quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Ámen


Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é étero num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen.
Natália Correia
de Sonetos Românticos - Poesia Completa, 1990

Salgada dolência.


Em tuas veias de rosa
de cândida maturidade
quero derramar o meu encanto
quero fluir no meu outono
Na tua nudez de piscina
dourada e marinha
com minúsculas sombras de melancolia
beberei a tua noite azul
e repousarei a salgada dolência
na firmeza macia dos teus róseos músculos
já não serei o fumo de uma sombra
mas um sopro de estrelas
desfalecendo no moroso júbilo
da minha sombra inteiramente aberta
cheia da nítida substância de um páramo terrestre
em dois vasos num só vaso de lucidez ardente.

de Meditações Metapoéticas, António Ramos Rosa e Robert Bréchon, Ed. Caminho, 2003

domingo, 7 de dezembro de 2008

Lugar Exacto/Lugar de Descanso.

O Paraíso está sempre onde existe a felicidade.
Santo Agostinho

Há tanta gente enferma e exausta que, regra geral, o Paraíso é concebido como um lugar de descanso.
Aldous Huxley

A realidade

A cor de quem hiberna.

O desejo






Às cegas


Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome — essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.
Fernando Pinto do Amaral
Às cegas
Relógio d´água - 1977

sábado, 6 de dezembro de 2008

Optimismos


Esta velha anedota de 1929 mostra como nunca faltou quem achasse que "basta dizer que tudo está bem para que tudo esteja bem"...(C. Medina Ribeiro)
Grato ao Abrupto.
PS - Por onde andam os meus co-magnólicos? Se calhar, por outras penas...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Roth - um fantasma que volta sempre à minha cena


Em "O Fantasma Sai de Cena", Roth volta aos temas da velhice e da proximidade da morte, tratados em "O Animal Moribundo".
Como Rip Van Winkle, que regressa à sua cidade natal e encontra tudo mudado, Nathan Zuckerman volta a Nova Iorque, a cidade que abandonou há onze anos.

Sozinho na sua montanha da Nova Inglaterra, Nathan Zuckerman foi exclusivamente escritor: sem vozes, sem jornais nem televisão sem ameaças terroristas, sem mulheres, sem notícias, sem outras ocupações que não fossem trabalhar e enfrentar a velhice.
Percorrendo as ruas como uma alma penada, depressa estabelece três relações que fazem explodir a sua solidão tão cuidadosamente protegida.

Uma é com um jovem casal com o qual, num momento irreflectido, se propõe fazer uma permuta de casas. Eles trocarão a Manhattan do pós 11 de Setembro pelo seu refúgio no interior e ele regressará à vida urbana. Mas a partir do momento em que os conhece, Zuckerman quer também trocar a sua solidão pelo desafio erótico da jovem mulher, Jamie, que o atrai a ponto de o fazer voltar a tudo quanto pensava ter deixado para trás: a intimidade, o jogo vibrante do coração e do corpo.
A segunda relação é com uma figura da juventude de Zuckerman, Amy Bellette, companheira e musa do primeiro herói literário de Zuckerman, E.I. Lonoff. Outrora irresistível, Amy é agora uma velha minada pela doença, guardiã da memória desse escritor americano de nobre austeridade que apontou a Nathan o caminho solitário para uma vocação de escritor.
A terceira relação é com o aspirante a biógrafo de Lonoff, um jovem mastim literário, pronto a fazer e dizer praticamente tudo o que for preciso para chegar ao «grande segredo»de Lonoff. Subitamente envolvido, como nunca desejou ou tencionou voltar a estar, com o amor, a dor, o desejo e o ressentimento, Zuckerman representa um drama interior de possibilidades estimulantes e irresistíveis.

A não perder...

Basta!



Do melhor que se tem feito em Portugal.
Onde andas, Diana?
Ainda a tocar em modestos bares de hotéis?

Fuga (em lá menor)



Não te esqueças de me esquecer.
E quando o fizeres, não te esqueças de chamar pelo meu nome,
discando-me a horas tolas,
gritando pela minha ausência.
Tombam folhas mais do que mortas sobre a minha cama,
é outubro nos meus olhos,
alvo novembro nos meus braços,
vil dezembro no outro lado do telefone que nunca mais chegou a tocar...
Chama-me
para que eu possa, então, fugir de ti.

(e vai para longe de mim)

A 8 dias dos 100


O mar já não era para mim suficiente.
Fazia-me falta um rio um rio sob sombra das árvores.
É difícil a meio da música suportar a luz do café.
(...)
A vila o canto longínquo do tempo deixa-me para sempre.
É pouco.
Nas dunas crescem as flores novas.
(...)
Importa que não haja ilusões sobre este ponto:
é que todos podemos morrer de sede em pleno mar.
(...)
Vivemos sobre a terra.
Apresento-te a nossa casa,
os nomes que damos às coisas,
as honras que nos são destinadas,
este corpo de sangue e nervos.
Sobre ele que julgamos vivo dizes minha razão.
A da vida e a de outras coisas que se percebem.
Os barcos retomam lentos o seu lugar em volta de um coração marinho...
(João Miguel Fernandes Jorge)
A caminho das cem manhãs, Manoel...
A tua vida dava um filme!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Os meus precoces Dezembros


Por isso
as nuvens zangam-se em trovoadas
e vociferam trovões.
É a carcaça - a nossa, a tua e a minha - que grita
o que o resto cala.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Ombro amigo



Não posso dar-te soluções
para todos os problemas da vida,
nem tenho resposta
para as tuas dúvidas e temores,
mas posso escutar-te
e compartilhar contigo.
Não posso mudar
O teu passado nem o teu futuro.
Contudo quando necessitares
estarei junto a ti.
Não posso evitar que tropeces.
Somente posso oferecer-te a minha mão
para que te agarres e não caias.
As tuas alegrias,
Os teus triunfos e os teus êxitos
não são meus.
Contudo disfruto sinceramente
quando te vejo feliz.
Não julgo as decisões
que tomes na vida.
limito-me a apoiar-te
a estimular-te
e a ajudar-te sem que mo peças.
Não posso traçar-te límites
dentro dos quais devas actuar,
Contudo se te ofereço esse espaço
necessario para crescer.
Não posso evitar o teu sofrimento
quando alguma pena
te parta o coração,
mas posso chorar contigo
e recolher os pedaços
para juntá-los de novo.
Não posso dizer-te quem és
nem quem deverias ser.
Somente posso
Amar-te como és
e ser teu amigo.
Nestes dias pensei
nos meus amigos e amigas,
Não estavas em cima,
nem em baixo nem no meio.
Não encabeçavas
Nem concluias a lista.
Não eras o número um
nem o número final.
Dormir feliz.
Emanar vibrações de amor.
Saber que estamos aqui de passagem.
Melhorar as relações.
Aproveitar
as oportunidades.
Escutar o coração
Acreditar na vida.
E tão pouco tenho
a pretensão de ser
o primeiro
o segundo
ou o terceiro
da tua lista.
Basta que me queiras como amigo.
Obrigado por seres meu amigo

Jorge Luís Borges

A todos vós, que sabeis quem sois...

domingo, 30 de novembro de 2008

Dedicatória (em fugidio Novembro)


Foi para ti que criei as rosas.

Foi para ti que lhes dei perfume.

Para ti rasguei ribeiros

e dei às romãs a cor do lume


(Eugénio de Andrade)


Nada mais, C., porque o resto é todo nosso...

Para a Cons


Para a Força e Luz que dela irradiam e que, sendo tão dela, são nossas Graças a Deus e à sua, dela, generosidade e sentido de partilha.
Para mim, serás sempre um sinónimo de Paz, Brilho, Sinceridade, Entrega e Generosidade.
Um Beijo Grande e até breve minha amiga.
Gui.

sábado, 29 de novembro de 2008

La luz más blanca


Nos habíamos deshecho de todo lo negro que hay en el ser humano y, de día, sabíamos que la luz más blanca haría arder cualquier nuevo atisbo de negrura. Pero, de noche, estaba el azul presidiéndolo todo, empapándolo todo. Éramos el azul.

Antonio Colinas
En las noches azules (De Nuevo tratado de armonia)

Recado


Quero desarrumar as palavras embalado pelo bailado dos barcos, aqueles que me levam perto das almas que conheci há pouco e que guardo pacientemente no encosto dos dias.

Treze rosas





Derruba uma floresta
Esmaga cem Homens,
Mas tem um defeito - Precisa de um motorista
O vosso bombardeiro, general
É poderoso: Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito - Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito -
Sabe pensar

(B.Brecht)

Após ver o filme espanhol "Treze Rosas", após assistir à barbárie em pleno século XX na Espanha vizinha, terreno de guerra onde a liberdade de pensamento matava, onde as grilhetas da opressão balofa e setecentista tiravam a vida a inocentes.
Aqui bem ao lado. Perto da nossa barbárie caseira que, por vezes, tende a ficar esquecida na poeira do tempo...

Para lembrar e nunca, nunca mais esquecer!

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Como dizia o poeta



Quem já passou por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou
Pra quem chorou
Pra quem sofreu

Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não
Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão

Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não
Vinícius de Moraes

O futuro e o passado