quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O Horror





O Horror tem tantas formas humanas...
Não falo de filmes...
Falo de formas humanas que nos deixam estupefactos com o grau de imbecilidade e de ignorância, e de estupidificação global, a que chegamos.
Estes são apenas um, dos imensos, exemplos de inutilidade e "estupidez imediata" possiveis de apontar.
Mas, aqui, há lugar para tudo...e todos.
Mais que não seja para falar mal.
Sempre diverte.

Iluminado por dentro com as estrelas.



O homem não é o mundo em viva síntese consciente?
A natureza, para o criar, serviu-se de todos os seus materiais. Nós somos um edifício construído por fora com toda a terra e iluminado, por dentro, com todas as estrelas. E nele, vive silencioso e prisioneiro, o fantasma do seu arquitecto.

Teixeira de Pascoaes, Aforismos

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Sou bruxo?

Houve tempos em que dizer isto era verdade.


«Ela é como todas as outras. Quer tenham dezassete anos ou quarenta e sete, quando se decidem a entregar-se por completo, fazem-no sempre com palavreado»

William Fulkner, in Luz de Agosto.

Na minha juventude lia-se Pitigrilli.


«Em qualquer tempo e em qualquer país, a moda feminina é apenas a consequência da guerra eterna entre o desejo declarado de se vestir e a aspiração inconfessada de se despir»
Lin Yutang,
citado por Pitigrilli, in o Sexo os Anjos.

E o vencedor é...


Fica esta, então, a porta de entrada da Magnólia, por votação democrática.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

As Dunas Onde Estão?


Sonho com dunas mornas e lilases,
que eu ei, que eu sinto para lá da Vida.
Os dedos da memória são tenazes
cravados na minha alma adormecida.

As dunas do meu sonho peristente
não são dunas iguais, mas como descrevê-las?

Imaginem, se podem, pó de estrelas,
flocos de nuvens, colchas de violetas,
as pétalas de todos os rosais,
as asas de milhões de borboletas.
Imaginem, no céu, a lua cheia
tecendo lentamente a sua teia,
desfolhando-se em pássaros, em flores,
e imaginem, depois, o arco-íris
soltando, cor a cor, todas as cores,
e as rendas de neblina, tão suaves
como penugem tépida das aves
que acabam de nascer. Mas tudo isto
são palavras que ferem os ouvidos,
que povoam de nada a solidão.
E tudo mais subtil, mais impreciso,
o meu sonho é silêncio dos sentidos,
é promessa, memória, antevisão.
Mas as dunas, as dunas onde estão?

Fernanda de Castro.

domingo, 12 de outubro de 2008

Só para si, M.



Um mero obrigado basta...

Foi bonita a festa, pá!

Parabéns Radio Clube de Leiria.
Parabéns M.
Foi bonita a festa, pá!

sábado, 11 de outubro de 2008

Já agora


..a propósito de ópera...aqui está uma imagem de uma pouco conhecida.
"O Guarani" de Carlos Gomes.
Se não estou em erro, mas posso estar a laborar em má memória, o Placido Domingo já a cantou...não sei quando nem onde...a minha memória estar a recitar o que lhe ficou de um documentário visto há uns anos na tv (RTP).

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Festa de Aniverário - 195 anos de Giuseppe Verdi.

Mais




Mais Confusão de arte/natureza, bom/mau
Mais confusão....que horror de poster eu sou.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Brel

Faz hoje anos que esta estrela também rumou para o sul.
Porque para o sul vão as almas eleitas.

Sem foto

A votação relativamente à imagem de marca da Magnólia será, sem dúvida, um indicador da prferência dos visitantes.
Tenha-mo-la em conta no final.
Rendo-me à imagem actual (rendido mas não convencido)se for a vencedora desta votação (sem observadores internacionais, graças a Deus).
Mas, mantenho, não há amor como o primeiro.
E a primeira foto marcou a imagem da Magnólia.
As suas cores e diversidade eram marca notória.
Disse. (como se vocês se importem com o que disse)...
Boa Sexta feira. Trabalhem muito.
Descansem no fim de semana, que eu não (graças a Deus, também).

Vida




A arte, anda sempre de mão dada com a natureza.
A arte, feita por nós, humanos, anda de mão dada connosco.
E, isso, nem sempre é sinónimo de bom.
Tenham uma boa sexta feira e um óptimo (ou ótimo, melhor escrevendo) fim de semana.

Experiência?


A redacção que se segue foi escrita por um candidato numa selecção de Pessoal na Volkswagen.

A pessoa foi aceite e o seu texto está a fazer furor na Internet, pela sua criatividade e sensibilidade.


«Já fiz cócegas à minha irmã só para que deixasse de chorar, já me queimei a brincar com uma vela, já fiz um balão com a pastilha que se me colou na cara toda, já falei com o espelho, já fingi ser bruxo.


Já quis ser astronauta, tanguista, violinista, mago, caçador e trapezista; já me escondi atrás da cortina e deixei esquecidos os pés de fora; já estive sob o chuveiro até fazer chichi.
Já roubei um beijo, confundi os sentimentos, tomei um caminho errado e ainda sigo caminhando pelo desconhecido. Já raspei o fundo da panela onde se cozinhou o creme, já me cortei ao barbear-me muito apressado e chorei ao escutar determinada música no autocarro.
Já tentei esquecer algumas pessoas e descobri que são as mais difíceis de esquecer. Já subi às escondidas até ao terraço para agarrar estrelas, já subi a uma árvore para roubar fruta, já caí por uma escada. Já fiz juramentos eternos, escrevi no muro da escola e chorei sózinho na casa de banho por algo que me aconteceu; já fugi da minha casa para sempre e voltei no instante seguinte.
Já corri para não deixar alguém a chorar, já fiquei só no meio de mil pessoas sentindo a falta de uma única. Já vi o pôr-do-sol mudar do rosado ao alaranjado, já mergulhei na piscina e não quis sair mais, já tomei whisky até sentir os meus lábios dormentes, já olhei a cidade de cima e nem mesmo assim encontrei o meu lugar.
Já senti medo da escuridão, já tremi de nervos, já quase morri de amor e renasci novamente para ver o sorriso de alguém especial, já acordei no meio da noite e senti medo de me levantar. Já apostei a correr descalço pela rua, gritei de felicidade, roubei rosas num enorme jardim, já me apaixonei e pensei que era para sempre, mas era um 'para sempre' pela metade.
Já me deitei na relva até de madrugada e vi o sol substituir a lua; já chorei por ver amigos partir e depois descobri que chegaram outros novos e que a vida é um ir e vir permanente.
Foram tantas as coisas que fiz, tantos os momentos fotografados pela lente da emoção e guardados nesse baú chamado coração...

Agora, um questionário pergunta-me, grita-me desde o papel: " - Qual é a sua experiência?"
Essa pergunta fez eco no meu cérebro.
'Experiência.... Experiência... '

Será que cultivar sorrisos é experiência?
Agora... agradar-me-ia perguntar a quem redigiu o questionário:
' - Experiência?! Quem a tem, se a cada momento tudo se renova???'»


Obrigado R., por esta pérola...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

À procura de uma história comum



I CONGRESSO INTERNACIONAL DE ADOPÇÃO
À procura de uma história comum
19 e 20 de Novembro
clique aqui
(...)

Primeiro encontram-se as vontades
cansadas de esperar por um novo rosto
que não se consegue, sozinho, construir
Depois juntam-se os traços de um e do outro,
misturam-se as cores, em sereno alarido
como se fossem veludo de texturas diferentes
à procura de uma história comum
Não há receitas para que a alquimia resulte
Mas apenas
abraços e
regaços,
sussurrados por olhos sedentos
do afecto dos meios-dias,
àquela hora
em que se pode chamar nossa a uma criança
que não viajou pelas nossas águas felizes,
que não foi soletrada por nós há nove luas atrás
e que não foi gerada no berço das nossas placentas e cordões umbilicais...

Aqui começa o nosso futuro,
mesmo sem pertencer ao nosso passado,
presente ofertado
por cada um deles ao outro...

Era grande o Alexandre...


Os 3 últimos desejos de ALEXANDRE O GRANDE:

1º- Que seu caixão fosse transportado pelas mãos dos médicos da época;

2º- Que fosse espalhado no caminho até seu túmulo os seus tesouros conquistados (prata, ouro e pedras preciosas);

3º- Que as suas duas mãos fossem deixadas balançando no ar, fora do caixão, à vista de todos.


Um dos seus generais, admirado com esses desejos insólitos, perguntou a ALEXANDRE quais as razões desses pedidos e ele explicou:
1- Quero que os mais iminentes médicos carreguem meu caixão para mostrar que eles NÃO têm poder de cura perante a morte;
2- Quero que o chão seja coberto pelos meus tesouros para que as pessoas possam ver que os bens materiais aqui conquistados, aqui permanecem;
3- Quero que minhas mãos balancem ao vento para que as pessoas possam ver que de mãos vazias viemos e de mãos vazias partimos.


Pensem nisso....

Realidade. No presente, no passado, no futuro.

Marcianos da cidade do Gelo Vermelho, levam a leilão fotografia de Hirise, "Layers of Red Cliffs", pela módica quantia de 7o milhões de "Olimpos".

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Praia D'El Rei





Foi o "Onze" convidado a, no próximo dia 25 e 26 de Outubro ir encerrar a época balnear (não oficial) a Praia D'El Rei (Óbidos).
Já há três presenças confirmadas, a da anfitriã, a minha e a da fada Sininho.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O vento e os odores da monção.


Minha, muito amada, Maria Antónia.

Foi confirmada ontem a minha pena. Como podes deduzir, vou permanecer aqui, ou noutra prisão qualquer, vinte anos. Sabes que a pena é justa e que a defesa não conseguiu iludir a vigilância dos juízes.
Sabes também como te amo e como, com a avidez do dinheiro deitei tudo a perder.
O pesadelo de ser rico a qualquer preço, de ter carros topo de gama, vestir sempre roupa de marca e fazer viagens de luxo a países longínquos, já morreu.
Agora sonho uma vida com a liberdade da Terra. Poder decidir todos os dias o que fazer com as vinte e quatro horas do dia. Saber a que horas nasce o sol. Ir contigo a pé à Senhora da Saúde. Fazer amor contigo debaixo das faias do jardim, da casa velha, sem horas nem prévio conhecimento institucional.
Não temos filhos. Tu tens vinte e sete anos, feitos em Julho. Estamos casados há menos de três anos.
Tenho pensado nisso!
Queria pedir-te para viveres, por mim, a vida de jovem que eu nunca vou viver.
Quando eu sair daqui vou ter perto de cinquenta anos.
Quero que namores de novo o Gil, o Engenheiro, que não te esquece!
Ele quer e pode dar-te uma vida boa.
Não quero que me visites na prisão. Não quero que me vejas morto, que é um pouco como me sinto.
E também não quero que me chores. As tuas lágrimas são um fardo que eu não posso suportar!
A minha culpa já é muito grande, sem elas.
Maria Antónia, manda-me a roupa e os livros, desmancha a casa, entrega a chave, desfaz-te de tudo o que foi nosso e não voltes à Rua da Trindade.
Cultiva as roseiras bravas do jardim do teu pai, colhe as tuas violetas e ajuda o teu pai a podar as árvores.
Toma conta do esquilo, e do "Tejo". Não te esqueças do osso dele todos os dias.
O teu trabalho é árduo e vai manter-te ocupada.
A fonte do anjo, no jardim da casa velha, é muito bonita. Pensa em namorar aí o Engenheiro, no Setembro que se aproxima!
Se ele te pedir, faz com ele a viagem que ele quer, aos fiordes na Noruega.
No Outono, que não tarda, dança com as folhas, nas manhãs de vento quente.
E Deita-te na eira ao sol, como era costume.
Vai com o vento e entrega-te aos odores da monção...


Estabelecimento Prisional de Maniqueia.
Seis de Agosto de 2008.
Zeca.

O negro fica-lhe bem...

9 anos depois da partida para o Sul, ela que tinha a voz do vento, que era do vento e de ninguém...

"Desde que existe a morte, imediatamente a vida é absurda. Sempre pensei assim."
Amália Rodrigues

http://www.youtube.com/watch?v=ebJJTFf9rNI

(O fado mais bonito que alguma vez ouvi. Dedicado a ela)

Néon

Procurei-te no meio do caos,
entre as luzes multicolores que me fazem afastar do branco e do breu.
Sei que estavas lá.
Mas o barulho fatigou-me
e cansei o olhar de tanta espera.
Os comediantes continuavam a sua cena,
os mercadores pesavam os gatos esfomeados,
a luz de tanto brilho me cegou.
Podias ter passado por mim.
Podia eu ter passado por ti.
Não dei pelo teu rosto,
Não me espantei pela tua ausência.
Desisto. Sem concessões. Sem semáforos.
Sabes tu onde me encontrar.
A essa rua de néon não volto.
Prefiro a pacatez do teu recanto,
aquele que não tem cores nem brilhos,
apenas a tua sombra a preto-e-branco,
apenas a saudade do teu nada...

A fazer de contos...


Depois de "A CONTOS COM A JUSTIÇA", vai sair no prelo "A FAZER DE CONTOS..."
A ler... e divulgar!

Machado de Assis


Não me vou dar ao trabalho de transcrever as letras do senhor para aqui.
No centenário da sua morte basta que ajudemos a lembrar que, o dito, foi fundador da Academia de Letras do Brasil, foi um dos grandes escritores da língua de Camões e, sem dúvida, um homem à frente do seu tempo em tudo....não é preciso muito...leiam o Dom Casmurro (é como mandar ler Os Maias a propósito do Eça) e logo entendem.
Já agora, leiam "Madame" da Maria Velho da Costa.
Haja lugar para este Senhor das Letras no nosso espaço.
G.

domingo, 5 de outubro de 2008

As cores da miséria.










O que não consta das imagens?
Os gritos que se ouviram ao captá-las.
Os cheiros que percorriam os locais.
Os amores e ódios que se viviam
e que afectavam os residentes,
como o sol a pino em tardes de Verão.
A fealdade da miséria e a beleza das crianças!
As águas fétidas que escorriam sem esgoto.
A sujidade, a desarmonia, a injustiça, a exclusão.
Os sussurros dos escondidos, os medos dos criminosos,
o desespero dos sensíveis, a vanglória dos broncos.
A submissão dos pobres
e fracos
e doentes...


Dia da República


sábado, 4 de outubro de 2008

Questionário de Pivot





Bernard Pivot fez dez questões que perguntava aos seus convidados na emissão "Bouillon de culture".
Aqui vão elas.
Para que se vejam ao espelho.

As respostas, essas são vossas...

Questions
1. Votre mot préféré?
2. Le mot que vous détestez?
3. Votre drogue favorite?
4. Le son, le bruit que vous aimez?
5. Le son, le bruit que vous détestez?
6. Votre juron, gros mot ou blasphème favori?
7. Homme ou femme pour illustrer un nouveau billet de banque?
8. Le métier que vous n’auriez pas aimé faire?
9. La plante, l’arbre ou l’animal dans lequel vous aimeriez être réincarné?
10. Si Dieu existe, qu’aimeriez-vous, après votre mort, l’entendre vous dire?

Say it!


Fabuloso o que o mundo da informática consegue fazer!!! Abra o site abaixo e você vai ver uma pessoa. Passe o rato em volta da cabeça do personagem e tanto os olhos como a cabeça do personagem acompanham os movimentos Ela vai pronunciar tudo o que escrever. Escreva uma palavra ou um texto no espaço à esquerda, usando pontuação (. , ?) e clique em 'say it', o personagem vai dizer o que escreveu no idioma e no sotaque escolhidos... Até pode pôr o russo a falar português ou vice-versa...
Curioso!!!
http://www.oddcast.com/home/demos/tts/tts_example.php
Em tempo: A foto é para o GUI matar saudades...

Está bem


Gostava mais da anterior foto/emblema do Blogue....com a montra da loja.
Tudo muda.
Eu, nesta altura, não entendo como vocês arranjam tempo e pachorra para escrever, ou transcrever, tanta coisa.
Eu sei que o mal é meu. Não é vosso. Conheço-vos suficientemente, e a mim também.
Espero regressar breve (e melhor).
Fica um olhar...curioso,mas também seguro e confiante.
Bjs.
G.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O Anjo da Escada


Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando
clamando…

Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros…
com os meus caminhos…
com as minhas nuvens…


Mário Quintana

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Mulher flor

Picasso.

Solto



PALAVRAS SOLTAS
(Rogério Simões)

Volta e meia, dou a volta
E volto ao local onde já parti,
Onde cheguei,
E prometi não voltar…
Todas as viagens são curtas…
Desvio-me dos caminhos longos
Por onde não deveria ter andado
E tento esquecer o percurso
Que não programei…

- Acuso o meu corpo
De espreitar o sol
E deixar passar as nuvens!
- Acuso o meu corpo
De segurar a vida
Sorvido
De palavras soltas…

Molho as palavras em água fria
A minha vida
Vista daqui
É uma extensa mão intrometida
Onde todos os caminhos foram percorridos
Todos os espaços ocupados
Com palavras soltas

Levei muito tempo a apanhar o trilho
- Não me tapes a boca coração…
O sol queima…

Lisboa, 28 de Setembro de 2008

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Nada como o tempo, esse pintor de corpo inteiro

Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquele alguém que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente não é o "alguém" da sua vida.
Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!

Desconhecido

O Amor é um presente tão inesperado


Não irei mais longe, Gherardo.
Não te acompanho mais porque o trabalho urge
e eu sou um homem velho.
Sou um homem velho, Gherardo.
Às vezes, quando te entregas mais à ternura,
chegas a chamar-me teu pai.
Mas eu não tenho filhos.
Nunca encontrei mulher tão bela como as minhas figuras de pedra,
mulher que ficasse horas imóvel sem falar,
como coisa necessária que não precisa de agir para ser,
e nos faz esquecer que o tempo passa porque está sempre presente.
Mulher que se deixe olhar sem sorrir nem corar
porque compreendeu que a beleza é qualquer coisa de grave.
As mulheres de pedra são mais castas que as outras,
e mais fiéis, porém, são estéreis.
Não há fenda por onde se possa introduzir nelas o prazer,
a morte, ou a semente de uma criança,
e por isso elas são menos frágeis.
Por vezes quebram-se e em cada pedaço de mármore
fica contida a sua beleza inteira, como Deus
que está em todas as coisas,
mas nada de estranho entra nelas que dilate o seu coração.
Os seres imperfeitos agitam-se e acasalam-se para se completarem,
mas as coisas só belas são solitárias como a dor humana.
Gherardo, não tenho filhos.
Eu bem sei que a maioria dos homens não tem propriamente um filho:
têm Tito, ou Caio, ou Pedro, e não é a mesma alegria.
Se eu tivesse um filho,
ele não se havia de parecer com a imagem que eu dele formara
antes de existir. Assim também as estátuas que faço
são diferentes daquelas que comecei por sonhar.
Mas Deus permite-se ser conscientemente criador.

Se fosses meu filho, Gherardo, eu não te amaria mais,
mas não teria que perguntar-me porquê.
Toda a minha vida procurei respostas a perguntas
que talvez não tenham resposta e perscrutei o mármore
como se a verdade se encontrasse no coração das pedras,
e espalhei as cores para pintar muralhas
como se se tratasse de fixar acordes sobre um enorme silêncio.
Tudo se cala, sabes, até a nossa alma —ou então somos nós que não ouvimos.

Assim, tu partes.
Na minha idade já não se dá importância a uma separação,
mesmo que definitiva. Eu bem sei que os seres que amamos e que nos amam mais
se vão separando insensivelmente de nós a cada momento que passa.
É também deste modo que se vão separando de si próprios.
Estás sentado sobre essa pedra e julgas-te ainda aí,
mas o teu ser, voltado para o futuro, não adere mais ao que foi a tua vida,
e a tua ausência já começou. É certo que compreendo
que tudo isto é ilusão, como o resto,
e que o futuro não existe.
Os homens que inventaram o tempo,
inventaram por contraste a eternidade, mas a negação do tempo
é tão vã como ele próprio. Não há nem passado nem futuro
mas apenas uma série de presentes sucessivos,
um caminho perpetuamente destruído e continuado
onde todos vamos avançando.
Estás sentado, Gherardo,
mas os teus pés estão assentes no solo
com a inquietação de quem experimenta o caminho.
Estás vestido com trajes do nosso século,
que hão-de parecer feios ou simplesmente estranhos quando o século
tiver passado, pois as vestes não são mais que a caricatura do corpo.
Vejo-te nu.
Tenho o dom de ver através das roupas o irradiar do corpo,
que é como os santos vêem as almas, segundo penso.
É um suplício quando são feios,
mas é um outro suplício quando são belos,
dessa beleza frágil que a vida e o tempo atacam por todos os lados
e acabarão por tomar-te,
mas neste momento és dono dela e tua será na abóbada da igreja
onde pintei a tua imagem.
Mesmo que um dia
o teu espelho te não mostre mais que um retrato deformado
onde não ouses reconhecer-te, existirá sempre noutro sítio
o reflexo imóvel de ti.
E desse modo imobilizarei a tua alma também.
Tu já não me amas.
Se consentes em ouvir-me durante uma hora
é porque somos sempre indulgentes com aqueles que vamos deixar.
Ligaste-me e agora desligas-me.
Não te censuro, Gherardo.
O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido
que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo.
Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces,
ao encontro de quem vais e que porventura te esperam:
aquele que eles vão conhecer será diferente daquele
que eu julguei conhecer e creio amar.
Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e,
sendo a arte a única forma de posse verdadeira,
o que importa é recriar um ser e não prendê-lo.
Gherardo, não te enganes sobre as minhas lágrimas:
vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los.
Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe,
enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela.
Tal como as tuas vestes não são mais que o invólucro do teu corpo,
assim tu também não és mais para mim
do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai sobreviver.
Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo.
Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.

Marguerite Yourcenar, GHERARDO PERINI,
in “O Tempo esse grande escultor”
trad. Helena Vaz da Silva.
Editora Difel