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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Lusitânia

Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Mar Novo

domingo, 20 de setembro de 2009

três coisas


A casa velha, um pássaro
E a noite pressentida
Não me largam os olhos,
Enchem o vão da porta.
Às vezes, tenho sorte:
Se as coisas não me largam
Uno-me bem, fingindo
Amá-las, e termino
Por violar as portas
E descer às raízes.
Percorro, então, aquilo
Como autor e senhor...
E, ao regressar, nos ombros
Nas mãos e no cabelo,
Venho coberto de oiro.
Como as abelhas loiras
De vencerem as flores.
Venho qual novo gama
Dos tesoiros da Índia.
Vale a pena, pois vale!
Mas aquelas três coisas
Não mostram as raízes:
Têm portas de ferro.
(É assim, muitas vezes)
E o seu tesoiro de oiro
Guardam-no lá bem fundo:
É só para os eleitos.
E eu fico nesta sombra,
Como rico sem nada,
Como novo Quixote
Ou como um rei sem reino.

O mar e as águias
Poesias de António Cabral

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Iluminado por dentro com as estrelas.



O homem não é o mundo em viva síntese consciente?
A natureza, para o criar, serviu-se de todos os seus materiais. Nós somos um edifício construído por fora com toda a terra e iluminado, por dentro, com todas as estrelas. E nele, vive silencioso e prisioneiro, o fantasma do seu arquitecto.

Teixeira de Pascoaes, Aforismos