quarta-feira, 6 de maio de 2009

Os disfarces em Pessoa


  
É tão suave a fuga deste dia,
Lídia, que não parece que vivemos.
Sem dúvida que os deuses
Nos são gratos esta hora,

Em paga nobre desta fé que temos
Na exilada verdade dos seus corpos
Nos dão o alto prémio
De nos deixarem ser

Convivas lúcidos da sua calma,
Herdeiros um momento do seu jeito
De viver toda a vida
Dentro dum só momento,

Dum só momento, Lídia, em que afastados
Das terrenas angústias recebemos
Olímpicas delícias
Dentro das nossas almas.

E um só momento nos sentimos deuses
Imortais pela calma que vestimos
E a altiva indiferença
Às coisas passageiras

Como quem guarda a coroa da vitória
Estes fanados louros de um só dia
Guardemos para termos,
No futuro enrugado,

Perene à nossa vista a certa prova
De que um momento os deuses nos amaram
E nos deram uma hora
Não nossa, mas do Olimpo.

Odes de Ricardo Reis - Fernando Pessoa.  
 

Temendo ler



São tempos diferentes.
Penélope, gasta e de óculos escuros
para que não a reconheçam
os chulos
dos jornais da tarde
revê todas as tardes a lista
colocada
nos muros da Câmara
temendo ler
o nome de Ulisses
entre os caídos



Anabel Torres (Colômbia)

domingo, 3 de maio de 2009

O dia das Aves (sonata em feminino plural)



A cria e a criadora...
De volta ao começo, sempre, porque, quer queiramos ou não, estamos no impérío DELAS...

Momentos



Vinte anos de cantigas.
E de emoções.
Á venda.
Para quem tem bom gosto...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Estilhaços

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Rostos / Vidas






Rostos que são vidas....diferentes, na dificuldade, na profundidade, nas ambições, nas necessidades, na inteligência, na pessoa. Porque assim é...

Sapatos Vermelhos



No Dia Mundial da dança, envio estes sapatos vermelhos para quem povoa o espaço de Giselles e de Cisnes Encantados.

Os pequenos e os grandes


(...)
Tudo isto ficou para trás no passado...
Uma tarde dei com o meu pai...
Caminhava ao longo das grades. Andava na distribuição...
Então para não correr mais riscos deixei-me ficar pelo Carroussel...
Escondia-me no meio das estátuas...
Entrei uma vez no Museu. Era grátis nessa altura...
Dos quadros não percebia nada, mas subindo ao terceiro andar dei com o Museu da Marinha. Então nunca mais de lá saí. Ia lá regularmente. Passei ali semanas inteiras... Conhecia os modelos todos...
Ficava sozinho diante das vitrinas...
Esquecia todas as desgraças, os empregos, os patrões, os morfes...
Só pensava em barcos...
Os veleiros, a mim, mesmo em miniatura, fazem-me realmente perder as estribeiras...
Muito eu gostava de ter sido marinheiro... O papá também, outrora... Mas deu para o torto, tanto para mim como para ele!... Começava mais ou menos a entender...(...)


"... Ah! Camarada! Este mundo, asseguro-lhe, não é mais que um imenso negócio que se está marimbando para todos nós! Você é jovem.
Que estes minutos lúcidos valham para si como se fossem anos.
Escute-me com atenção, camarada, e não deixe passar nada sem lhe avaliar bem a importância, esse factor capital sob o qual resplandecem todas as mortíferas hipocrisias da nossa Sociedade:«O compadecimento pela sorte, pela condição dos pobres diabos...»
Digo-vos, homens de bem, vencidos da vida, escorraçados, explorados, eternamente transpirados, previno-vos: quando os grandes deste mundo se resolvem a amar-vos é porque decidiram transformar-vos em carne para canhão ...
É o sinal ... infalível. É por amizade que a coisa começa ..."


[Céline, in Viagem ao fim da noite, Ulisseia, 1966]

terça-feira, 28 de abril de 2009

Epopeia

A festa de Babette


O que nós gostamos de comer, diz muito de nós!
Há que fazer opções!
Teste-se...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Inefabilidade do Belo





Se as penas todas que jamais serviram
mãos de poetas, houvessem haurido
os sublimes conceitos e arroubos
que o peito, a mente e a musa lhes moveram
ao descantar seus temas portentosos;
se a quinta- essência que elas destilaram
das flores imorredouras de seus versos,
onde, qual num espelho, apercebemos
as culminâncias do engenho humano-
se tudo, tudo isto, num só período
tivessem combinado, e na expressão
da magia do belo: mesmo assim,
sempre naquelas almas ansiosas
havia pelo menos de restar
um pensamento, graça ou maravilha
que nehuma virtude, nenhum estro
logrará digerir em vis palavras.

Christopher Marlowe (1563-1593) Reino Unido
Trad: Luiz Cardim.
In, Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro.
A um amigo do inefável.

O meu pé de CARLOTA lima


És tu que me olhas, feliz.
Hoje, no dia dos teus 6 anos, vou-te levar o bolo prometido, ok?
Tio P.

Ao LIVRO - Cognome Esperança




Há homens que são capazes
de uma flor onde
as flores não nascem.
Outros abrem velhas portas
em velhas casas fechadas há muito.
Outros ainda despedaçam muros
acendem nas praças uma rosa de fogo.
Tu vendes livros quer dizer
entregas a cada homem
teu coração dentro de cada livro.

Manuel Alegre

sábado, 25 de abril de 2009

Liberdade - Tomo III



O meu ponto de luz
é aquele recanto de sossego multicolor
onde faço das minhas vontades ordens
e das minhas fraquezas fortes plenos de lama,
pânico,
glória,
suor
e coração.
Chama-me o vento.
Não tenho como não lhe responder.
Esqueci-me da palavra passe
do código de honra da minha alma
das cores com que te vestes, solidão...
Escrevo uma prece ao mar perfeito.
Ele não tem como me responder.
Não tem papel de carta, nem tinta permanente.
Só a areia, paleta insensata de sílabas,
onde as letras se escapam
ao sabor da espuma com que se enfeita,
no baile das anémonas e dos corais.
Dói-me o nome.
Atrevo-me a respirar o cravo que não me ofertaste
no segundo minuto em que a minha hora de vida
bateu no fundo do relógio mais atrasado do meu espanto.
Meu ponto de luz?
Desligaram-me sem pré-aviso
e deram-me uma fatia de treva
que logo pinto de branco
à espera de um outro brilho.

Sei onde me dói,
Mas não quero que pare de doer...


ao Gui.

Liberdade - Tomo II


25 DE ABRIL - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Esta é a madrugada que eu esperava
0 dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
[Sophia]

Liberdade


Uma rajada de vento quebrou
a haste do gladíolo vermelho.
Tombado junto à cerca de arame
é como um braço vencido por um súbito cansaço.
Em volta a paisagem observa
o seu próprio esplendor verde depois da chuva.
A flor vermelha esmorece
sob a intensidade do sol
e o caule extingue-se de volta à terra.
Sabemos vagamente como tudo isto acontece,
ébrios de identidade e permanência:
em poucos dias completar-se-á a dissolução.
Mas lenta é a morte
por dentro deste fim que acabaremos por esquecer.


J.G. (poeta argentino)




Esta noite uma outra flor rubra amanheceu...
Para nunca mais morrer...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Aquelas(es) a quem a realidade esmaga


Hoje, lembrei-me destes, particularmente, desta senhora, depois de ver um video no youtube.
Sinceramente, não me compadeço muito com estes destinos e opções.
Além de patéticos, transportam toda a cultura suburbana tão típica dos "Morangos" e quejandos...admira-me é que mais gente não termine assim.
Claro que tenho pena...mas não os choro.
Basta aqueles que a vida nos leva sem quererem ir (seja doença ou acidente...não quero falar em crime).
A Cândida voou e foi ser flor numa branca nuvem...pobre desgraçada. Triste Passagem.
E como ela...tantos antes e os que virão.....porque há muitos que se suicidam sem se matar...basta olhar as novelas juvenis da TVI....está tudo a suicidar-se sem saber...um caos.
E viva o Trocas e Baldrocas.....Deus a tenha em paz....coisa que nunca teve a triste.

Reproduzo texto do Saraiva (no tempo de Expresso)

PS: amanhã, ou depois, coloco pássaros, flores e praias, depois, talvez para a semana, volto aos nus...ou não.

Expresso - 21 de Julho

Marilyn à portuguesa

Inácio Rosa/Lusa

APRENDEU dança clássica.
Mais tarde, fez parte de um grupo musical com algumas pretensões: a Banda do Casaco.
Depois tornou-se menos exigente.
Incentivada, talvez, pelos empresários, enveredou por caminhos mais populares — seguindo o princípio de que é preciso aproveitar as festas das vilas e aldeias e isso não se compadece com pruridos de qualidade. Casou.
Alcançou a fama com «Trocas e Baldrocas», cantada num Festival da Canção.
Aceitou fazer umas poses mais ousadas para as revistas do coração — e, na sequência desse culto do corpo (e talvez inspirada em Jane Fonda), abriu um ginásio na linha de Sintra.
Fez várias operações plásticas.
Separou-se do marido e foi viver para um rés-do-chão em Massamá.
Aí se suicidou.
Há pessoas que têm a má sorte de tomar invariavelmente ao longo da vida as decisões erradas.
Cândida Branca Flor sonhou ser popular e cedeu demais na qualidade.
Casou com o seu agente artístico (ou fez do marido seu agente artístico, o que significa o mesmo) — e, com isso, ficou na contingência de perder ao mesmo tempo o marido e o agente.
Não construiu uma família: condescendeu em não ter filhos.
Como era filha única, também não tinha irmãos.
Quando morreu, não tinha ninguém: nem pais, nem irmãos, nem filhos, nem sobrinhos — só uma mãe adoptiva.
E, quando o declínio físico se tornou mais visível, ficou também sem agentes, sem amigos, sem contratos e sem dinheiro.
Encontraram-na — como Marilyn — morta em casa, ao lado de um frasco de comprimidos.
A solidão de Cândida Branca Flor não foi, entretanto, um problema só dela: é um problema desta sociedade.
O «Big Brother» ou a ilusão da Gata Borralheira
Sentem-no hoje homens e mulheres, novos e velhos, ricos e pobres.
Só que, para os que seguiram a «vida artística» — os que andaram de terra em terra a fazer espectáculos, que viram o rosto impresso em cartazes, que escutaram os aplausos do público, que experimentaram as luzes da ribalta, que foram adorados e endeusados —, a solidão custa mais.
Chegaram a ter tudo e perderam tudo.
Acreditaram na fidelidade do público e o público esqueceu-os.
Confiaram na sinceridade dos empresários e os empresários abandonaram-nos.
Pensaram ter garantido para sempre a fama, o dinheiro e os luxos — e tudo isso desapareceu ao mesmo tempo.
Do passado não ficou nada.
Será isto mesmo, numa escala diferente mas igualmente dolorosa, que acontecerá amanhã às estrelinhas do «Big Brother» — ironicamente chamadas «Big Estrelas».
Atingiram o estrelato de um dia para o outro — e serão esquecidas de um dia para o outro.
Quem, daqui a cinco anos, se lembrará do Zé Maria, do Marco e da Marta, da Susana e do Mário, da Carla e da Sónia?
Saíram das suas terras, mudaram brutalmente de vida — e agora dificilmente aceitarão o regresso à obscuridade.
Há quem pense que, apesar de tudo, valeu a pena.
Tiveram os seus quinze minutos de fama.
Por uma noite, as Gatas Borralheiras foram Cinderelas.
Eu julgo o contrário: era preferível nunca terem saído de Barrancos, de Portalegre ou de Peniche.
Cândida Branca Flor, no momento decisivo, terá sentido que a vida a usou impiedosamente: levou-a a acreditar numa ilusão e depois deixou-a cair.
Os concorrentes do «Big Brother» um dia pensarão o mesmo.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

à distância de um copo


A Comunidade Vida e Paz percorre todas as noites 3 rotas diferentes nas ruas de Lisboa, chegando todos os dias a pelo menos 450 pessoas sem-abrigo.
Leva uma ceia que é composta por duas sandes, um bolo (uma peça de fruta, quando possível) e leite, que frequentemente serve para tomarem ,logo naquela altura, a sua dedicação.
As ceias representam 27 000 sandes e 1800 litros de leite por mês, esforço que só é possível com a ajuda de empresas e particulares que acreditam em apoiar pessoas no caminho de volta à vida digna e feliz que merecem.
Mas numa altura complicada como esta, há que pedir a ainda mais pessoas para ajudarem, porque ela NÃO TEM LEITE!!!.
As carrinhas já estão a sair para a rua sem leite e precisam urgentemente de resolver a situação.
Um litro de leite dá um copo para 5 pessoas sem-abrigo – por isso, cada litro faz uma grande diferença!
Partilha o teu leite com a CVP.
COMO FAZÊ-LO?
Entrega na sede da Comunidade Vida e Paz.
Envia a tua ajuda com a Embalagem Solidária dos CTT
Se não estás em Lisboa nem te podes dirigir a uma estação dos CTT, podes simplesmente ligar o 760 50 10 20. Cada chamada reverte um donativo no valor dum litro de leite para nós!
Custa 0.60€+IVA e dura 5 segundos:
só o tempo de se dizer OBRIGADO.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Como o verso ou o desejo



Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo as estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.


Rui Pires Cabral
N.B. Passiflora, roubei-te aquela vista sobre um mar que é também meu pois é uma das mais belas fotografias que tenho visto...

terça-feira, 21 de abril de 2009

Canto do Sonho


Lá onde acaba a montanha,
nos cimos, nem eu sei onde,
vagueei por onde a minha cabeça e o meu coração pareciam perdidos,
vagueei ao longe.


América do Norte, Papagos

Versão: Herberto Helder
In, Rosa do Mundo, 2001 Poemas Para o Futuro.