fora do nosso alcance do que quando conduzíamos o automóvel dez minutos antes. Se não está ninguém no cemitério para nos observar, somos capazes de fazer coisas muito loucas para que os mortos pareçam outra coisa em vez de mortos. Mas mesmo que que consigamos e nos emocionemos o suficiente para sentirmos a sua presença, não deixamos de nos vir embora sem eles. O que os cemitérios provam, pelo menos a pessoas como eu, não é que os mortos estão presentes, mas sim que partiram. Eles partiram e, por enquanto, nós não. Isto é fundamental e, por muito inaceitável que possa ser, facilmente compreensível".

D. e L., alisem o cascalho, coloquem as flores mas sequem as lágrimas, por favor.
E escutem-no, ao vosso pai, esse eterno consertador de brinquedos.
Ele partiu. Vocês não.
Fechem o guarda-chuva, abram os olhos, usem uma barca e recomecem a travessia de todo aquele mar. Mesmo à chuva. Com ele, sempre ao leme, mesmo que não o vejam!

Da era do giz à era do bite


Raciocinamos em "bites"
Escrevemos em "megas"
Fazemos do lixo uma memória
Morremos em "delete".
Porque esquecemos cedo demais:
o calor suado e plurisignificante da palavra
a magia preto-e-branco do lápis
a frieza branca do giz
a serenidade da linha do caderno...
Os tempos mudam-nos?
Ou somos nós que mudamos os tempos?

segunda-feira, 3 de março de 2008

Os novos pedagogos


A educação às aranhas...
Sinais dos tempos!

Diploma


Fazia calor.
Na savana e no capim.
O velho fazendeiro do Uíge está na sua sala proseando com um amigo, quando um menino passa a correr por ali.
Ele chama:
- Diploma, vai pedir à tua avó para nos trazer um café.
O amigo estranha:
- Mas que nome engraçado puseram a este menino. É teu parente?
O velho mascou o tabaco e respondeu:
- É meu neto! Sabes, chamo-o assim porque mandei a minha filha estudar para Luanda e ela voltou com ele.

Este filme não é para todos


Ela soluçava. Abanou a cabeça. E todavia, embora eu te pudesse ter dito de antemão como é que tudo isto iria terminar, achei que não era excessivo proporcionar-te um derradeiro lampejo de esperança neste mundo, para te alegrar o coração antes que tombe o véu, as trevas. Compreendes? Oh, meu Deus, disse ela . Oh, meu Deus. Sinto muito. Ela olhou-o pela derradeira vez. Não és obrigado, disse. Não és. Não és. Ele abanou a cabeça. Estás a pedir-me que me torne vulnerável, e isso é coisa que eu nunca poderei fazer. Só tenho uma maneira de viver, que não admite casos excepcionais. Uma moeda ao ar, no máximo. Sem grande utilidade, neste caso. A maioria das pessoas não acredita que possa existir alguém assim. Isso deve constituir para elas um grande problema, como facilmente entenderás. Como levar a melhor sobre uma coisa cuja existência nos recusamos a reconhecer. Compreendes? Assim que eu entrei na tua vida, a tua vida terminou. Teve um começo, um meio e um fim. O fim é agora. Dirás que as coisas podiam ter sido diferentes. Que podiam ter corrido de outra maneira. Mas o que é que isso significa? As coisas não correram de outra maneira. Correram desta. Estás a pedir-me que desminta o mundo. Percebes? Sim, disse ela, a soluçar. Percebo. A sério que percebo. Ainda bem, disse ele. Óptimo.
Depois deu-lhe um tiro.
De Cormac McCarthy, chega-nos este assombroso "No Country for Old Men".
Em livro.
E em filme.
Este último magnífico em despojamento visual, em contenção emocional, em violência poética, em sangue desmedido, em diálogos virtuosos e em actores superlativos.
Ainda bem que nem todos gostaram dele.
Eu... amei.
Em tempo:
não se esqueçam de ler "A Estrada" do mesmo autor.

domingo, 2 de março de 2008

Espera

Neste canto do mundo
a horas de um matinal entardecer
sinto-me perdido de todo
abismado com tudo

À minha passagem
range a madeira do estrado
que pende sobre aquele pedaço de rio
E ali
perto da água que me escapa
encontro a tua sombra
o teu preto-e-branco
a cor da tua ausência

Voltarás?
Esperarei sentado
até que a maré se volte a encher
e tu venhas até mim
montada numa anémona
dizendo-me em voz branda em voz solta:
"Levanta-te meu amor
que nada te espante
que nada te detenha
que nada te magoe
É que eu... já sou deste mar"

sábado, 1 de março de 2008

Francisca




Junto ao velho portão da quinta,
ladeada pelo lilás florido de um Estio generoso,
salta ela com os seus trotes de amazona,
os seus laços de madressilva
e o seu odor a malmequeres.

Inventa índios que não vê,
salteadores que só existem nos pesadelos,
enredos de palmo e meio.
Banha-se na prata do luar mais cheio que encontrou,
joga à macaca com a pedra de xisto que encontrou a seus pés
e mistura o riso com o pranto dos seus heróis.

A alegria que sente por despentear o tio,
fazendo-o actor de mil e uma histórias de pasmar,
é a memória daquele Verão inesquecível
em que todos os gnomos a visitaram, sem aviso prévio.

Abre os braços como súplica,
no veludo azul claro que lhe amacia os cílios:
quer mais horas nos seus dias,
quer mais música no seu despertar
quer mais fadas madrinhas no seu entardecer
quer menos passos na nossa areia.


Sabes, Francisca,
a hora em que me despertavas em todas as manhãs do mundo
era o farol para onde quero dirigir meus ponteiros
minhas ânsias e meus ais.
Não apagarei nunca as bolas vermelhas, verdes e amarelas com que me pintavas a cara
para que, um dia, perto da 25ª hora,
possam saber que fui feliz
e tu, outro dia bem mais distante, me possas lá identificar e, enfim, reencontrar.

Nesse instante, continuaremos o jogo (inacabado, mas longe de imperfeito) do peixinho,
sempre à porta de um qualquer casarão
sob os lilases e as magnólias,
agora velados por Alguém que não nos chamará para dormir.

Levar-te-ei ao colo.
Velarei por ti.
Sempre!

A nave dos loucos

Eu bem que queria começar positivo este novo mês.
Mas vemos, ouvimos e lemos notícias que nos deixam estarrecidos com o estado mental deste jardim.
Na Casa Pia de Lisboa, continuam a chegar novas de novos e recentes abusos sexuais em crianças aí internadas.
Mais nomes sonantes. Mais do mesmo.
Apesar do julgamento que decorre na Boa-Hora, como é possível que o predador continue a rondar a quinta, sem medo de ser apanhado pela rede?
E como é possível que continuem a sair crianças para o antro da loucura sem que os responsáveis máximos da instituição controlem e limitem tais saídas?
Compulsão? Pura adrenalina? Indiferença total pelas regras mais básicas de um Estado de Direito?
Não entendo.
Mas não taparei os ouvidos a estes ventos de infortúnio para a infância desvalida que não pediu para sofrer.
Onde quer que esteja, velarei. Pelos meus. E por aqueles que o Estado me pôs na mão.
Para que Março seja como as Primaveras - seja cortado mas volte sempre inteiro!

Março


Este mês sempre foi especial para mim, por variadas razões que a ninguém interessa.

Contudo, uma delas, pode ser partilhada: Primavera, renovação, renascimento...

Também quero entrar neste mês com um sentimento positivo e feliz.

Espero que a "Espuma de Março" nos enriqueça a todos e nos fortaleça.

Bem Hajam

A espuma de Março


Ontem fui negativo.
Nem sempre se acorda a querer gostar de alguém.
Hoje, roubando a tela a um anjo que escreve com uma pena suave,
quero desarrumar as ideias
E partir para um Março mais do que perfeito.

Quero agora ser positivo.
No tempo das framboesas.
E das mágoas contidas das eternas manhãs de Primavera,
as que se escondem no manto de espuma e água doce (um outro nome para o sal da minha vida)
que a tua sombra deixa em mim...