
terça-feira, 27 de maio de 2008
Embriaga-te (Sem cessar).



Devemos andar sempe bêbados.
Tudo se resume nisto: é a única solução.
Para não sentires o tremendo fardo do tempo que te despedaça os
ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê?
Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto.
Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas
duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a
embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à
onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo
o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que
fala, pergunta-lhes que horas são.
"São horas de te embriagares!"
Para não seres como os escravos martirizados do Tempo,
Embriaga-te, embriaga-te sem cessar!
Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto.
Charles Baudelaire
Negro barco (meu queixume)
De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.[Bis]
Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas: São loucas! São loucas!
Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.[Bis]
No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.
(David Mourão-Ferreira)
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Eterna Cannes
O palmarés é este:
PALMA DE OURO - "Entre Les Murs" (Entre Paredes) de Laurent Cantet
PREMIO ESPECIAL DO 61º FESTIVAL - Catherine Deneuve por "Un Conte de Noëll" (Um Conto de Natal), de Arnaud Desplechin e Clint Eastwood por The Exchange (A Troca)
REALIZAÇÃO - "Üç Maymun" (Três Macacos) de Nuri Bilge Ceylan
ARGUMENTO - Jean-Pierre e Luc Dardenne por "Le Silence de Lorna" (O Silêncio de Lorna)
PRÉMIO DO JURI - "Il Divo" de Paolo Sorrentino
Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Régio
domingo, 25 de maio de 2008
Os suspeitos do costume
Parabéns, Vânia.
Com estas novas regras eurovisivas, não vamos a lado nenhum!
Nem com os votos dos emigrantes...
Bem-vindos a uma Europa politizada e de vizinhanças mais do que suspeitas, assente que o Festival em causa só acaba por favorecer as emigrações ilegais!
Assinam:
Gui e César (em C.)
sábado, 24 de maio de 2008
Filhos das Estrelas


«- Nada dura para sempe, George - disse Eric. - Se as estrelas brilhassem para sempre, não estaríamos aqui.
É dentro das suas barrigas que as estrelas transformam pequenas partículas em partículas maiores. É isso que uma reacção de fusão nuclear faz: funde e une pequenas partículas e constrói átomos grandes a partir de átomos pequenos. Esta fusão liberta uma energia enorme e é isso que faz as estrelas brilhar. Quase todos os elementos de que tu e eu somos compostos foram criados dentro das estrelas que existiram muito antes de a terra ser criada. Por isso, pode dizer-se que somos todos filhos das estrelas. Quando explodiram há muito tempo, essas estrelas lançaram para o espaço sideral todos esses átomos grandes que criaram. O mesmo irá acontecer à estrela que estás a ver agora. Irá explodir no final da sua vida, quando não houver mais partículas pequenas disponíveis para se fundirem em partículas maiores. A explosão irá enviar para o espaço sideral todos os átomos grandes que a estrela criou na barriga.
A estrela do outro lado da janela parecia zangada. A cor amarelada estava a ficar avermelhada enquanto a estrela crescia cada vez mais, ficando tão grande que quase não se via mais através da janela. George teve a sensação de que a estrela ia explodir a qualquer momento. Eric carregou no comnado e a janela afastou-se imediatamente da estrela cada vez mais vermelha.
- É ou não é espantoso!? - exclamou Eric. - De início a bola encolhe e nasce uma estrela, e depois a estrela cresce cada vez mais! E agora está quase a explodir! Agora é que não podes tirar os óculos.
George continuou a olhar fascinado para a estrela. De repente, muito depois de ter alcançado um tamanho que ninguém poderia ter imaginado, deu-se a mais poderosa explosão que George já tinha visto. A estrela rebentou, lançando para o espaço sideral enormes quantidades de luz e gás rubro, bem como todos os átomos que tinha criado. Depois da explosão, George reparou que tudo o que restara da estrela era uma nuvem nova e bela, cheia de cores extraordinárias e novos materiais.
- Oooo-ahhhh!- Exclamou. Era como estar a assistir ao mais incrível espectáculo de fogo-de-artifício.
- Sabes - disse Eric-, com o tempo, a nuvem colorida que estás a ver irá misturar-se com outras nuvens provenientes de estrelas distantes que também explodiram. Enquanto arrefecem todos os gases destas nuvens vão misturar-se numa nuvem maior onde voltarão a nascer estrelas.»
"A Chave Secreta Para o Universo" Lucy e Stephen Hawking
Brotherhood

sexta-feira, 23 de maio de 2008
Ai Se Sêsse

Transcrevo aqui um comentário da Eva Negra, num dos últimos posts.
Pela sua oportunidade e beleza, merece este destaque.
Obrigado, C.
"Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pró ceú nós assubisse?
Mas porém se acontecesse que São Pêdo
não abrisse as portas do céu
e fosse te dizê quarqué tulice?
E se eu me arriminasse
e tu comigo insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caisse
e o céu furado arriasse
e as virge tõdas fugisse!!!"
A um rato muito especial

quinta-feira, 22 de maio de 2008
Amor (antigo)

A jovem deusa passa
Com véus discretos sobre a virgindade;
Olha e não olha, como a mocidade;
E um jovem deus pressente aquela graça.
Depois, a vide do desejo enlaça
Numa só volta a dupla divindade;
E os jovens deuses abrem-se à verdade,
Sedentos de beber na mesma taça.
É um vinho amargo que lhes cresta a boca;
Um condão vago que os desperta e toca
De humana e dolorosa consciência:
E abraçam-se de novo, já sem asas.
Homens apenas. Vivos como brasas,
A queimar o que resta da inocência.
Miguel Torga
quarta-feira, 21 de maio de 2008
As máscaras da morte

«- Esta noite estás com um ar meditabundo - disse o meu pai, procurando conversa.
- É capaz de ser a humidade que dilata o cérebro. É o que diz o Barceló.
- Há-de ser mais qualquer coisa. Estás preocupado com alguma coisa, Daniel?
- Não. Estava só a pensar.
- Em quê?
- Na guerra.
O meu pai assentiu com ar sombrio e sorveu a sua sopa em silêncio. Era um homem reservado e, embora vivesse no passado, quase nunca o mencionava. Eu tinha crescido na convicção de que aquela lenta procissão do pós-guerra, um mundo de quietude, miséria e rancores velados, era tão natural como a água da torneira, e que aquela tristeza muda que sangrava pelas paredes da cidade ferida era o verdadeiro rosto da sua alma. Uma das armadilhas da infância é que não é preciso compreender para sentir.
Na altura em que a razão é capaz de compreender o sucedido, as feridas no coração já são demasiado profundas. Naquela noite primitiva de Verão, caminhando por aquele anoitecer escuro e traiçoeiro de Barcelona, não conseguia apagar do pensamento o relato de Clara à volta do desaparecimento do pai. No meu mundo, a morte era uma mão anónima e incompreensível, um vendedor a domicílio que levava mães, mendigos ou vizinhos nonagenários como se se tratasse de uma lotaria do inferno. A ideia de que a morte pudesse caminhar ao meu lado, com rosto humano e coração envenenado de ódio, envergando uniforme ou gabardina, que fizesse bicha no cinema, risse nos bares ou levasse as crianças a passear no parque da Ciudadela de manhã e à tarde fizesse desaparecer alguém nas masmorras do castelo de Montjuïc, ou numa vala comum sem nome nem cerimonial, não me entrava na cabeça. Dando voltas àqilo, ocorreu-me que talvez aquele universo de cartão-pedra que eu dava por bom não fosse mais que uma decoração. Naquele anos roubados, o fim da infância, como os comboios espanhóis, chegava quando chegava.»
Trecho De "A Sombra do Vento" de Carlos Ruiz Zafón
Meu rosário, meu recanto...

Uma girafa do meu tamanho e outra que come estrelas



No meio de uma pradaria africana, entre dois grupos de girafas que se cruzaram, duas passaram distraidamente uma pela outra. De repente, metros adiante, estancaram.Seus longos pescoços giraram cento e oitenta graus, os olhos cravaram-se. Seus corações bateram forte e descompassadamente. Num átomo de segundo, compreenderam ter encontrado a metade da girafa que lhes faltava.
A partir daquele momento mágico, Giravaldo e Girafélia, sempre de pescoços dados, passaram a trotear juntos pela mata.
Tudo caminhava bem, quando certo dia um grupo de caçadores, invadindo a pradaria, levou diversas girafas para países longínquos, entre elas Girafélia.
Somente com muita dedicação a A.G.A. – Associação das Girafas Alcoólatras – conseguiu reverter o seu quadro. No entanto, a tristeza jamais abandonaria o desditoso girafo.
Por seu lado, Girafélia, num grande circo, fazia uma série de números: subia e descia escadas, rodava bolas pelo pescoço e outros tantos que lhe ensinaram.
Em seu giro pelo continente africano, como algo descartável e sem valia alguma, a velha Girafélia foi deixada numa reserva ecológica pelos homens do circo.
Seus olhos cansados cravaram-se, reconheceram-se.
terça-feira, 20 de maio de 2008
Poesia nos USA
O Captain! my Captain! our fearful trip is done, The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won, The port is near, the bells I hear, the people all exulting, While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring; But O heart! heart! heart!O the bleeding drops of red,Where on the deck my Captain lies, Fallen cold and dead.
O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;Rise up--for you the flag is flung--for you the bugle trills,For you bouquets and ribbon'd wreaths--for you the shores a-crowding,For you they call, the swayingmass, their eager faces turning;Here Captain! dear father!This arm beneath your head!It is some dream that on the deck,You've fallen cold and dead.
My Captain does not answer, his lips are pale and still, My father does not feel my arm, he has no pulse nor will, The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done, From fearful trip the victor ship comes in with object won; Exult O shores, and ring O bells!But I with mournful tread,Walk the deck my Captain lies, Fallen cold and dead.
O Design dos colos.







A Cadeira é o meu objecto, de mobiliário, de culto.
Fascinam-me as cadeiras ou colos, como gosto de chamar-lhes.
Deixo-vos alguns dos meus colos preferidos, entre outros, que por falta de espaço não posso mostrar-vos.
Alguns dos exibidos enchem-me a casa. Outros com o tempo e a melhoria, sempre esperada, da "finança",talvez a venham a encher.
Por causa dos colos deixo aqui o tributo por ordem de apresentação a:
- Ludwig Mies Van der Rohe, com a Bed Day e a Chaise Barcelona e respctivo poisa pés;
- Le Corbusier, com a chaise long, LC4 e a chaise basculant, model n.º B 301,c, de 1928;
- Óscar Nimeyer, chaise long;
- Eero Aarnio, com ball chair;
- Charles & Ray Eames, com La Chaise, e a cadeira model n.º 670 e model n.º 671.







