domingo, 24 de junho de 2012
domingo, 17 de junho de 2012
quinta-feira, 14 de junho de 2012
RedaCÇão
Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Teolinda Gersão, Junho, 2012
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a
gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são
um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam
ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando
se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial
de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” :
“na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos
“ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é
característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a
predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete
colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo,
lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o
desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a
funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não
é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a
complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos
directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há
verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser
instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento
prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas
sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e
outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema
com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo
pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem
ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o
princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um
quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode
ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim
sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase
declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de
polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a
janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o
sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu
à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou
coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a
autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano
passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser,
quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no
sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou
ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas
que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o
que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com
valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do
modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia,
meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e
interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto,
prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e
implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário
inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons,
dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para
esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a
mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6
letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente
frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa.
Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por
exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua.
Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem
certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão.
E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto.
Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos
dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou
careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e
inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros,
detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um
certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a
escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter
zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção – agora parece que se
escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não
tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de
superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos
pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e
julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho
do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os
sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a
entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a
setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está
nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do
sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).
segunda-feira, 11 de junho de 2012
são claras as crianças
São claras as crianças como candeias sem vento,
seu coração quebra o mundo cegamente.
E eu fico a surpreendê-las, embebido no meu poema,
pelo terror dos dias, quando
em sua alma os parques são maiores e as águas turvas param
junto à eternidade.
As crianças criam. São esses os espaços
onde nascem as suas árvores.
Enquanto as câmpanulas se purificam no cimo do fogo,
as crianças esmigalham-se.
Seu sangue evoca
a tristeza, tristeza, a tristeza
primordial.
- Enlouquecem depressa caídas no milagre. Entram
pelos séculos
entre cardumes frios, com o corpo espetado nas luzes
e o olhar infinito de quem não possui alma.
Seu grito remonta ao verão. Inspira-as
a velocidade da terra.
As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.
- É-lhes dado o pequeno tempo de um sono
de onde saem
assombradas e altas. Tudo nelas se alimenta.
Dali a vida de um poema tira
por um lado apaixonamento; por outro,
purificação.
Nelas se festeja a imensidade
dos meses, a melancolia, a silenciosa
pureza do mundo.
Quem há-de pensar para as crianças, sem ter
espinhos nas vozes desertas
até ao fundo? É vendo-se aos espelhos,
no seguimento da noite,
que as crianças aparecem com o horror
da sua candura, as crianças fundamentais, as grandes
crianças vigiadoras -
cantando, pensando, dormindo loucamente.
Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vingança não afaste.
As crianças invasoras percorrem
os nomes - enchem de uma fria
loucura inteligente
as raízes e as folhas da garganta.
Aprendemos com elas os corredores do ar,
a iluminação, o mistério
da carne. Partem depois, sangrentas,
inomináveis. Partem de noite
noite - extremas e únicas.
- E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente.
seu coração quebra o mundo cegamente.
E eu fico a surpreendê-las, embebido no meu poema,
pelo terror dos dias, quando
em sua alma os parques são maiores e as águas turvas param
junto à eternidade.
As crianças criam. São esses os espaços
onde nascem as suas árvores.
Enquanto as câmpanulas se purificam no cimo do fogo,
as crianças esmigalham-se.
Seu sangue evoca
a tristeza, tristeza, a tristeza
primordial.
- Enlouquecem depressa caídas no milagre. Entram
pelos séculos
entre cardumes frios, com o corpo espetado nas luzes
e o olhar infinito de quem não possui alma.
Seu grito remonta ao verão. Inspira-as
a velocidade da terra.
As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.
- É-lhes dado o pequeno tempo de um sono
de onde saem
assombradas e altas. Tudo nelas se alimenta.
Dali a vida de um poema tira
por um lado apaixonamento; por outro,
purificação.
Nelas se festeja a imensidade
dos meses, a melancolia, a silenciosa
pureza do mundo.
Quem há-de pensar para as crianças, sem ter
espinhos nas vozes desertas
até ao fundo? É vendo-se aos espelhos,
no seguimento da noite,
que as crianças aparecem com o horror
da sua candura, as crianças fundamentais, as grandes
crianças vigiadoras -
cantando, pensando, dormindo loucamente.
Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vingança não afaste.
As crianças invasoras percorrem
os nomes - enchem de uma fria
loucura inteligente
as raízes e as folhas da garganta.
Aprendemos com elas os corredores do ar,
a iluminação, o mistério
da carne. Partem depois, sangrentas,
inomináveis. Partem de noite
noite - extremas e únicas.
- E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente.
Loucamente.
Herberto Helder
Ofício Cantante
Assírio & Alvim, 2009
sexta-feira, 8 de junho de 2012
terça-feira, 5 de junho de 2012
A oriente nada de novo
Este lugar amou perdidamente
Quem o cabo rondou do extremo Sul
E a costa indo seguindo para Oriente
Viu as ilhas azuis do mar azul
Viu pérolas, safiras e corais
E a grande noite parada e transparente
Viu cidades, nações, viu passar gente
De leve passo e gestos musicais
Perfumes e tempero descobriu
E danças onduladas por vestidos
Sedosos, flutuantes e compridos
E outro nasceu de tudo quanto viu.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quem o cabo rondou do extremo Sul
E a costa indo seguindo para Oriente
Viu as ilhas azuis do mar azul
Viu pérolas, safiras e corais
E a grande noite parada e transparente
Viu cidades, nações, viu passar gente
De leve passo e gestos musicais
Perfumes e tempero descobriu
E danças onduladas por vestidos
Sedosos, flutuantes e compridos
E outro nasceu de tudo quanto viu.
Sophia de Mello Breyner Andresen
domingo, 3 de junho de 2012
Aguns Sei
Faces sob o sol, os olhos na cruz
Os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã
Vão levar ao reino dos minaretes a paz na ponta dos arietes
A conversão para os infiéis
Para trás ficou a marca da cruz
Na fumaça negra vinda na brisa da manhã
Ah, como é difícil tornar-se herói
Só quem tentou sabe como dói vencer Satã só com orações
Ê andá pa Catarandá que Deus tudo vê
Ê andá pa Catarandá que Deus tudo vê
Ê anda, ê ora, ê manda, ê mata, responderei não!
Dominus dominium juros além
Todos esses anos agnus sei que sou também
Mas ovelha negra me desgarrei, o meu pastor não sabe que eu sei
Da arma oculta na sua mão
Meu profano amor eu prefiro assim
À nudez sem véus diante da Santa-Inquisição
Ah, o tribunal não recordará dos fugitivos de Shangri-Lá
O tempo vence toda a ilusão
Cantado por Elis Regina
Os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã
Vão levar ao reino dos minaretes a paz na ponta dos arietes
A conversão para os infiéis
Para trás ficou a marca da cruz
Na fumaça negra vinda na brisa da manhã
Ah, como é difícil tornar-se herói
Só quem tentou sabe como dói vencer Satã só com orações
Ê andá pa Catarandá que Deus tudo vê
Ê andá pa Catarandá que Deus tudo vê
Ê anda, ê ora, ê manda, ê mata, responderei não!
Dominus dominium juros além
Todos esses anos agnus sei que sou também
Mas ovelha negra me desgarrei, o meu pastor não sabe que eu sei
Da arma oculta na sua mão
Meu profano amor eu prefiro assim
À nudez sem véus diante da Santa-Inquisição
Ah, o tribunal não recordará dos fugitivos de Shangri-Lá
O tempo vence toda a ilusão
Cantado por Elis Regina
segunda-feira, 28 de maio de 2012
sábado, 26 de maio de 2012
Danado
Continuo sem saber onde foi parar tudo o que foi publicado entre 5 de Abril e 14 de maio.
Não vejo as minhas publicações e não entendo o hiato. Se é falha técnica, seja. Republica-se (se assim se pode dizer).
Até lá não publico mais nada. Para onde foram as publicações?
Abraço a todos.
Gui
PS: Post sem imagem
Não vejo as minhas publicações e não entendo o hiato. Se é falha técnica, seja. Republica-se (se assim se pode dizer).
Até lá não publico mais nada. Para onde foram as publicações?
Abraço a todos.
Gui
PS: Post sem imagem
Amigo é aquele que permanece
que planta oásis no agreste
deserto quente.
tira água da pedra
e a mágoa
do coração da gente.
AMigo é aquele que vai embora
mas volta...dá o ombro ri
e no ombro chora.
É prosa que não tem fim
e luz que se demora.
amigo é pra todo sempre
e pela estrada afora
Marco Araujo
Dedico à Amélia Pais, que partiu num barco cheio de flores...
sexta-feira, 25 de maio de 2012
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Como um cavalo alucinado
Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento...
Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado...
Pára e fica e demora-se um momento.
Pára e fica na doida correria...
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria
Um olhar de aço que essa noite explora...
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.
Ângelo Lima
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Passagem
“Analisemos agora a amizade. De facto, trata-se de uma certa excelência, ou algo de estreitamente ligado à excelência; além disso, é do que mais necessário há para a vida. Pois ninguém há-de querer viver sem amigos, mesmo tendo em conta os restantes bens. E até os ricos, os que têm posição e poder, têm uma necessidade extrema de amigos (…).
Contudo, uma amizade que tem como fim em vista o que cada um é em si próprio existe apenas entre homens de bem, porque os ordinários não podem sentir prazer nenhum uns com os outros, a não ser que possam obter uma qualquer vantagem. E só a amizade entre os bons é capaz de resistir à calúnia. Na verdade, não é fácil acreditar no que se diz sobre um amigo que foi posto à prova por nós próprios durante longo tempo. Na amizade entre boas pessoas há confiança mútua (…).
Agora, parece que não é possível ser-se amigo de muitas pessoas, pelo menos no sentido pleno da amizade, do mesmo modo que não é possível amar ao mesmo tempo muitas pessoas (tal parece que, na verdade seria excessivo; e o amor costuma nascer naturalmente em relação a uma única pessoa), porque não é possível agradar de modo totalmente satisfatório a muitos ao mesmo tempo, nem eventualmente até para as pessoas de bem. Por outro lado, para se criar uma amizade tem de se ter experiência conjunta de dificuldades e ganhar confiança mútua, o que é muito difícil (…).”
Aristóteles, Ética a Nicómaco, tradução do grego de António C. Caeiro,Quetzal Editores, Lisboa
sexta-feira, 30 de março de 2012
Nocturno italo-português
Há sempre alguém que nos envergonha e nos remete para o limiar baixo em que estamos...
Quantos de nós daríamos pela Itália o que este Homem deu e fez por nós?
Eu era um fan...fácil dizer agora...deveria ter dito isto há meses ou anos atrás.
Um Bem Haja a Ele e que o Céu o acolha...como merece!
O escritor italiano Antonio Tabucchi morreu aos 68 anos, em Lisboa, após uma longa doença, informou neste domingo o tradutor de sua obra para o francês, Bernard Comment.
Considerado um dos maiores autores italianos contemporâneos, Antonio Tabucchi escreveu obras como "Afirma Pereira" e "O Tempo Envelhece Depressa".
Autor de mais de 20 livros traduzidos para quase 40 idiomas, este romancista, professor universitário e ensaísta era o principal tradutor e promotor da obra do escritor português Fernando Pessoa em italiano.
Tabucchi estava internado no hospital da Cruz Vermelha. Segundo a mulher do escritor, Maria José Lancastre, o enterro acontecerá na próxima quinta-feira na capital portuguesa.
Nascido em Vecchiano, na Itália, em 24 de setembro de 1943, Tabucchi é autor de livros como "O Tempo Envelhece Depressa", "Afirma Pereira", "Está Ficando Tarde Demais" e "Tristano Morre".
No ano passado, envolveu-e em uma polêmica no Brasil. Foi convidado para participar da 9ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, onde era uma das atrações mais esperadas. Mas, em junho, decidiu cancelar sua vinda.
De acordo com comunicado dos organizadores do evento, Tabucchi desistiu de viajar ao Brasil em função da decisão da justiça brasileira em relação ao caso Cesare Battisti, que teve seu pedido de extradição pelo governo italiano negado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Foi a segunda vez que o autor cancelou participação depois de confirmado. Tabucchi iria à Flip em 2010, mas devido a problemas de saúde não compareceu.
Vários romances de Tabucchi foram adaptados para o cinema, como "Noturno Indiano" (prêmio Médicis estrangeiro, 1987), por Alain Corneau, e "Afirma Pereira", por Roberto Faenza, com Marcello Mastroianni como protagonista, o que contribuiu para o sucesso da obra.
Professor de literatura portuguesa na Universidade de Siena (Italia) e romancista, Antonio Tabucchi foi articulista dos jornais Corriere della Sera e El País (Espanha). Foi um grande crítico do governo de Silvio Berlusconi.
Filho único de um vendedor de cavalos, Tabucchi, nascido em 24 de setembro de 1943 em Pisa, na Toscana, estudou Filologia Românica e, a partir de 1962, Literatura em Paris, onde descobriu o poeta Fernando Pessoa ao ler a tradução para o francês de um de seus poemas.
O entusiasmo com a descoberta o levou a estudar o idioma e a cultura de Portugal, que se tornou sua segunda pátria. Tabucchi estudou Literatura Portuguesa na Universidade de Siena e redigiu uma tese sobre o "Surrealismo em Portugal". Apaixonado por Pessoa, traduziu toda sua obra para o italiano, ao lado da mulher, que conheceu em Portugal.
terça-feira, 27 de março de 2012
Festim
Caía a noite no Guincho.
À hora marcada, Tomás compareceu no lugar combinado, dizendo nos Plátanos que o cinema esperava por si.
E lá serviu um vinho da Toscânia e verteu-o nos cálices de um cristal encantado guardado na memória destes incautos amantes.
Não se via vivalma nas ruas da cidadela e eles apenas tinham como companhia as mudas pedras das calçadas e dos vetustos edifícios e um vento inesquecível capaz de trazer aromas e notícias de outras paixões.
Os canais da urbe serviam de cenário idílico para este jantar, dando o tom musical para esta valsa dançada por tanto amor e com a garra insuspeita das garças coloridas que emergiam do interior deste homem e desta mulher.
Ele sentou-se à mesa, com uma delicadeza inusitada. Ela já ali tinha colocado a massa especial capaz de coroar este momento - uma massa cozinhada, em lume de eterna chama, com espinafres de um verde de hera de italianas paragens.
Laura dizia-se boa cozinheira. Como aperitivo, resolveu revelar-lhe como cozinhara aquela massa. Aos amantes, tudo se conta, até as traições.
Para os confeccionar, ela principiara por levar ao lume um tacho com bastante água temperada com sal e, quando esta levantou fervura, introduziu seis cannelloni, deixando-os cozer durante 15 minutos, não mais para não quebrarem.
Retirou os cannelloni e passou-os, com volúpia, por água fria. Escolheu, com critério e com o coração, os espinafres e lavou-os em água fria corrente, misturada com as suas lágrimas de alegria que caíam sem aviso. Cozeu-os em pouca água temperada com sal durante 10 minutos, escorreu-os no término da cozedura, espremeu-os e picou-os com todo o carinho do mundo.
Após derreteu poucas lágrimas de margarina e polvilhou outro tanto de farinha; quando à superfície apareceu uma espuma esbranquiçada, regou com gotas de leite e deixou ferver, mexendo sempre, com toda a paciência e até engrossar. Temperou com sal, pimenta e noz-moscada. Paulatinamente. Serenamente.
Já fora do lume, ela incorporou no molho a carne cozinhada e os espinafres, aí rectificando os temperos com a alma na mão.
Deitou, então, o recheio dentro de um saco pasteleiro munido de um bico e recheou os cannelloni, colocando-os lado a lado num tabuleiro untado com margarina.
Tudo isto enquanto as cotovias prosseguiam o seu encantado cântico noctívago.
Cobriu os cannelloni com um molho de tomate previamente confeccionado, polvilhou com queijo ralado e levou a forno médio durante o resto do tempo do mundo, aquele que sobrava de tanta impaciência, durante os quais se foi maquilhando com as cores do jurista pintor.
Estava chegada a hora de servir esta receita. Feita com os cheiros dos amores-perfeitos que despontavam do seu coração. E daquele mar sossegado e cúmplice que testemunhava este encontro.
Em surdina.
Sem burburinho.
Em tom de quieta maré.
Eles, já sentados na mesa feita da pedra daquela praia que os albergava, olharam-se olhos nos olhos e soltaram um beijo perfumado, envolvido na brisa desta noite.
No ar, ouviu-se o som de um violoncelo.
Beberam um outro vinho, desta vez napolitano, tinto de morrer, e começaram a tragar aquela massa feita com a paixão dos bons momentos, com o ouro das pétalas de esperança que cresciam nos doces e quentes caracóis de um e de outro.
Nessa altura, ele deu-lhe um nome. Próprio. Só dela. Soube-lhe, então, os sinais particulares, os gestos, a língua. Só de lhe olhar nas íris, só de lhe sentir o cheiro, só de lhe provar o tempero.
Como resposta, ela acariciou-lhe os cabelos e sussurrou o nome dele.
Ao acaso.
Como uma balada.
- Não me deixes deixar-te, Tomás!
E enquanto a massa ainda esfriava no prato dele, este homem disse-lhe com o pincel na voz.
- Nunca, Laura, meu amor!
À hora marcada, Tomás compareceu no lugar combinado, dizendo nos Plátanos que o cinema esperava por si.
E lá serviu um vinho da Toscânia e verteu-o nos cálices de um cristal encantado guardado na memória destes incautos amantes.
Não se via vivalma nas ruas da cidadela e eles apenas tinham como companhia as mudas pedras das calçadas e dos vetustos edifícios e um vento inesquecível capaz de trazer aromas e notícias de outras paixões.
Os canais da urbe serviam de cenário idílico para este jantar, dando o tom musical para esta valsa dançada por tanto amor e com a garra insuspeita das garças coloridas que emergiam do interior deste homem e desta mulher.
Ele sentou-se à mesa, com uma delicadeza inusitada. Ela já ali tinha colocado a massa especial capaz de coroar este momento - uma massa cozinhada, em lume de eterna chama, com espinafres de um verde de hera de italianas paragens.
Laura dizia-se boa cozinheira. Como aperitivo, resolveu revelar-lhe como cozinhara aquela massa. Aos amantes, tudo se conta, até as traições.
Para os confeccionar, ela principiara por levar ao lume um tacho com bastante água temperada com sal e, quando esta levantou fervura, introduziu seis cannelloni, deixando-os cozer durante 15 minutos, não mais para não quebrarem.
Retirou os cannelloni e passou-os, com volúpia, por água fria. Escolheu, com critério e com o coração, os espinafres e lavou-os em água fria corrente, misturada com as suas lágrimas de alegria que caíam sem aviso. Cozeu-os em pouca água temperada com sal durante 10 minutos, escorreu-os no término da cozedura, espremeu-os e picou-os com todo o carinho do mundo.
Após derreteu poucas lágrimas de margarina e polvilhou outro tanto de farinha; quando à superfície apareceu uma espuma esbranquiçada, regou com gotas de leite e deixou ferver, mexendo sempre, com toda a paciência e até engrossar. Temperou com sal, pimenta e noz-moscada. Paulatinamente. Serenamente.
Já fora do lume, ela incorporou no molho a carne cozinhada e os espinafres, aí rectificando os temperos com a alma na mão.
Deitou, então, o recheio dentro de um saco pasteleiro munido de um bico e recheou os cannelloni, colocando-os lado a lado num tabuleiro untado com margarina.
Tudo isto enquanto as cotovias prosseguiam o seu encantado cântico noctívago.
Cobriu os cannelloni com um molho de tomate previamente confeccionado, polvilhou com queijo ralado e levou a forno médio durante o resto do tempo do mundo, aquele que sobrava de tanta impaciência, durante os quais se foi maquilhando com as cores do jurista pintor.
Estava chegada a hora de servir esta receita. Feita com os cheiros dos amores-perfeitos que despontavam do seu coração. E daquele mar sossegado e cúmplice que testemunhava este encontro.
Em surdina.
Sem burburinho.
Em tom de quieta maré.
Eles, já sentados na mesa feita da pedra daquela praia que os albergava, olharam-se olhos nos olhos e soltaram um beijo perfumado, envolvido na brisa desta noite.
No ar, ouviu-se o som de um violoncelo.
Beberam um outro vinho, desta vez napolitano, tinto de morrer, e começaram a tragar aquela massa feita com a paixão dos bons momentos, com o ouro das pétalas de esperança que cresciam nos doces e quentes caracóis de um e de outro.
Nessa altura, ele deu-lhe um nome. Próprio. Só dela. Soube-lhe, então, os sinais particulares, os gestos, a língua. Só de lhe olhar nas íris, só de lhe sentir o cheiro, só de lhe provar o tempero.
Como resposta, ela acariciou-lhe os cabelos e sussurrou o nome dele.
Ao acaso.
Como uma balada.
- Não me deixes deixar-te, Tomás!
E enquanto a massa ainda esfriava no prato dele, este homem disse-lhe com o pincel na voz.
- Nunca, Laura, meu amor!
Breve encontro
David Lean, o realizador de grandes épicos, filmou com dificuldades, em pleno auge da II Guerra Mundial, na Inglaterra, este pequeno enorme romance, baseado em uma curta peça teatral. Poucas vezes algum cineasta conseguiu ser tão sensível e genuíno ao falar de paixão. Breve Encontro é um trabalho praticamente perfeito sobre o tema e, já que o mundo evoluiu de maneira desconexa de lá para cá e os romances reais já não são tão românticos, o filme pode ser considerado facilmente um dos melhores que o seu género já viu até hoje.
Breve Encontro remete a tempos onde a traição conjugal era considerada algo sujo e sórdido, muito mais do que hoje em dia. Ao mesmo tempo em que os encontros furtivos de Laura e Alec eram excitantes e divertidos, a sensação ruim de desonestidade fazia-se transparecer sempre em seus rostos, principalmente em Laura, interpretada por uma mui bela (porém não artificialmente, como seria em um romance moderno) Célia Johnson, responsável por uma interpretação totalmente humana e sensível. Ela narra a história em flashback, e é a peça principal do casal sobre Alec (um desconhecido Trevor Howard à época, depois participou de O Terceiro Homem) conhecemos muito pouco além do facto de ele ser médico. Lean optou por dar prioridade à perspectiva feminina.
O que mais encanta é o desenvolvimento do romance entre o casal. Ele é absolutamente credível, perfeito. A partir de um encontro totalmente casual surge um lampejo; uma primeira coincidência de um reencontro desperta emoções a serem futuramente descobertas; uma primeira conversa informal adiciona interesse mútuo; a primeira sugestão de um passeio (como amigos) desperta felicidade. A curva dos acontecimentos é perfeita. Claro, mais tarde presenciaremos a culpa, o arrependimento, o sofrimento. Como um bom amor proibido. E nenhuma dessas fases soa forçada ou fora do lugar. O roteiro conseguiu, dessa forma e dentro de seu género, atingir um nível de perfeição poucas vezes visto no cinema. Assim sendo, não é exagero considerar este um dos melhores romances proibidos do cinema.
Hoje em dia as histórias de amor não são assim e se fossem seriam consideradas demagogas, ultrapassadas. Não há conotação sexual explícita em diálogo ou acto algum de qualquer um dos personagens. Prender o espectador sem sexo é algo que argumentistas de hoje em dia simplesmente já não conseguem fazer. Uma das causas é o facto de o mundo ter perdido, há décadas, a sua inocência. A luz monótona da plataforma de um comboio já não é muito romântico, é antes um refúgio para assaltantes. As mulheres mudaram também. A submissão está fora de moda eles "não precisam" mais dos homens, apenas os querem; não necessitam mais ser amadas, mas apenas amar. Excepções são poucas.
A direção de Lean é absolutamente precisa. Nunca se impõe, contando a história suavemente, sem exageros, deixando os personagens crescerem aos poucos. Apenas uma cena perto do final do filme traz um toque diferenciado, fora do óbvio é quando uma das personagens toma uma acção súbita, e a câmara gira diagonalmente, mostrando uma mente fora de si. A narração em off de Laura tem um tom melancólico preciso, um encanto para os sentidos. Combina com os cenários e a história do casal.
David Lean filmou Breve Encontro antes de outros filmes que até hoje também são inesquecíveis. Filmou no meio de bombardeamentos sob o clima depressivo de guerra. Conseguiu criar, dessa situação, uma verdadeira obra-prima, a partir de uma situação comum, prova da versatilidade do cineasta desde cedo na sua carreira. É detestável apelar para clichés, mas acredito que, na maioria dos casos, o simples deve prevalecer sobre o complexo, então só posso dizer que, neste caso, provavelmente mais do que em nenhum outro, não se fazem mais filmes como este.
Breve Encontro remete a tempos onde a traição conjugal era considerada algo sujo e sórdido, muito mais do que hoje em dia. Ao mesmo tempo em que os encontros furtivos de Laura e Alec eram excitantes e divertidos, a sensação ruim de desonestidade fazia-se transparecer sempre em seus rostos, principalmente em Laura, interpretada por uma mui bela (porém não artificialmente, como seria em um romance moderno) Célia Johnson, responsável por uma interpretação totalmente humana e sensível. Ela narra a história em flashback, e é a peça principal do casal sobre Alec (um desconhecido Trevor Howard à época, depois participou de O Terceiro Homem) conhecemos muito pouco além do facto de ele ser médico. Lean optou por dar prioridade à perspectiva feminina.
O que mais encanta é o desenvolvimento do romance entre o casal. Ele é absolutamente credível, perfeito. A partir de um encontro totalmente casual surge um lampejo; uma primeira coincidência de um reencontro desperta emoções a serem futuramente descobertas; uma primeira conversa informal adiciona interesse mútuo; a primeira sugestão de um passeio (como amigos) desperta felicidade. A curva dos acontecimentos é perfeita. Claro, mais tarde presenciaremos a culpa, o arrependimento, o sofrimento. Como um bom amor proibido. E nenhuma dessas fases soa forçada ou fora do lugar. O roteiro conseguiu, dessa forma e dentro de seu género, atingir um nível de perfeição poucas vezes visto no cinema. Assim sendo, não é exagero considerar este um dos melhores romances proibidos do cinema.
Hoje em dia as histórias de amor não são assim e se fossem seriam consideradas demagogas, ultrapassadas. Não há conotação sexual explícita em diálogo ou acto algum de qualquer um dos personagens. Prender o espectador sem sexo é algo que argumentistas de hoje em dia simplesmente já não conseguem fazer. Uma das causas é o facto de o mundo ter perdido, há décadas, a sua inocência. A luz monótona da plataforma de um comboio já não é muito romântico, é antes um refúgio para assaltantes. As mulheres mudaram também. A submissão está fora de moda eles "não precisam" mais dos homens, apenas os querem; não necessitam mais ser amadas, mas apenas amar. Excepções são poucas.
A direção de Lean é absolutamente precisa. Nunca se impõe, contando a história suavemente, sem exageros, deixando os personagens crescerem aos poucos. Apenas uma cena perto do final do filme traz um toque diferenciado, fora do óbvio é quando uma das personagens toma uma acção súbita, e a câmara gira diagonalmente, mostrando uma mente fora de si. A narração em off de Laura tem um tom melancólico preciso, um encanto para os sentidos. Combina com os cenários e a história do casal.
David Lean filmou Breve Encontro antes de outros filmes que até hoje também são inesquecíveis. Filmou no meio de bombardeamentos sob o clima depressivo de guerra. Conseguiu criar, dessa situação, uma verdadeira obra-prima, a partir de uma situação comum, prova da versatilidade do cineasta desde cedo na sua carreira. É detestável apelar para clichés, mas acredito que, na maioria dos casos, o simples deve prevalecer sobre o complexo, então só posso dizer que, neste caso, provavelmente mais do que em nenhum outro, não se fazem mais filmes como este.
Breve Encontro é um filme maravilhoso!
Alexandre Koball
Texto adaptado
sábado, 24 de março de 2012
quinta-feira, 22 de março de 2012
G.
Para quê mudar de dedicatória se os dítames desta se mantém intactos?
(...)
O dia nasceu aflito de incómodos:
naquela hora, há muitas luas atrás, no dia seguinte ao primeiro da primavera, ele nascera sem aviso.
Outrora, uma velha pitonisa dissera a sua mãe:
seria ele unguento na chaga
neve no deserto,
riso no pranto.
E teria tesouras nas mãos,
uma rosa vermelha na fronte
e um desassossego
na ansiedade das horas menos boas que teria de viver.
Chorava com a voz do riso de Charlot
Mordiscava a felicidade por entre os interstícios das boas memórias
e espalhava recados de escárnio e mal dizer
por entre os escolhos da Vida,
por entre os escorpiões mutilados
que lhe picavam a consciência...
Sentia-se desigual entre os seus pares - é que sempre tinha tesouras em suas mãos
rodeava-se de mar adentro
sofria pelas dores que não sofria
e paria as gargalhadas com que enfeitava as vidas dos outros
Por suas mãos passaram as luzes do mundo,
as neves de Klimanjaro,
os equinócios do Equador,
as touradas reais de Pamplona,
os jardins suspensos da Babilónia,
os palhaços mais encantados de Budapeste,
os chicotes incendiados de um certo Vice,
as alegrias mais sinceras do Limoeiro,
os consentimentos menos audazes de Neptuno,
os odores menos nobres deste povo,
os "viragom" engolidos perto do silêncio do horror,
as cançonetas mais dolentes da Europa,
as conciliações mais cansadas do Bolhão,
as virgínias mais insanas do condado,
as magas das regras ansiolíticas e quejandas,
o disco-sound mais mexido da Ria de Aveiro,
as cores mais negras do etíope,
os feiticeiros mais audazes de Oz,
os sete palmos da terra derradeira,
mil e uma rotas trilhadas com uma fátima esperança (e outras preces menos promissoras),
os desencontros incompreendidos dos Dom Quixotes e das Dulcineias,
o doce paladar da Torre Eiffel,
as amizades cosidas a ponto de ouro...
De repente, embalado pela profecia da velha cega dos búzios, ele parou.
Olhou em redor,
colheu as magnólias,
desceu do autocarro,
pousou a mala do infortúnio,
desfez os contratos de uma vida,
entregou as becas togadas de um gole só.
E rumou ao país das tesouras...
Mil anos, Eduardo, Guilherme, nome sem nome -
passou por nós uma brisa que me recorda que existes:
Assim eu pudesse murmurar ao teu ouvido quando precisas...
Em tempo:
O Gui celebra mais um aniversário, é verdade!
Quantos, ficam no segredo dos nossos deuses.
Para ele, as nossas mais brancas e puras magnólias,
os meus "twelve points" da Amizade...
(...)
O dia nasceu aflito de incómodos:
naquela hora, há muitas luas atrás, no dia seguinte ao primeiro da primavera, ele nascera sem aviso.
Outrora, uma velha pitonisa dissera a sua mãe:
seria ele unguento na chaga
neve no deserto,
riso no pranto.
E teria tesouras nas mãos,
uma rosa vermelha na fronte
e um desassossego
na ansiedade das horas menos boas que teria de viver.
Chorava com a voz do riso de Charlot
Mordiscava a felicidade por entre os interstícios das boas memórias
e espalhava recados de escárnio e mal dizer
por entre os escolhos da Vida,
por entre os escorpiões mutilados
que lhe picavam a consciência...
Sentia-se desigual entre os seus pares - é que sempre tinha tesouras em suas mãos
rodeava-se de mar adentro
sofria pelas dores que não sofria
e paria as gargalhadas com que enfeitava as vidas dos outros
Por suas mãos passaram as luzes do mundo,
as neves de Klimanjaro,
os equinócios do Equador,
as touradas reais de Pamplona,
os jardins suspensos da Babilónia,
os palhaços mais encantados de Budapeste,
os chicotes incendiados de um certo Vice,
as alegrias mais sinceras do Limoeiro,
os consentimentos menos audazes de Neptuno,
os odores menos nobres deste povo,
os "viragom" engolidos perto do silêncio do horror,
as cançonetas mais dolentes da Europa,
as conciliações mais cansadas do Bolhão,
as virgínias mais insanas do condado,
as magas das regras ansiolíticas e quejandas,
o disco-sound mais mexido da Ria de Aveiro,
as cores mais negras do etíope,
os feiticeiros mais audazes de Oz,
os sete palmos da terra derradeira,
mil e uma rotas trilhadas com uma fátima esperança (e outras preces menos promissoras),
os desencontros incompreendidos dos Dom Quixotes e das Dulcineias,
o doce paladar da Torre Eiffel,
as amizades cosidas a ponto de ouro...
De repente, embalado pela profecia da velha cega dos búzios, ele parou.
Olhou em redor,
colheu as magnólias,
desceu do autocarro,
pousou a mala do infortúnio,
desfez os contratos de uma vida,
entregou as becas togadas de um gole só.
E rumou ao país das tesouras...
Mil anos, Eduardo, Guilherme, nome sem nome -
passou por nós uma brisa que me recorda que existes:
Assim eu pudesse murmurar ao teu ouvido quando precisas...
Em tempo:
O Gui celebra mais um aniversário, é verdade!
Quantos, ficam no segredo dos nossos deuses.
Para ele, as nossas mais brancas e puras magnólias,
os meus "twelve points" da Amizade...
terça-feira, 20 de março de 2012
um dia antes do poema
Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
Nuno Júdice
segunda-feira, 19 de março de 2012
Paternal
Nasci porque queria ser como o meu pai (Samuel Lin, 11 anos)
Um pai é alguém que pode fazer aquilo que te diz para não fazeres (Paul Raiche, 10 anos)
Um pai serve para fazer de borboleta na peça de teatro da escola (Robin, 11 anos)
Já diziam os maias:
Num bebé assenta o futuro do mundo.
A mãe deve segurá-lo apertadinho para que ele saiba que este é o seu mundo.
Mas o pai deve levá-lo à mais alta montanha para que ele possa ver como é o seu mundo
Depois de obedecer à lei da natureza, um homem é chamado a ser sensato, gentil, paciente, amoroso, juiz, árbitro, pediatra, educador infantil, perito financeiro, consertador de brinquedos, fonte de toda a sabedoria, artista.
Por vezes, a ser PAI.
Aos vinte anos vestiu o fato da paternidade, enchumaçou os ombros, cresceu em altura, ficou com a voz mais grave para se adequar ao papel.
Nunca lhe vi a maquilhagem ou a cabeleira postiça quando lhe segurava a mão.
Com a exacta medida e compasso dos passos do pai
Anda o filho,
Ecos e entoações da voz de seu pai
Ouvem-se quando o filho fala.
Outrora quando a mesa era alta,
E as pernas da cadeira uma floresta
Ele absorvia o sorriso do pai e cuidadosamente imitava
Ele absorvia o sorriso do pai e cuidadosamente imitava
a maneira como ele estava de pé.
Foi sendo exilado aos poucos, com orgulho e com remorso,
nalgumas coisas melhor que o seu pai, noutras pior.
Entre sonatas e canções de embalar cantadas em tom de firmeza e ternura,
e numa altura em que passou a ter capacidade para escolher, entre estranhos,
ele sorri com o sorriso hesitante de seu pai
E fala com a voz dele...
Ao Pai J., meu herói...
Ao Pai que eu nunca fui...
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