quinta-feira, 16 de abril de 2009

Carlitos



Ce n'est pas la réalité qui compte dans un film, mais ce que l'imagination peut en faire
Charlie Chaplin,Charlot,Carlitos (Londres, 1889 - Vevey, Vaud, 1977)

Prenda Para a Cris (Eva N.)

Atrasada, mas aqui te deixo a minha prenda de Aniversario:
Uns brincos de princesa.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

segredo

Até o dia tem segredos!

Cabaret


Na porta lentas luzes de neon

Na mesa flores murchas de crepon

E a luz grená filtrada entre conversas

Inventa um novo amor, loucas promessas

De tomara-que-cais surge a crooner do norte

Nem aplausos, nem vaias: um silêncio de morte

Ah, quem sabe de si nesses bares escuros

Quem sabe dos outros, das grades, dos muros

No drama sufocado em cada rosto

A lama de não ser o que se quis

A chama quase morta de um sol posto

A dama de um passado mais feliz

Um cuba-libre treme na mão fria

Ao triste strip-tease da agonia

De cada um que deixa o cabaré

Lá fora a luz do dia fere os olhos

Ah, quem sabe de si nesses bares escuros

Quem sabe dos outros


João Bosco/Aldir Blanc

terça-feira, 14 de abril de 2009

Entre a neve e o deserto




A minha amada é aprazível a meus olhos
como o trigo maduro ondeando em seara.
Fios de prata enfeitam-lhe os cabelos,
como a neve branca enfeita o distante cimo.

O tempo que passou marcou-lhe a pele,
como o arado ao campo fértil,
mas o seu corpo é deleitável
como as mais finas vestes,
e a sua voz é água cantante,
na fonte à sombra do jardim.

Por entre os vinhedos de Silves
persigo a corça fremente,
e suave é o abandono da presa
nas mãos do caçador.

Ela me deu crianças trigueiras
como a terra do Al-Gharb,
cujo riso enche de alegria
o coração de quem ouve!

Tão longe estão as cidades de Deus
e Ele tão perto do meu coração!

Muhammed El-Magrebi

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Após a passagem...


A evolução do homem


La PrimaVera










A cor e a luz de Abril.
A beleza do efémero
A frescura do verde
A ousadia do azul
A pureza do branco

domingo, 12 de abril de 2009

A Deus




Amo-O hoje mais do que nunca.


Sinto-me nas Alturas (junto do farol da minha família)
Por me ter oferecido seu Filho, a horas vivas, para dar sentido às minhas, nossas mortas horas...

sábado, 11 de abril de 2009

Quaresma - à espera do Domingo


Dobrei a tristeza
E arrumei-a lá bem no fundo
Mesmo ao lado
Das ilusões. Das desilusões. E das agruras da vida
Meti-as na mala
Para que não me esquecesse
Do mal que me fizeram...
Fui buscar também os sonhos
Que ainda me restavam
E arrumei-os na bolsa de fora
Para estarem mais à mão
No acaso de se virem a realizar
Mera fantasia...
Ainda havia muito espaço
Na minha mala de viagem
Por isso
Também lá meti as saudades
Que me chegaram
Com o vazio deixado
Por alguém muito querido
Só faltava a esperança
Que tinha perdido algures
Entre o sonho e a realidade
Mas que me apareceu de novo
Assim como que por magia...
Quando já não a esperava
Arrumei-a com cuidado
Para que não se amarrotasse
Juntei as promessas todas
E misturei-as com as mentiras
Que me ofereceram um dia
Meti tudo no mesmo saco
Que não meti na mala...
Deitei-o fora!
Sentada na paragem deserta
E enquanto espero pelo autocarro
Que tarda...
Faço contas à vida
Do que já passou
E do resto
Daquele que ainda me falta...
Somo tudo
E já é menos de
metade...

Ele vem aí...


quarta-feira, 8 de abril de 2009

O relógio da alma


É como se alguém me pisasse
e eu me risse- uma alegria toda cor e luz.
É como se alguém me batesse
e eu cantasse- um canto de amizade e paz.
É como se alguém me cuspisse
e eu passasse indiferente- um caminho claro como o dia.
É como se alguém me apunhalasse
e eu o abraçasse- um fogo de fraternidade humana.
Eu sei o teu nome,
eu sei o teu nome
este vício secreto e interior
esta badalada do relógio da alma
este pulsar no coração do mundo
esta consciência duma ferida em chaga
este sentir a dor duma mulher pobre e faminta.

Eu sei o teu nome,
eu sei o teu nome
Ó silencioso grito dos camponeses sem terra!
Ó vento da certeza que os carrascos temem!



Vasco Cabral, A luta é a minha primavera

in 50 Poetas Africanos, org. Manuel Ferreira

domingo, 5 de abril de 2009

Abril de manhã


Brinca a manhã feliz e descuidada,
Como só a manhã pode brincar,
nas curvas longas desta estrada
onde os ciganos passam a cantar.

Abril anda à solta
nos pinhais coroado de rosas e de cio,
e num salto brusco,
sem deixar sinais,
rasga o céu azul num assobio.
Surge uma criança de olhos vegetais,
carregados de espanto e de alegria,
e atira pedras às curvas mais distantes -
onde a voz dos ciganos se perdia
(Eugénio de Andrade)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Carta (em chorinho)


Desejo a você…
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Crônica de Rubem Braga
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Uma tarde amena
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.
(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Sem mensagem

É mentira que no dia 1 não tenhamos escrito nada no blogue.
Para que conste...

terça-feira, 31 de março de 2009

Conto oriental


TZU-CHI: ENTRE AS FLORES

A luz no lago, de súbito, esconde-se atrás do muro,
Invadem o quarto os cheiros misturados de flores.
Na borda do biombo, o pó que a borboleta espalhou,
Na janela lacada, a mancha amarela da abelha.
Deixa esses papéis oficiais para os escriturários,
Há um criado para cada funcionário público honesto.
Vamos de cavalgada ouvir os poemas um do outro.
Que há de tão urgente nesses assuntos em que perdes o coração?

LI SHANG - YIN (812 - 858)
Chuva na Primavera e outros Poemas
trad. de José Alberto Oliveira.
ed. Assírio e Alvim, col.Gato Maltês

Vincent


A noite era estrelada.
Porque o seu pincel pairou sobre as tintas aguadas do céu inferno
E da luz fez aguarela,
mesmo sem guaches, sem tons de amarelo torrado, com uma orelha a menos...
A noite foi passageira
e o dia finou-se sem matizes de pastel, sem misturas, sem nuances e relógios perdidos.
Ele calou-se
pois pintou a sua alma gémea
e dormiu acordado, em tons de anil e roxo.
Até à próxima tela.
Até à liturgia das horas e das cores...

segunda-feira, 30 de março de 2009

Canção de Amor


Se estivesses a afogar-te, vinha acudir-te,

embrulhava-te num cobertor e dava-te chá quente.
Se fosse xerife, prendia-te
e fechava-te numa cela com aloquete.
Se fosses uma ave rara,
gravava um disco
e ficava a ouvir a noite inteira o teu trilo agudo.
Se fosse o sargento, serias a minha recruta,
e, rapaz, garanto-te, ias adorar a instrução.
Se fosses chinesa, aprendia a língua,
queimava pilhas de incenso, vestia roupas esquisitas.
Se fosses um espelho, invadia as “Senhoras”,
dava-te o meu bâton e punha-te pó-de-arroz no nariz.
Se gostasses de vulcões, seria a lava, em
irrupção contínua da minha secreta fonte.
E se fosses a minha mulher, era o teu amante,
porque a Igreja ao divórcio se opõe firmemente.

Joseph Brodsky, 1995© Cotovia (tradução de Carlos Leite)

O começo do Amor

Carson McCullers (1917-1967)

É isto. Ouve com atenção. Meditei sobre o amor, e esclareci tudo. Vi claramente o que está errado. Os homens apaixonam-se pela primeira vez. E por quem se apaixonam eles?
A boca macia do garoto estava entreaberta; e o rapaz não respondeu.
- Por uma mulher -- disse o velho. -- Sem ciência, sem nada que os sustente, entregam-se à experiência mais perigosa e sagrada desta terra de Deus. Apaixonam-se por uma mulher. Não é isto verdade, meu filho?
- É... -- respondeu murmuradamente o rapaz.
- Começam pelo lado errado do amor. Começam pelo mais alto. É para admirar a tão grande miséria resultante? Sabes como os homens deveriam amar?
O velho estendeu a mão e agarrou o rapaz pela gola da blusa de couro. Sacudiu-o suavemente, e os olhos verdes olhavam sem pestanejar, graves.
- Meu filho, sabes como o amor devia começar?
O rapaz sentia-se pequeno no banco, todo ouvidos, imóvel. E, devagar, abanou a cabeça. O velho chegou-se mais e segredou:

- Uma árvore. Um rochedo. Uma nuvem.

sexta-feira, 27 de março de 2009

O coveiro e o crânio de um legista


1º Coveiro
O tempo, sem que eu sentisse,
Em suas garras me enleou;
E comigo nesta terra,
Sem eu querer, me enterrou.

Faz saltar uma caveira.

Hamlet
Também aquele crânio já teve língua e também podia cantar, outrora; com que crueldade aquele patife o faz rolar pela terra juntamente como se se tratasse da queixada de Caim, o primeiro assassino! É muito capaz de ser a carcaça dum político, o crânio que este bruto tão maltrata; dum homem talvez que julgava brincar com Deus. Não é possível?
Horácio
É muito possível, senhor.
Hamlet
Ou talvez o crânio dum cortesão que poderia dizer:«bom-dia, meu querido senhor! como passais, meu venerando senhor?» Era - quem sabe? - o do senhor qualquer coisa que elogiava o cavalo de outro senhor qualquer coisa, sempre que tinha intenção de mendigar-lho; não será assim?
Horácio
É, meu senhor.
Hamlet
Sim, é isso mesmo; e agora ei-lo propriedade de Dona Vérmina; sem queixos, e mutilado no nariz pela pá dum coveiro... que transformação admirável para quem tem olhos de ver! Estes ossos custaram, pois, muito pouco a formar, porque apenas servem para jogar a bola. Doem-me os meus, só de pensar em tal...
1º Coveiro (canta)
Uma enxada e uma pá,
Um lençol, rico vestido!
Boa morada, uma cova!
Pode qualquer ser servido.
Faz saltar outra caveira
Hamlet
Mais outra! Quem sabe se será o crânio dum legista! Que é feito agora das suas subtilezas? das suas distinções? das suas espécies?
das suas conclusões? das suas ardilezas? Por que será que ele deixa este grosseiro mariola espancá-lo na carcaça com aquela suja enxada e não lhe intenta uma acção por ofensas corporais? Hum! este cavalheiro foi no seu tempo grande comprador de terras, com hipotecas, reconhecimentos, transferências, duplos fiadores, cobranças... Ora aqui está no que deu o trespasse dos seus trespasses, a cobrança das suas cobranças, para gozar a alegria de ter a carcaça cheia de lama tão bela! Não é verdade que as fianças duplas lhe não garantem outra coisa das suas aquisições, que não seja dupla posse em comprimento e largura dum espaço tão grande como um par de processos? Os títulos das suas propriedades mal caberiam nesta boceta; e para que precisa o proprietário de mais?
Horácio
Nem mais uma polegada, senhor
SHAKESPEARE, in HAMLET

quarta-feira, 25 de março de 2009

Caminhos traçados





Somos livres ou determinados ? (no sentido de determinismo, não de decididos ou convictos).
Traçamos que caminhos ? mesmos os escolhidos serão os nossos ?