sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Babel



Um disparo fortuito por dois pastores marroquinos continua a poder matar uma turista no Japão.
Porque algo de perturbante se continua a passar entre nós.
No Afeganistão, um homem foi condenado à morte por ter imprimido, de um computador e de uma página da net, um artigo que se referia aos direitos da Mulher.

Prosaicamente...

Continuo a entender que não há guerras justas ou injustas, e que não há penas de morte justas ou injustas.
Há-as e isso basta-me para as condenar, independentemente dos credos que lhe estão subjacentes, das motivações culturais ou sociais que as procuram justificar.
Para que actos barbáricos como este que se visualiza na foto cimeira não se repitam, qualquer que seja a divindade que se venerar, nem por Deus, nem por Alá!

É que as crianças americanas perdidas no deserto do Novo México também são um pouco nossas!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Vivemos todos a mesma história

Queria, neste fim de tarde, partilhar convosco a letra de uma canção do grupo FEIST e que encerra o superlativo filme "Paris je t'aime", realizado por 18 nomes, tantos quantos os bairros escolhidos de Paris.
A versão que vos trago é poliglota (português, francês e inglês).
Podem escutar a canção no endereço do YT abaixo assinalado.
A mensagem é una - estamos todos na mesma dança, vivemos todos a mesma história, mudem as línguas, os costumes, os deuses, os fusos horários, as cores ou as intolerâncias...
Porque, no fundo, a irmã que dá de si o melhor que tem para ver de novo sorrir o irmão doente podia ter qualquer nacionalidade.
Procurem o filme e cheirem-no - sabe a magnólia!

Life’s a dance
We all have to do
What does the music require
People are moving together
Close as the flames in a fire

Feel the beat
Music and rhyme
While there is time

We all go round and round
Partners are lost and found
Looking for one more chance
All I know is
We’re all in the dance!

Night and day
The music plays on
We all part of the show
While we can hold on to someone
We know life won’t let us go

Quel este donc ce lien entre nous
Cette chose indéfinissable?
Oú vont ces destins qui se nouent
Pour nous rendre inséparables?

O que é então que nos separa
Senão aquilo que por acaso nos reúne?
Para quê tantas idas e vindas
Neste caminho infinito?

On est toujours dans la même histoire
We’re all in the dance
Vivemos todos, no fundo, a mesma história…

O ciclo de um dia - ode a um relógio


Farto-me de esperar.

Por ti, por tantos momentos que não tenho, pelo relógio que segue implacável a sua cruzada, sem olhar a devaneios, nem que por um segundo que seja...

Assisto aos meus dias iguais a todos os outros e espanto-me com a minha capacidade de resiliência.

Sou como as Primaveras - corto-me e volto sempre inteiro.

Sossego o meu cansaço nas horas que não tenho, no tempo que não me resta, nos afagos que não mereço.

E tu que não chegas!

Impaciente, com o regaço ainda vazio das tuas coisas, levanto-me e vou escrever um novo mail dirigido à felicidade (cujo endereço desconheço), a pedir para que os relógios suspendam as suas actividades diurnas e só laborem durante a noite, minha eterna cúmplice.

Talvez assim tu chegues a chegar!

Uma questão de patas ... e de letras


O nosso cérebro é doido (mas estimulante e assombroso).

De aorcdo com uma peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea (obrigado Sara), não ipomtra em qaul odrem as Lteras de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.
Fixe, então, seus olhos no texto abaixo e deixe que a sua mente leia corretamente o que está escrito.

35T3 P3QU3N0 T3XTO 53RV3 4P3N45 P4R4 M05TR4R COMO NO554 C4B3Ç4 CONS3GU3 F4Z3R CO1545 1MPR3551ON4ANT35! R3P4R3 N155O! NO COM3ÇO 35T4V4 M310 COMPL1C4DO, M45 N3ST4 L1NH4 SU4 M3NT3 V41 D3C1FR4NDO O CÓD1GO QU453 4UTOM4T1C4M3NT3, S3M PR3C1S4R P3N54R MU1TO, C3RTO? POD3 F1C4R B3M ORGULHO5O D155O! SU4 C4P4C1D4D3 M3R3C3!

P4R4BÉN5!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

ELAS E ELES...




A todas as crianças (nascidas ou pressentidas, nem que seja à custa de um pontapé com a base toda do pé) que nos fazem suar voz e disponibilidade...


Onde estão elas?
Elas que queriam roubar as gargalhadas de Peter Pan
E misturar as cores no “graffitti” mais corrosivo da cidade...
Elas são um pouco de dia, um tanto de noite,
Que buscam, qual nascente, o poente nos olhos dos pais, nas pupilas do Mundo,

Conheço-as de perto, tão longe de tudo...
São muitas. Nossas. Vossas.
Vestem de luz e dor e algumas cicatrizes
Defronte das águas felizes
Com que se querem limpar das agruras da vida,
A mais indecente de todas as obsessões...
Infantes.
Sem navios para tripular. Sem bússolas.
Com uma ânsia de âncora,
de vento na face, vermelhusca de tanto “esconde-esconde”,
de ternura no prato, servido a toda a hora,
de firmeza na ordem dada...

São contrabandistas de afecto,
Piratas de palmo e meio,
Sem bilhete de identidade vitalício,
Vítimas dos olhos vendados por quem os não quer ver

Sofrem.
Sussurram lamentos.
Lutam.
Semeiam tempestades no canto da noite e
Pontapeiam as esquinas das cidades.

Elas são miniaturas de gente
À procura de uma história maiúscula
Que os leia, enfim, como reis,
Afinal, num mundo de poucos príncipes

Elegia a uma Rádio: Central FM, minha eterna Rádio Clube de Leiria


Hoje, aniversário da minha primeira experiência radiofónica, quero louvar a Rádio (porque para mim tem rosto de mulher) onde, ainda piratinha, na minha Leiria natal, fui tão feliz, tripulando durante quase seis anos, em horário nocturno, uma “Nau da Bonança”.
De facto, apesar de agora ser vizinho do Mondego, as minhas águas desaguaram ou nasceram em LEIRIA.
Ò Leiria, Lis-óptima, dominando as ameias das gentes, o histérico deambular das raivas surdas dos entroncamentos, das cores semafóricas em ruas brancas de breu, eis que nos vestes de bairro pobre, de gente rica, sem cheta e só com aquele brilhozinho nas pupilas da escassez!
Um garoto solta um grito absurdo entre os ardinas das desgraças dos outros (que a dele não vende!) e uma varina nazarena sopra o vento do pregão e vende os cachuchos amarelentos de cada dia, contando os tostões que não chega a ver.
Há bonecos de corda pendurados no olhar dos leirienses, ávidos de um toque que seja de um seu semelhante, há lantejoulas estampadas nos anseios dos que querem mais do que sentem, há barcas de madrugada no sorriso primeiro da prostituta da esquina que não se rende às penas mas que se põe a render, há tanto de tanto e tanto de nada...
Em Leiria, pátria desta Rádio, navegam soluços estridentes de uma outra forma de viver os segundos de saudade que se sentem dos serões de província de outrora e oscilam as esperanças destas pedras rolantes que não deixam de pintar o soalho do Terreiro, à espera de melhor sorte.
Não há pássaros nos beirais nem chuva que caia sobre o plaino abandonado porque anonimamente pisado; ouvem-se as buzinas agitadas dos táxis que transportam os filhos da Terra que se consomem em catadupa, encontram-se os contribuintes que pagam, os aduladores que fazem de conta e benzem as supremas atitudes do “Big Brother”, os Hércules e das Desdémonas inventando confusões babilónicas, o violinista cego que toca as notas da desdita, os adúlteros sem aviso prévio, as crianças dos outros que não têm direito a colher baladas felizes...
Subitamente, sentimos necessidade de olhar para a outra margem, para aquela banda de lá, desconhecida.
Faz-nos falta sentir o ar salgado da maré, ver homens e mulheres ao leme de mil e uma terras, manipuladores das graças e desgraças de um país real à nossa espera, gente de boné de pala, de camisola de malha rota, de cachecol tardio, casos com nomes não apagados dos nossos papéis!
Queremos tocar as gentes, COMUNICAR…
Vamos segurar as rédeas dos cabos do convés da vida experimentada e não simulada.
Os lábios da tarde abrem-se à nossa passagem e sentimo-nos perto dos outros que, por vezes, nem nos vêem…
Trabalho em fato de operário, a bordo de uma nau, no dorso de um navio, na asa de uma aeronave, na assinatura de um acórdão mal dormido, na onda de uma rádio nocturna, nossa única companhia, o que interessa é este sabor a vida vivida, a suor frio e a mãos quentes, a sangue correndo nas veias espásmicas da autenticidade, feito hino ao labor de rostos que marcham vivendo, prevaricando, conflituando, comendo as cinzas e as fagulhas do último Inverno, com que alimentam as bocas mais ou menos esfaimadas dos putos de cara rosada e de maça de adão a despontar numa virilidade imprecisa.
Se é a experiência que nos ensina o alfabeto da existência, uma palavra será dita por este rio a todos aqueles que o violam, sem apelo nem agravo. Se NAVEGAR é preciso, um toque de emoção vinda das profundezas das águas é sempre um ingrediente indispensável ao imprevisto, à loucura saudável e ao inconformismo, à vivência da serena mas tão complexa humanidade de todos nós…
E nesta viagem pelo rio abaixo rumo aos outros, às ondas de uma cantiga ouvida na CENTRAL FM (outrora Rádio Clube de Leiria), iremos ver o sussurro da VIDA gritada às postas e a verdade do que se não se chega a sentir e a dizer, naquele escrever de água que logo se apaga mas que subsiste na gramática dos nossos sentidos, das nossas convicções, dos nossos julgamentos, das nossas frustrações, das nossas solidões, das nossas euforias, das nossas paranóias, dos nossos desvarios…
´”Você vive aqui? No meu prédio? Há três anos? Meu Deus, nunca tinha dado por si!”

Magnólia

É tempo das magnólias florirem.
Um camarada cejiano segredou-me algo - elas têm uma particularidade que as distingue das demais: parecem atropelar a natureza e as regras que lhe são inatas, florescem antes de ter folhas...
Conseguisse eu seguir-lhe o exemplo!
Hoje, inventei histórias com a Francisca.
E foi uma manhã em grande!
Perdi parte da noite a ouvir novas da América, querendo saber se seria a Lady Hillary ou o inovador e pouco ortodoxo Obama quem angariava mais delegados.
A saga continua. A concorrer um homem branco, um homem mestiço e uma mulher branca.
Sinais dos tempos. Pedras no charco. Salpicadelas de inovação e de ar fresco.
Tudo é válido para tirar do trono um certo senhor do Texas...
Recordei-me de novo das magnólias - e lembrei o rosto diferente do Obama, filho do Quénia, das savanas miraculosas!
Outras cores, novas estrelas, um novo tempo.
Para a América. Para o velho Mundo também.

O que importa é partir, não é chegar

Partir em busca do Mundo feito de granito e de maçãs pardacentas e rubras, próprias de quem por amor se alimenta...
Não queiras o vinho que corre a rodos pela tua garganta suave, ama antes o discernimento e o medo que continuas a sentir nessa manhã que, sabes, não ser a última...
Aflige-te, Agosto, mas não fujas da cruz de te sentires!

Quem sou?


Começo hoje a florir esta magnólia.
Bem viva. Bem branca. Bem rubra.
Espera-me a vida...