sexta-feira, 11 de março de 2011

Em pessoa


Um muro de nuvens densas
Põe na base do ocidente
Negras roxuras pretensas
Com a noite tudo se acaba.
O céu frio é transparente
Nenhuma chuva desaba.
E não sei se tenho pena
Ou alegria da ausente
Chuva e da noite tão serena
De resto, nunca sei nada
Minha alma é a sombra presente
de uma presença passada
Meus sentimentos são rastros,
Só meu pensamento sente ...
A noite esfria-se de astros.


Fernando Pessoa

Mote

vamos completar a possível legenda desta foto? façamos história(s)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ainda da paz




Escrevo ao fim de uma semana de silêncio e recolhimento numa casa grande com torres e claustro. Parece um antigo mosteiro de granito e cal ampliado ao longo dos tempos e agora convertido numa enorme casa cheia de quartos, salas e salões, corredores de pedra, escadarias largas, pátios quadrados com laranjeiras e jardins de buxos, cozinhas grandes, capelas de todos os tamanhos e feitios e, no cimo deste imenso labirinto de geometria recta, um terraço a perder de vista sobre a vinha e os campos lavrados que se estendem até à inspiradora margem de dois rios que se juntam, e correm debaixo da mesma ponte.
Na entrada nobre da casa existe um lago com peixes pretos e encarnados, rodeado de flores plantadas pelo fiel jardineiro que ajoelha na terra para cuidar das suas rosas de Inverno.
Ao fim de oito dias, confesso que não sei o que se passa no mundo e sei vagamente o que se passa em minha casa. Acho que sei o suficiente. Se alguma coisa radicalmente importante tivesse acontecido ter-me-iam dito e isso sossega-me. Uma semana sem ver notícias, sem ler jornais, sem ouvir os comentadores habituais e sem ter conversas mais ou menos avulsas sobre a actualidade do momento não me parece grave. Muito pelo contrário. E se, por acaso, perdi alguma coisa essencial, sei que a apanho já a seguir. Em Soutelo, a grande notícia foi a chuva que finalmente veio substituir o sol.
Uma semana de silêncio e meditação é, para muitos, uma coisa bizarra e uma atitude rara. Embora haja cada vez mais pessoas a procurar o silêncio e a distância crítica em templos budistas, workshops zen, retiros espirituais, férias em lugares sagrados ou viagens a paraísos ecuménicos, ainda há quem estranhe o silêncio. E quem o ache inquietante ou perturbador. Percebo a desconfiança porque eu própria já fui assim.
Se me tivessem dito há 12 anos, altura em que comecei a fazer EE (Exercícios Espirituais segundo a terminologia jesuítica de Stº Inácio, fundador da Companhia de Jesus), que ia passar uma semana por ano em silêncio e oração, eu tinha fugido. Ainda bem que não me disseram.
Conhecendo-me como conheço sei que tenho a tentação de escapar a tudo o que me querem impor e, daí, a minha gratidão comovida a quem um dia se lembrou de me desafiar a ter estas conversas no silêncio.
E é disso mesmo que se trata: de uma longa conversa, viva e desafiadora, sobre o essencial, no sentido de pôr a vida em perspectiva, de arrumar melhor as ideias, de ler o passado recente e projectar o futuro próximo. Uma longa conversa no sentido metafórico, de quem sabe que é possível manter um diálogo interior que interpela e leva mais longe, mas também no sentido literal porque falamos todos os dias com quem nos orienta e ouvimos este mesmo orientador falar várias vezes por dia, nas pequenas conferências que antecedem os tempos de meditação.
O silêncio, neste enquadramento e com esta exigência de profundidade, faz todo o sentido e não é nenhuma provação. Muito menos uma penitência. O objectivo é desligar da confusão, reduzir os excessos, diluir os barulhos, eliminar os ruídos na comunicação, depurar as conversas e limpar o olhar. Só isto.
Para quem está de fora, o silêncio pode parecer um teste ou uma prova olímpica de endurance mas, para quem está dentro, o silêncio sai sem esforço. Com a naturalidade de quem sabe que não falar não quer dizer não comunicar.
Aliás, esta longa conversa não teria o mesmo proveito nem os EE não seriam tão regeneradores se pudéssemos falar uns com os outros a toda a hora, pois desperdiçamos facilmente o nosso tempo e a nossa concentração em conversas de mesa e corredores.
Na verdade a contenção leva-nos muito longe, de muitas maneiras, e até podemos fazer amigos para a vida neste silêncio puro, permanentemente atravessado de olhares, sorrisos e gestos francos. A generosidade que se descobre em quem está ao nosso lado, por exemplo, ou a sensibilidade que se adivinha nos que demoram às refeições para ouvir a música escolhida com intenção e critério (um dia gostava de saber quem faz as play lists de música clássica, óperas e coros maravilhosos que ouço nos EE, para as poder reproduzir em casa) ou, ainda, a elevação com que todos vivem o recolhimento fazem do silêncio uma experiência marcante mas, também, profundamente estética.
O maior mistério reside na conjugação sempre feliz de pessoas que, sem se conhecerem, passam a encontrar-se todos os dias e, neste encontro, revelam uma abertura, um respeito e um espírito de grupo improváveis noutras circunstâncias e lugares.
Importa sublinhar que há um momento ao fim de cada dia em que, com moderação, podemos falar daquilo que mais nos tocou ou marcou. Negativa e positivamente, note-se. E é também nesta altura em que os que querem falar, falam, que nos conhecemos melhor e se tecem os tais laços que duram uma vida.
Aos 46 anos sinto que pertenço claramente à ala senior dos retiros porque as inscrições são quase sempre feitas em centros universitários mas, nesta semana de preparação para o Natal, havia gente de todas as idades e condições. Rapazes e raparigas, homens e mulheres com vocações e profissões diversas, histórias de vida desiguais e expectativas distintas. Em tudo diferentes, excepto no credo.
Desta vez o orientador era Vasco Pinto de Magalhães, padre jesuíta que começou a sua formação em engenharia mas acabou por se licenciar em Filosofia, em Lisboa, e depois em Teologia, em Roma. Antigo jogador de rugby, dizem que era um dos melhores da sua geração. Autor de vários livros, é um conferencista muito solicitado por ser um grande comunicador. Em resumo: um sábio com o dom da palavra. Ou um verdadeiro Mestre, como diria Tolentino de Mendonça, poeta, também padre e outro grande sábio.
Numa Igreja com tantos problemas de comunicação é importante haver quem traduza e comunique bem a realidade bíblica. Quem seja capaz de descer ao concreto da vida, onde as coisas acontecem; quem nos ajude a compreender o incompreensível; a resolver alguns dos nossos dilemas e a dar sentido ao mistério; e quem saiba rasgar caminhos que possamos percorrer para ir mais longe.
Vasco Pinto de Magalhães tem este e muitos outros talentos. Ouvi-lo dissertar é um luxo espiritual e um desafio intelectual permanente. Fala a sorrir e usa palavras muito simples para dizer coisas muito profundas. A sua alegria diverte, contagia e ilumina. A sua atitude firme, centrada exclusivamente no essencial, inspira e transforma.
A profundidade de Vasco Pinto de Magalhães leva-nos a nós mais fundo e a sabedoria espantosa com que lê a vida e interpreta os factos, surpreende. E é esta surpresa associada à ‘extravagância’ da sua simplicidade que verdadeiramente convertem.
Percebo Tolentino de Mendonça quando fala dele e da maravilha de ser um padre raro na Igreja por ter criado um discipulado. Vasco Pinto de Magalhães tem realmente uma legião de discípulos que o seguem, lêm e acompanham por reconhecerem nele um verdadeiro Mestre. Na maneira como acolhe, como ajuda a pensar, como ensina a rezar, como mostra os caminhos que levam ao perdão e à reconciliação, na forma como revela a evidência e, insisto, na alegria e simplicidade com que nos centra no essencial.
Ao fim de uma semana de EE (que também podem ser feitos uma versão mais abreviada de três dias) a ouvir Vasco Pinto de Magalhães e a reflectir nas pistas que ele sugere em cada dia, faz ainda mais eco a certeza de que num mundo pós-cristão, fragmentado e dividido, um cristão não é uma resposta definitiva, é um desafio permanente.


LAURINDA ALVES, no mesmo Soutelo onde eu estive

Cruzes

terça-feira, 8 de março de 2011

Da paz



Cheguei.
Da paz.
Do lado das magnólias.
Porque as vi por lá.
Verdade...
De 5 dias em silêncio, em contemplação e oração.
Vertido por dentro, renovado por fora. Porque as fontes não secam quando Ele está por perto. Se eu pudesse transmitir, um segundo que fosse, da serenidade que vela pela minha alma.
Quando penso Nele, todo o desamor cai por terra, até a ave mais rasteira ganha asas e soletra o verbo do Mundo.
Não sei de onde me vem esta Fé, esta certeza, esta hóstia de trigo louro, esta seara de vento carmim, esta sede de olhos em mim...
Não vi o Mundo. Apenas o li.
Pelos Seus olhos. Pelo seu Amor por nós.
Sarei as feridas inacabadas de um tempo menor
e calei as dores maiores que guardei a sete chaves no baú da sexta felicidade,
aquela que me leva sempre ao planeta Constança.
Bebi da água da Mãe,
Acordei ao som do piano de Einaudi,
mastiguei a erva-doce da temperança
e pranteei com Madalena.
Porque o Mestre tinha ido para a Montanha,
fui atrás Dele e venci-me...
Porque amanhã começa a Quaresma,
porque caíram, tolas e insensatas, todas as máscaras,
eis que tudo volta ao equilíbrio de sempre...


Até à próxima Páscoa...
Até ao suave lamento dos meio-dias...


Em tempo: Dedico este post ao «nosso» Padre Vasco Pinto de Magalhães, eterno celebrante da nossa união!

O Dia das Evas


O novo ser diz que se chama Eva. Tudo bem. Não tenho objecções. Diz que é para o chamar quando queira que ele venha. Eu disse que, nesse caso, era supérfluo. Esta palavra fez-me subir na sua consideração e é, de facto, uma longa e boa palavra capaz de suportar a repetição. O novo ser diz que não é um ser, mas uma Ela. Dúvido, mas tanto me faz. O que Ela seja não me faria diferença se Ela se metesse na sua vida e não falasse.


MarK Twain
Excertos dos diários de Adão e Eva

segunda-feira, 7 de março de 2011

A obsessão dos sinais.


(...)
O olhar percorre as ruas como páginas escritas: a cidade diz tudo o que devemos pensar, faz-nos repetir o seu discurso, e enquanto julgamos visitar Tamara limitamo-nos a registar os nomes com que ela se define a si mesma e todas as suas partes.

Como realmente é a cidade sob este denso invólucro de sinais, o que ela contém ou oculta, o homem sai de Tamara sem tê-lo sabido.

Fora dela espraia-se a terra vazia até ao horizonte, abre-se o céu por onde correm as nuvens. Na forma que o acaso e o vento dão às nuvens o homem fica logo absorvido a reconhecer figuras: um veleiro, uma mão, um elefante...


Italo Calvino
(As cidades e os sinais)
As cidades invisíveis

domingo, 6 de março de 2011

Festivais...


E eis que, quando o júri nacional (dos 18 distritos do Continente, mais da Madeira e Açores)se preparava para fazer vencer um Nuno Norte, e talvez merecidamente já que pelo que vi o júri nacional era composto por uma grande maioria de gente ligada à música, veio o Povo com o televoto e estragou tudo. Elegeram Os Homens da Luta como representantes do país na Eurovisão. Confesso que gosto dos gajos. Sempre achei piada ao Jel, desde os tempos em que era dj naquele programa da rtp2 dos pasteis de nata (a revolta dos ditos). Eu acho que o povo anda com saudades de revoluções. Deus queira.
Seja como for...não sei se a rtp contava com isto, mas se não contava...bem feito.
E a música nem é de deitar fora....

sexta-feira, 4 de março de 2011

Ponte


Aqui fazemos pontes. Outras houve que foram fonte de tristeza, dor e angústia sem fim. Apesar de abundantemente lembrado, nunca é demais recordar e fazer por não esquecer, aqueles segundos fatais que o destino enviou a todas aquelas pessoas que morreram de forma tão arrepiante. Uma prece, um pensamento, um minuto de nós nas margens daquele rio fabuloso e daquela terra tão próxima e tão distante.

Correto



Pese embora a infelicidade e rudeza das frases do "criador", não deixo de ficar espantado como é que algo acontecido em Outubro de 2010, onde visadas pelas frases se riem, vem agora a terreiro e com esta aura de escândalo. Sinceramente, mesmo sem simpatia pelo proferido, aliás visivelmente alcoolizado no mínimo, fico arrepiado com esta marcha do polticamente correto que nos atinge...faz-me lembrar o australiano suposto abusador de suecas maduras, enquanto dormiam e sem preservativo.

Esta loucura do correto e asséptico (assético) ainda nos há-de morder a todos. Riam-se e vão ver. lembro-me que já não se poderá contar a anedota que, no liceu trocávamos entre todos....como se metem 1000 judeus num Mini ? resposta: no cinzeiro. Então, nos idos de 70 e 80, riamos e sabíamos que era apenas uma graçola negra e sem qualquer sentido...hoje...iríamos presos. O politicamente correto virou uma censura mesquinha e cega. Digo eu que sou um pró-israelita assumido e apoiante de todas as suas politicas. Mesmo as do muro. Estou sempre com eles.

Reproduzo texto publicado no Publico.PT online...
Quem tem medo de John Galliano? A frase, um pastiche do teatral Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, foi cunhada pela então jornalista Catarina Portas e pelo produtor de moda Paulo Gomes em 1993, quando o designer britânico esteve para ser o convidado especial da ModaLisboa e gerou os protestos de uma série de criadores portugueses (Ana Salazar, Alves/Gonçalves, Tenente, Nuno Gama), que temia ser ofuscada pela exuberância de Galliano. A edição da ModaLisboa ficou congelada, Portas e Gomes perguntaram-no nos jornais, a frase acabou estampada em t-shirts vendidas no Bairro Alto. Ele já era um ícone. Hoje, véspera do desfile da Casa Christian Dior no Museu Rodin, em Paris, Galliano estará ausente, despedido da histórica e rica casa de moda parisiense após duas acusações policiais por insultos raciais, pelos quais será julgado nos próximos meses, e um vídeo com declarações anti-semitas que afastaram até a vencedora do Óscar de Melhor Actriz, Natalie Portman, de origem israelita. Que simboliza ele hoje?Na sexta-feira, 25 de Fevereiro, Galliano foi suspenso da Maison Dior após a queixa de um casal, que diz ter sido insultado pelo criador, embriagado, no bar La Perle, do icónico bairro parisiense do Marais. Geraldine Bloch, 35 anos, diz ter ouvido: "Sua cara suja de judia, devias estar morta." Philippe Virgitti, 41 anos e de origem asiática, diz que o criador o ameaçou: "Seu cabrão asiático, vou matar-te." A importância e a carreira do homem que salvou a Casa Dior do prejuízo, um milagre da alta-costura mundial, estava suspensa por uma polémica grave que faz lembrar os dislates de Mel Gibson, ou, mais recentemente, de Charlie Sheen. Mas na terça-feira seguinte, depois da divulgação de um vídeo (que será datado de 12 de Outubro e no qual as interlocutoras do criador se riem audivelmente) em que Galliano profere comentários anti-semitas no mesmo bar, dizendo nomeadamente "Amo Hitler" (o vídeo está no site do PÚBLICO), a Dior despediu-o mesmo. "O carácter particularmente odioso do comportamento" do criador no vídeo, lê-se no comunicado da marca, levou Sydney Toledano, presidente da empresa, "a condenar com grande firmeza as suas declarações". A Casa tinha sido cautelosa desde o início, distanciando-se de Galliano assim que o alegado teor das suas declarações foi conhecido - ele negou inicialmente os factos,tendo o seu advogado Stéphane Zerbib enfatizado que o casal começou a discussão, gozando com o aspecto de Galliano. Depois, nova queixa. Uma francesa diz ter sido insultada no mesmo registo e no mesmo La Perle, também em Outubro. Não se queixou mais cedo por ter achado que o criador estava alcoolizado. Novamente, o advogado de Galliano questiona estas acusações e o seu timing.Entretanto, ontem à tarde, Galliano, já representado pela firma de advogados que defendeu Kate Moss, quando foi acusada de consumo de drogas, pediu desculpas. "O anti-semitismo e o racismo não têm qualquer papel na nossa sociedade. Peço desculpas sem reservas pelo meu comportamento", disse num comunicado divulgado pelas agências noticiosas. Não sem acrescentar que foi "sujeito a uma perseguição verbal e a uma agressão não provocada": "Um indivíduo tentou agredir-me com uma cadeira depois de ter comentado violentamente o meu aspecto e a minha roupa." Agora promete internar-se numa clínica de reabilitação.Natalie Portman, cara do perfume Miss Dior Chérie (uma das principais fontes de lucro da marca, cujos desfiles espectaculares servem sim de alavanca para as vendas de produtos como os perfumes, cosméticos e acessórios), acabada de ganhar um Óscar, disse segunda-feira que nada queria ter a ver com alguém que proferia tais palavras contra judeus como ela. Em França, as declarações anti-semitas são puníveis com penas até seis meses de prisão.Um génio em depressão?

Carnaval


Estamos no tempo das máscaras (o tempo exato---eu escrevo com a nova grafia---) embora hoje em dia, todos os dias, sejam tempos de máscaras.

Quem dera que algumas, pelo menos, se colassem aos rostos e nunca mais de lá saissem. Seria, sem dúvida, um gozo infinito.

Apetecia-me tanto falar mal de tanta coisa...mas vou conter-me.

Assim, desejo a todos um bom fim de semana e um Ótimo Carnaval.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Piano a horas vivas

Em retiro


Parto com a C para um retiro.
Em silêncio.
Com Ele. E por ela...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Livro-mundi


BIBLIOTECA MUNDIAL DA ONU

Uma Relíquia a aguardar


PRESENTE DA UNESCO PARA A HUMANIDADE INTEIRA !!!

Já está disponível na Internet, através do site

www.wdl.org

Os reis da noite


A ORIGEM (Inception) - 4 Oscares


Christian Bale - The fighter (melhor secundário)

Melissa Leo (the fighter) - melhor secundária


Colin Firth, o actor do ano

Natalie Portman, a ACTRIZ do ano

O DISCURSO DO REI, o filme do ano




Não gaguejou...
E ganhou a noite...
Apesar da rede social da moda!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A GRANDE NOITE


Existem mais oito candidatos ao Óscar de melhor filme, mas 2011 é o ano da disputa entre A Rede Social e O Discurso do Rei - dito de outro modo, entre um filme fala-barato e um filme sobre problemas de fala.

Aposto no segundo.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Cuidado com Elas...


Reproduzo, de seguida, o que consta no site da SIC :


"EPISÓDIO 1 - No primeiro episódio de “Cuidado com Elas”, Isabel, Manuela e Ana dão largas à imaginação e colocam os homens em situações divertidas totalmente inesperadas. Sempre com muito sentido de humor, escolhem alvos masculinos pregando-lhes várias partidas. Eles são literalmente “apanhados” e nem dão conta. É caso para dizer: cuidado com elas… porque elas andam à solta! "

E eu que pensava que a espiral suicida da SIC já tinha atingido o zénite....qual quê...depois dos pés resolveram atirar na cabeça directamente.
Brinda-nos a SIC com estes "Apanhados" onde umas "actrizes" provocam situações que colocam os "alvos" em situações embaraçosas, constrangedoras ou realmente dementes. Eu, confesso, acho que tudo aquilo, ou quase tudo, está previamente combinado e estudado com o "alvo". Tudo ali parece demasiado encenado e treinado. Seja como for, a ideia é de jericos. E de uma misogenia, ao contrário, confrangedora e patética. Com coisas destas, mais a TVI se destaca. Depois de decapitar a RTP (ai dinheiro, o que fazes...) nem precisa de se preocupar com a SIC....que teima em não fazer diferença e tentar obter o que já teve e ser o que já foi. Não sei o que anda à solta, mas não são elas certamente. Mas enfim....cuidado com elas....as televisões.

Um dia de vidro

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O velho e o mar


É um velho de pé na ré de um barco. Aperta nos braços uma mala leve e um recém-nascido, ainda mais leve do que a mala. O velho chama-se Senhor Linh. É o único a saber que se chama assim pois todos os que o sabiam morreram à sua volta.De pé na popa do barco, vê afastar-se o seu país, o dos seus antepassados e dos seus mortos, enquanto a criança dorme nos seus braços. O país afasta-se, torna-se infinitamente pequeno, e o Senhor Linh vê-o desaparecer no horizonte, durante horas a fio, apesar do vento que sopra e o sacode como uma marioneta.A viagem prolonga-se por muito tempo. Dias e dias. E o velho passa todo este tempo na popa do barco, de olhos postos na esteira branca que acaba por se unir ao céu, a perscrutar o horizonte para continuar a distinguir a costa esvanecida. Quando o conduzem ao camarote, deixa-se guiar sem dizer nada, mas encontram-no um pouco mais tarde, na ponte da popa, uma mão agarrada à amurada, a outra estreitando a criança, a pequena mala de couro fervido pousada aos pés. A mala está atada por uma correia para não poder abrir-se, como se guardasse bens preciosos. Na verdade, contém roupa co­çada, uma fotografia que a luz do sol apagou quase totalmente, e um saco de lona no qual o velho conserva um punhado de terra. Foi tudo o que o homem pôde levar consigo. E a criança, obvia­mente.

Phillipe Claudel ,1ªpágina de A Neta do Senhor Linh

Também lido no Ao longe os barcos de flores da Amélia Pais

S.

Para a S.
Porque és o sangue de meu sangue...