sábado, 1 de agosto de 2009

Água Crioula


Hei-de cantar este sol este poente
esta terra lavrada pelo mar
este povo que amassa docemente
o pão espesso e escuro. Hei-de cantar
o eco das origens destas rochas
sólidas e puras. Deste chão em forma
de poema onde a nossa luz nascente
é a voz da manhã tépida e morna

hei-de cantar os búzios e as conchas.
Areais
de corpos que se entregam. Acácias carmesim
divinizadas. Que mais
posso cantar?

Talvez o nada que há em mim…



Olinda Beja (S. Tomé e Príncipe) - in Água Crioula

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Quixote e Dulcineia


Herr Alleswisser fez um castelo de livros e, sem mais delongas, instalou-se nele; ponta a ponta, foi lendo a sua casa e, lendo, sentia-se feliz.
Um dia, de tanto ler paredes e pilares, o castelo ruiu; e Herr Alleswisser achou-se soterrado sob a sua cultura e viu-se nu, com fome, com sede, exposto à bruta crueza do Mundo.
Hoje, Herr Alleswisser é um sem abrigo e vive debaixo da ponte Erscheinigungsbrücker, onde passam os carros que seguem para Berlim Oriental.
Só quando confrontado com a vertente prática das ruas que apenas conhecia como ideia nesses livros que lia é que Herr Alleswisser compreendeu que a Literatura, só por si, não constitui a Cultura.

Que ser culto, implica viver na mesma proporção em que se teoriza, sob pena de o sabor de uma carne ou de um peixe não ser a carne ou a peixe mas apenas uma sensação da saliva que surge à boca ao pensar-se uma iguaria abstracta que não é mais que metáfora.
Ao descobrir isso, Herr Alleswisser obteve o impensável: perdeu tragicamente o seu castelo, para encontrar na condição de sem-abrigo aquela completude que buscava.

Dulcineia, meus Quijotes, está ao virar da esquina, não ao virar da página!



Publicada por Miguel Joao Ferreira in http://persona08.blogspot.com/



Boas férias e um grande MAR...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

uma gaivota de Julho



Para o G.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Canção de fazer caminho





Queres vir à minha barca?
A transbordar de violetas!
Iremos longe sem nos pesar
aquilo que aqui deixamos.

Sem saudades iremos longe
— seremos duas, seremos três.
Podeis vir, vinde à nossa barca,
a vela alba, o céu aberto.

Todos os braços terão seu remo
— seremos quatro, seremos cinco! —
e os nossos olhos, astros dispersos
os seus limites esquecerão.

Março conduz-nos, a ventania,
as loucas nuvens do coração.
Seremos vinte, ou já quarenta,
a lua será nosso estandarte.

Bruxas de ontem, bruxas do dia,
no alto mar nos acharemos.
Em tudo a vida brotará
como uma dança vegetal.

E sob a pele de onda salgada
seremos quinhentas, seremos mil.
Até que a conta perderemos.
Juntas faremos nossa a noite.

Maria Mercé Marçal (Barcelona)
Trad. de Egito Gonçalves
Quinze poetas catalães, Ed. Limiar, Porto, 1994.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Para Ti.


"Talvez as necessidades emocionais mais profundas sejam os tijolos e o cimento com que construímos as nossas ilusões."

Richard Zimler, A Sétima Porta

domingo, 26 de julho de 2009

17 anos com a C.

Sem dizer uma palavra
Apenas dedicando-te o pássaro louco de fogo que me afaga a alma e a voz
E que me inunda a pele...


Pela pessoa que és, pela ave que me faz voar mesmo sem asas..


Eu não sei onde ir
Para cair em teu caminho
Se é na cidade onde eu nasci
Ou pertinho de mim
Eu não consigo decifrar
O que parece tua voz
E eu quis escutá-la
Mais de uma vez
Um dia ou outro
Mas quando tu estiveres aqui
Este dia ou outro
Eu saberei que és tu
Entre tantas outras
Mesmo sem dizer uma palavra
Sem dizer uma palavra
Eu não sei o que tocar
Para cair em teus dedos
Melhor ainda, pode acontecer colocarmos
Nossas mãos no mesmo lugar
Eu não sei onde buscar
Mas eu compreendo, às vezes
que eu teria que observar diante de mim
Eu saberei que és tu
Entre tantas outras
Mesmo sem dizer uma palavra
Sem dizer uma palavra


Do P.

Pré-campanha




NA CAPITAL

"Quem manda aqui?"
perguntei
Responderam:
"O povo, é claro"

Eu disse:
"É claro, o povo,
mas quem
manda de facto?"



Erich Fried
(Áustria, 1921-1988)

25

CANÇÃO


Canto o que vem comigo desde antes
e são modulações do mesmo grito

Como os grilos que ora tracejam a noite
com seu canto simplesmente folha transformado em vida.

Hoje, que hei-de dizer-te?
Que esteve claro o dia e turva a vista

Que nada retive de seu esplendor
já outonal, senão um ritmo

Este que faz as mãos acariciar as palavras
como se fossem de vidro.


Luísa Mendes Furia (Brasil, 1961)

Como um rio que corre..até nunca..até sempre.


Hoje estive, onde deveria ter estado e não estive, há 17 anos atrás.

Eles foram o melhor remédio para mim.

Rejuvenesci e voltei a crescer em algumas horas que passamos.

Um bálsamo para a alma....eles sabem e eu sei.

Obrigado.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Bastonadas


"Só hoje estão agendados, em todos os tribunais judiciais de primeira instância, 527 julgamentos e diligências com intervenção de juízes, o que dá uma média de quase 2 por tribunal. Desta forma, enquanto o Sr. Bastonário da Ordem dos Advogados se diverte nas festas e beberetes das inaugurações, e dá as suas entrevistas maldosas para dizer que está tudo em casa a gozar privilégios, há centenas de juízes, procuradores, funcionários judiciais e advogados que estão a trabalhar para cumprir o melhor possível a sua função..."


António Martins, Juiz Desembargador



E eu que há cinco dias que não faço mais nada do que julgar, ouvir, despachar, sozinho num tribunal de outro mundo...

Sr. Bastonário: e não há ninguém que o extermine?!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

bABY bOOM



Na minha despedida do TFM...

sábado, 18 de julho de 2009

Um violino na minha tarde de madrigais



É privilégio de quem ama
ouvir um violino até na lama...

(NB- volto ao filme "Ladies in lavender" e a esta música fenomenal de Nigel Hess, pela voz do violino de Joshua Bell)

Vide Cor Meum



Florença entardece enquanto o coração dos amantes parece ter fome de bruma e de partilha.


(NB - o fime é HANNIBAL e a cena é de cortar a respiração, ao som de VIDE COR MEUM, composta para o filme, a partir de libreto de Dante).

Isto é para ti, P., que me fizeste redescobrir esta cena.

Eros (no Antigo Testamento)



A Biblia também é plena de metáforas sensuais.
Vejam este excerto do filme "Keeping Mum" (com a minha imprescindível Maggie Smith), com o nosso Mr. Bean, com uma voz de outro mundo, a ler a Canção de Salomão, olhando a Kristin Scott-Thomas.
Uma pérola...

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Nos teus braços


Balancé



VIvo a mesma história no meio dos outros,
essas almas que nem me olham, apenas me tocam,
de mansinho, de perto ou em veludo.
Morrem tias idosas
o pai continua sem falar
ela continua sem acordar
E o mundo roda à minha volta
impiedoso, solene, cruel, sereno, malévolo, doce e amergo ao mesmo tempo
Estou cheio de pais e de filhos
de sonos interrompidos
de cegonhas míopes e insensatas
Estou farto de névoas, de calor húmido e de sol às carradas
Estou pleno de ar fátuo, de fogo preso, de irmãos e irmãs
Quero mergulhar na onda mais revolta da lagoa
aquela que me traz o cheiro do espanto,
do riso e do pranto
da mágoa e da alegria disfarçada em tons de escarlate
Estou à beira de um ataque de flores
sujas, estarrecidas, cinzentas.
O Papa caiu neste Estio
E na Indonésia choram-se os mortos que não estavam vivos
Harry Potter não se cala,
Merlin impacienta-se
E o vírus está quase a apanhar-me...
É, no fundo, a mesma história de sempre.
Até que...

No dia em que a Leonor faz anos


As horas estão mais graciosas esta manhã
A infanta apagou a vela mais pequena que a casa tinha
E o melro cantou com o canto do rouxinol
As águas correram felizes pela greta dos junquilhos e da madressilva
E a vida pareceu mais leve do que nunca.
E a Leonor riu ufana, olhando para o sorriso da Mãe João e para a paciência do Pai Pedro...
E nos, teus padrinhos, estivémos lá!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

SER

Não tenho pressa. Não tenho dever. Não conheço ninguém. E nada espero.

A star is born


Eu sabia que eras importante ...
Mas todas as minhas expectativas foram excedidas.
Nem imaginava ... !
Depois de abrires o link abaixo, escreve o teu primeiro e último nome. http://www.monfestival.fr/

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Gregory



Escreveu a sua história
e partiu para o sétimo céu
onde não há anjos nem auréolas
nem pratas, nem ouro solene, nem nuvens de algodão.
Morreu aos 23.
Assim, como uma espécie de perdão.

Dedico esta canção à F. (Paris)

Metade


Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.


(Oswaldo Montenegro)

E por falar em tulipas...


CANÇÃO DE UMA DAMA NA SOMBRA


Quando vem a taciturna e poda as tulipas:
Quem sai ganhando?
Quem perde?
Quem aparece na janela?
Quem diz primeiro o nome dela?
É alguém que carrega meus cabelos.
Carrega-os como quem carrega mortos nos braços.
Carrega-os como o céu carregou meus cabelos no ano em
[que amei.
Carrega-os assim por vaidade.

E ganha.
E não perde.
E não aparece na janela.
E não diz o nome dela.
É alguém que tem meus olhos.
Tem-nos desde quando portas se fecham.
Carrega-os no dedo, como anéis.
Carrega-os como cacos de desejo e safira:
era já meu irmão no outono;
conta já os dias e noites.

E ganha.

E não perde.
E não aparece na janela.
E diz por último o nome dela.
É alguém que tem o que eu disse.
Carrega-o debaixo do braço como um embrulho.
Carrega-o como o relógio a sua pior hora.
Carrega-o de limiar a limiar, não o joga fora.

E não ganha.
E perde.
E aparece na janela.
E diz primeiro o nome dela.

E é podado com as tulipas.


Paul Celan

(tradução: Claudia Cavalcanti )

E de volta à chuva



Porque sou sacerdote da chuva...
mesmo em tempo de Estio!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Concerto em Água Maior (sonata em 12 andamentos)


O relógio do tempo não tem sempre as horas certas.

A chuva de Agosto tem ciúmes do Julho húmido e quente.

A água pede sempre perdão por tamanho descalabro em hora errada e esconde-se, envergonhada, do solstício de Junho, em canto dolente.

Pois Maio foi mau conselheiro, Abril esteve cheio de águas mil,

E Março foi sorrateiro, irmão do breve Fevereiro,

a chuva soprou, enfim, ao ouvido do frio Janeiro, pedindo tréguas, sol de permeio, milagres de sombra e cheiro...

E Dezembro lá ficou parado no tempo, à espera dos outros natais,

daquele Novembro sentido e outonal, vizinho das trevas,

e dos Outubros indiscretos que não param de sondar Setembro em busca de redenções fatais...

E, de novo, em Agosto, a chuva não parou de cair,

enquanto a ociosa cigarra incomodou a cinzenta formiga,

amiga de sua amiga,

adversárias da mesma liga.

Juntas,

perto do véu pintado

da cambraia dos novos tempos,

as bacantes rumaram

ao relógio de sol,

em busca de melhores horas,

Caia sol ou faça chuva...

sábado, 11 de julho de 2009

A Portuguesia.



Nem sempre a voz inesquecível da portentosa actriz Fernanda Montenegro se ouve como seria desejável, mas é sempre quente ser agarrado pelas pontas da emoção de pertencer a uma língua e uma humanidade.

A propósito de um festival de poesia lusófona que nestes dias tem lugar aqui no Norte, numa cidade que me é particularmente próxima, porque lá iniciei a minha carreira, Vila Nova de Famalicão.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Estarrecido

O corpo do cantor Michael Jackson, que não foi avistado pela mídia desde o fim de seu velório público na terça-feira (7), teria voltado ao cemitério de Forest Lawns, diz o site da rede de TV norte-americana ABC.

A ABC diz que uma "fonte próxima da família" que não quer se identificar garante que o corpo do cantor, dentro de um caixão de ouro, permanece sem ser enterrado no cemitério de onde saiu o cortejo para o funeral público.

O site ainda afirma que o corpo pode ser enterrado em outro lugar - os irmãos e a mãe de Jackson, Katherine, discutem ainda se o cantor não deveria ser enterrado em Neverland, o misto de rancho e parque de diversões criado por Jackson, onde ele residiu entre 1988 e 2003.

Michael Jackson morreu devido a um ataque cardíaco sofrido em casa, no dia 25 de junho. A morte está sendo investigada por agentes do DEA, órgão de combate às drogas dos EUA, devido a uma suspeita do envolvimento de uso de remédios controlados no óbito.

Cristiano Ronaldo é apresentado diante do Santiago Bernabéu com público de dia de jogo
Se na semana passada o mundo ficou impressionado com os mais de 50 mil torcedores na apresentação de Kaká no Real Madrid, nesta segunda-feira (6), mais um recorde foi batido pelo clube merengue. Cerca de 85 mil pessoas lotaram o Estádio Santiago Bernabéu para ver pela primeira vez Cristiano Ronaldo vestindo a camisa do clube merengue.
Contratado por € 94 milhões (aproximadamente R$ 256 milhões), o ‘gajo’ assinou contrato de seis anos (especula-se que ganhará cerca de R$ 27 milhões por temporada) e recebeu o mesmo número que já pertenceu ao ídolo Di Stéfano, que aos 83 anos esteve presente na festa, e ao xará Ronaldo.
A torcida, que começou a entrar no Bernabéu por volta das 19 horas locais (14 horas, de Brasília) quando os portões foram abertos, não cansou de aplaudir o ex-jogador do Manchester United e Sporting. O único setor não ocupado totalmente era o que ficava justamente atrás do palco de onde Cristiano saudou a todos.
Depois de ser apresentado pelo presente Floretino Pérez, Cristiano Ronaldo, que durante o discurso do presidente cochichou algo com Eusébio - ex-jogador da seleção portuguesa que também marcou presença no evento -, falou emocionado.
“Estou muito feliz por estar aqui. Conseguir cumprir meu sonho de criança que era jogar no Real Madrid e não esperava que o estádio estivesse cheio assim. Não consigo acreditar. Impressionante. Muito obrigado”, agradeceu Cristiano Ronaldo, que, em seguida, contou até três e disse: “Vamos Madrid!”



E assim vamos.....

Estarrecido com as prioridades do mundo e aquelas, como estas, que nos impingem, à conta de não pensarmos noutras coisas.

Tristeza e desolação é o mínimo que todo este circo obsceno pode causar.

Não basta a vida real, ainda nos impingem estas coisas inefáveis a toda a hora, em todos os canais generalistas, mais os da Cabo derivados dos generalistas, que nos obriga a desligar a tv. Culpa deles ? dos próprios? sem dúvida...mas culpa, essencialmente, dos média, dos medíocres que hoje se intitulam jornalistas com estágios de meses em qualquer chafarrica e cursos de bolso, e do people...que ADORA circo e nunca se acha enganado....a não ser quando os bancos fecham, as contas são congeladas e o Estado não nacionaliza o banco...

Raios partam todos. Se tivessem que viver...

Nojo....

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Excessos



Um médico estava a fazer a sua caminhada matinal quando viu esta velhinha sentada no degrau da sua varanda fumando um cigarro. Curioso, ele foi até ela e perguntou:
"Não pude deixar de notar como a senhora parece feliz! Qual é o seu segredo?"
"Eu fumo 20 cigarros por dia" respondeu. "Antes de ir pra cama eu fumo um grande charro, bebo uma garrafa de Jack Daniels por semana e só como porcarias. No fim de semana, tomo pílulas, faço sexo e não faço nenhum exercício fisico".

O médico espantado: "Isso é extraordinário! Quantos anos a senhora tem?"
"Trinta e quatro
" respondeu.

domingo, 5 de julho de 2009

Não culpes a lua



Não culpes a lua, não.
A culpa é sempre do sol.
Que a claridade, em si, tem sempre razão, mesmo indefesa.

Para que conste...

sábado, 4 de julho de 2009

Uma ponte na via latina

Concerto perfeito.
Desde o fado, ao tango, do folclore à reinvenção - total - da música...
Não tenho palavras para descrever o estado puro da diva
Quanta cor teve este Julho...

Vamos olhando o mundo











Tudo vai desmoronando, e tudo se vai construindo...metade de nós está a passar e outra metade a começar.




Venha Agosto para aquecer os espiritos e os corpos.




Estou impregnado de mortos, velórios, choros e angustias.




Vivamos....(mesmo a ter que aturar o Cristiano, o Tony, O Malato, o Goucha, A Furtado, a Leite de Castro, e quejandos e quejandas..)...até aturo a TVI ...mas vivamos.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Dueto (moderato cantabile)


Não se olhavam.

Na partilhada penumbra ambos estavam sérios e silenciosos.

Ele tinha-lhe pegado na mão esquerda e tirava-lhe e punha-lhe o anel de marfim e o anel de prata.

A seguir pegou-lhe na mão direita e tirou-lhe e pôs-lhe os dois anéis de prata e o anel de ouro com pedras duras.
Ela estendia alternadamente as mãos.
Aquilo durou algum tempo.

Foram entrelaçando os dedos e juntando as palmas das mãos.
Procediam com lenta delicadeza, como se temessem enganar-se.
Não sabiam que era necessário aquele jogo para que determinada coisa acontecesse, no futuro, em determinada região.



jorge luís borges - história da noite - obras completas III - círculo de leitores


(roubado de um barco de flores)


Fala com ela...


Giselle descansou os olhos e os seus sapatos vermelhos
E rodopiou uma última vez...
ONDE ANDARÁ AGORA A BELEZA DO MUNDO?

terça-feira, 30 de junho de 2009

O vento tem cor?



Feliz, quem sabe, o vento. Sem memória,
beijando-me nos lábios, ele abraça
o meu destino às cegas na paisagem.
É sempre nesse instante que regresso
à poalha do céu onde começa
talvez a maldição, talvez o encanto
de invocar-te em silêncio. Porque, eu sei,
entre palavras morre a cor dos sonhos,
o vão pressentimento de estar vivo.

Feliz talvez o vento e no entanto,
arrasta ainda areia e vagas vozes
na praia ao abandono. A luz da tarde
encobriu-se de névoa, só o mar
ficou perto de mim – agora é simples:
as ondas trazem novo o teu sorriso,
movem o seu abismo nos meus olhos,
mas lágrimas nenhumas vão salvar-me
o corpo, a alma, as cinzas, esta vida.


Fernando Pinto do Amaral, “Praia”

sábado, 27 de junho de 2009

O sorriso mulato de Peter Pan



É de génio...

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Afinal o coração dele não tinha cor




O pior é quando o infrene bailarino não aceita a cor que tem e é traído pelo maldito coração que não tinha todas as portas abertas...
Paz, Michael! Junto das auréolas dos anjos...

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O coração dela tem três portas



Via Latina, Pátio das Faculdades, 3 de Julho de 2009 - 21h30m

domingo, 21 de junho de 2009

21.06.1962.



A alguém que adivinho como amigo.
E que, José, nasceu nestas paragens.

Já agora


Já agora...estou-me marimbando para os comentários correctos e impolutos que, quem sabe, venham aí. Odeio o Tony e o Cristiano e outros tantos e não cedo ao favor nacional (diria parolice e foleirice nacionais). Gostam ? comam. Não gostam? não estraguem....há sempre quem queira.

Tudo se recicla. Ou quase tudo....

"Passo o dia a sonhar contigo, repete e repete....passo o dia a sonhar contigo"...Tony o Homem que vai acabar com a violência doméstica ....se lhe derem uma chance....e ele estiver para aí virado com umas notas a acenar.

Miséria a 100%


Portugal chegou hoje (?) a um dos mais fundos poços que já conheceu.

A nossa RTP (apadrinhada com todos aqueles apresentadores que podiam ter um pouco mais de vergonha na cara) passou o dia a ejacular uma festa de pic-nic na Bela Vista em Lisboa (onde ocorrem festivais e concertos da moda dos festivais de Verão e da cerveja, se não estou em erro...como tudo hoje em dia...o próprio Campeonato é dea Cerveja e tem gajas boas a abanar bandeiras nos inicios dos jogos...isto sim é um país de Gajos) que nos atingiu a todos na face...bastava ligar a tv..."Passo o dia a sonhar contigo" e outras merdas quejandas fizeram o sábado do calor. Tony Carreira...o português...e depois o cromo CR7 que teve honras de abrir o Telejornal só porque resolveu vir aqui ver a familia.....Isto está tudo abaixo de cão. Olhem...se não morreram....tirem férias...prolongadas....este país é um colosso já dizia a saudosa Ivone Silva, secundada pelo tonto do Camilo de Oliveira...e pronto...batam-me, chamem-me nomes...que merda de país. Sinceramente.....Tony, Cristiano, Morangos, Blá Blá Blá....que lhes dê a todos uma crise de diarreia imparavel.

Mas, por mim, tinha posto uma bomba de neutrões no Bela Vista hoje....hehehehehehehehehehe

sábado, 20 de junho de 2009

na areia a 18/06


"Penso que não sofria com a tua partida. Estava tudo ali como habiutualmente, as árvores, as rosas, a sombra móvel da casa sobre o terraço, a hora e a data, e tu, apesar disso, tu estavas ausente. Não pensava que tivesses de regressar. Em volta do parque rolas sobre os telhados gritavam por companhia. E depois eram sete horas da tarde.


Dise para mim que te teria amado. Pensava que já só me restava de ti uma recordação hesitante, mas não; enganava-me, havia ainda estas praias em volta dos olhos, onde beijar e deitar na areia ainda quente, e esse olhar centrado na morte."


Marguerite Duras, Textos Secretos.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

New York, New York

Boa viagem!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

75 rosas


Jaz imóvel no seu leito
há tanto tempo,
há tantas luas
Luta desenfreadamente
com o último espectro do Tempo -
e não cede, resiste, dá luta, mortifica-se...
Hoje faz mais uma primavera - aquela que está perto dos seus anos de luz e cor.
Para a F., com uma vénia...

sábado, 13 de junho de 2009

Ficção USA de luxo


Não me canso de ver esta família...

Lista de amigos


Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?
(Oswaldo Montenegro)

O império do sol nascente


Garça, graça imensa de ave vestida
no crepúsculo das sombras vadias que o dia sempre deixa, exausto e exangue:
não sei que cores me espantam.
não sei que brumas me afagam:
se as de Agosto, se as de Maio.
Sol nado, cruz de sol e madressilva
arlequins de penas e fados
Nasci?
No dia em que morri...

Chá e Simpatia


sexta-feira, 12 de junho de 2009

O caco e o cântaro


As pessoas de quem gostamos são, na verdade, como cântaros – como cântaros que tivéssemos moldado a partir de um pedaço de barro. Explico melhor: a matéria humana está, como o barro, semeada de impurezas.

Se, a partir desse barro impuro, e sem o cuidado de expurgá-lo do areão que nele há, moldarmos o cântaro que há-de ser o nosso cântaro mais estimado, cujas curvas serão as mais perfeitas, porque desenhadas com as nossas próprias mãos, teremos dificuldade em reconhecer na nossa obra o defeito intrínseco que nela há: a presença das pequenas pedrinhas que são o defeito do barro, como, nas pessoas de que gostamos, as falhas de carácter que têm e as imperfeições naturais à espécie.

Terminada a fabricação do cântaro, deixá-lo-emos a cozer ao sol e logo então as impurezas, dilatadas pelo calor, começarão a minar por dentro o objecto do nosso afecto. O cântaro estalará, abrirá fendas e tornar-se-á imprestável para a função que lhe tínhamos destinado, mas, ainda assim, continuaremos a querê-lo e a estimá-lo, não já pelas suas qualidades objectivas, mas apenas por ser o nosso cântaro, aquele que é construção nossa.

E isto até ao dia em que, por fim, o cântaro se partirá em mil pedaços, revelando-nos aquilo que sempre devia ter sido óbvio: que de um mau barro não se faz um bom cântaro.


Manuel Jorge Marmelo, “Zero à Esquerda”

In http://novelosdesilencio.blogspot.com/

Responder Encaminhar

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Corpus Christi

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Dia da ... Raça?


No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dhüa austera, apagada e vil tristeza.

OS LUSÍADAS, x,145

Falta-me um filho...

domingo, 7 de junho de 2009

Paul Gauguin - 07.06.1848

Cristo Amarelo.

sábado, 6 de junho de 2009

Ligar os caminhos com fios de Ariadne


"Só depois de ter conhecido a superfície das coisas nos podemos aventurar a procurar o que está por baixo. Mas a superfície das coisas é inesgotável."
Italo Calvino, In Palomar

"... Sabes onde o conceito de labirinto apareceu pela primeira vez?
Respondo que não com a cabeça.
- Foi na antiga Mesopotâmia. Extraíam as entranhas dos animais, e de seres humanos também, possivelmente, e baseavam-se na forma que tinham para prever o futuro. Apreciavam a forma complexa dos intestinos. Daí que se pode dizer que o protótipo dos labirintos reside, numa palavara, nos intestinos. O que significa que o princípio que presidiu à invenção do labirinto reside dentro de ti. E isso está de alguma fora relacionado com a noção de labirinto fora de ti.
- Mais uma metáfora - alvitro eu.
- Exactamente. Uma recíproca metáfora. As coisas no exterior são projecções do que tens dentro de ti, e o que tens dentro de ti é uma projecção do que te rodeia. Por isso, quando entras no labirinto exterior que te cerca, estás ao mesmo tempo a penetrar no teu labirinto interior. Uma odisseia perigosa, sem sombra de dúvida."
Haruki Murakami, in Kafka à beira-mar.


"Conheces o nome que te deram,
não conheces o nome que tens"
Livro das Evidências, citado por José Saramago, in Todos os Nomes.

“Travada a mente na ideologia...”
Caetano Veloso

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Para o César


Para o César especialmente hoje. Ele sabe porquê.
E porque há sempre um, ou mais (graças a Deus) nas nossas vidas.
Gui.

A Piaf


Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “ça ira”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.
Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida. quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
do desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.


6 Outubro 64


Jorge de Sena, Arte de Música

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Ser Tigre


Arménio Vieira, Prémio Camões,- 2009



O tigre ignora a liberdade do salto

é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula

o tigre não ama.
Ele busca a fêmea

como quem procura comida.
Sem tempo na alma

é no presente que o tigre existe.
Nenhuma voz lhe fala da morte.

O tigre, já velho, dorme e passa.
Ele é esquivo,

não há mãos que o tomem.
Não soa, porque não respira.

É menos que embrião

abaixo do ovo, infra-sémen.
Não tem forma, é

quase nada, parece morto.
Porém existe, por isso espera.

Epopeia, canção de amor,

epigrama, ode moderna, epitáfio,
Ele será

quando for tempo disso.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Ninguém como nós conhece o sol


Sebastião Alba nasceu em Braga,em 1940.
Após viajar para Moçambique, passou a conviver com um importante grupo de escritores e intelectuais.
Foi jornalista, guerrilheiro político, e teve uma vida bastante agitada e cheia de desilusões, com passagens por prisões e hospitais psiquiátricos.
Alba passou o tempo a viver como andarilho, acabando por morar na rua e morrendo atropelado por um motorista em Braga, sua terra natal.


"A Poesia foi, para mim, corso: de quando em vez, fazia abordagens. Claro que trago comigo, como qualquer pirata que se preza, o mapa desse tesouro, onde ninguém o encontrará: na pala do olho direito — com o esquerdo, não sei porquê, vi sempre melhor."



Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.