sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Se me esqueceres...

Se Me Esqueceres
Quero que saibas 
uma coisa. 
Sabes como é: 
se olho 
a lua de cristal, o ramo vermelho 
do lento outono à minha janela, 
se toco 
junto do lume 
a impalpável cinza 
ou o enrugado corpo da lenha, 
tudo me leva para ti, 
como se tudo o que existe, 
aromas, luz, metais, 
fosse pequenos barcos que navegam 
até às tuas ilhas que me esperam. 
Mas agora, 
se pouco a pouco me deixas de amar 
deixarei de te amar pouco a pouco. 
Se de súbito 
me esqueceres 
não me procures, 
porque já te terei esquecido. 
Se julgas que é vasto e louco 
o vento de bandeiras 
que passa pela minha vida 
e te resolves 
a deixar-me na margem 
do coração em que tenho raízes, 
pensa 
que nesse dia, 
a essa hora 
levantarei os braços 
e as minhas raízes sairão 
em busca de outra terra. 
Porém 
se todos os dias, 
a toda a hora, 
te sentes destinada a mim 
com doçura implacável, 
se todos os dias uma flor 
uma flor te sobe aos lábios à minha procura, 
ai meu amor, ai minha amada, 
em mim todo esse fogo se repete, 
em mim nada se apaga nem se esquece, 
o meu amor alimenta-se do teu amor, 
e enquanto viveres estará nos teus braços 
sem sair dos meus. 
Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda" 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Meu pai






E se...
ele não tivesse perdido o espanto na voz,
se não me lançasse escolhos nos olhos perdidos no espaço?
E se o autor dos meus dias, afinal, gritasse as minhas noites como se fossem setas enlaçadas pelo farol mais luminoso do povoado?
E se eu não demorasse tanto a sentir a sua falta,
como se as hienas me enfeitiçassem, sem aviso e com uma marca de água tão feliz, mais do que feliz?
E se ele me desse a mão e eu lhe tocasse a alma sem querer,
perto do campanário da minha eterna tristeza de o ver assim tão longe, de tão perto que me toque...
E se ele nunca acabasse de fazer primaveras?
Eu nunca quereria acabar este livro de poemas…
(...)

Partiu para a Eternidade a 27.10.2016
Boa viagem, meu herói...

sábado, 9 de julho de 2016

God bless the child


segunda-feira, 28 de março de 2016

Golias de trazer por casa


Há poucos dias, pude ler num cartaz empunhado por uma criança belga numa manifestação anti-violência doméstica
   “O Mundo é perigoso para viver
  Não por causa daqueles que fazem o mal
  Mas por causa daqueles que assistem,
  testemunham e deixam FAZER”


Que estes Golias de trazer por casa desapareçam no dealbar de uma nova consciência civilizacional e que a luta pela paz destas mulheres nunca nos faça vacilar.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Ao vosso dispor...sempre em discurso aberto e dinâmico, à espera de soluções doutrinárias e jurisprudenciais que iluminem o nosso caminho!

AS LEIS DAS CRIANÇAS E JOVENS
REFORMA DE 2015

http://www.cej.mj.pt/cej/recursos/ebooks/familia/eb_As_Leis_Criancas_Jovens_Reforma_2015.pdf

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

de ti

As flores nascem do breu.
O breu nasce da seiva.
O verde, esse, vem de ti...

quinta-feira, 16 de julho de 2015

MEMÓRIAS MINHAS


quarta-feira, 22 de abril de 2015

E já que se falou em ébano...aqui vai uma foto.
E a pensar nas centenas, milhares, que morrem e que tentam cruzar a fronteira entre o horror e a (mesmo que aparente) boa vida europeia. Que sempre será um oásis comparada com a barbárie donde fogem.
Esta realidade constrange-me e deixa-me mudo. Um verdadeiro horror humano. Tomara abrir os braços e receber todos quantos nos buscam.
Há pessoas que devem ser respeitadas e lembradas....sempre.
O meu regresso, hoje, tem um nome....Mariano Gago.
Fiquem bem.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Marfim e ébano



Preto ou Branco, era a questão!
...
No dia em que Rose Parks, costureira negra de meia-idade, foi impedida de se sentar no primeiro lugar vago de um autocarro branco quase vazio, alguém gritou, sem ter tempo para falar: "Black is beautiful"
No dia em que dois negros se matricularam na Universidade de Alabama, um país tremeu nos seus frágeis e brancos alicerces espirituais.
No dia em a Ku Klux Klan reviveu um antigo terror, as forças do poder calaram seus tambores e falaram em neutralidade.
...
Houve reis que nunca usaram tiaras e que, em vez de trono, sentaram-se em púlpitos, decretando para o seu moreno povo as medidas de emergência que urgia tomar.
Porque será que ficou escrito que o Rei-Pastor - David - haveria de morrer?
...
Preto e Branco, para quê a questão?


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

iNTERMEZZO

o mundo desaba.
a gripe desaba-me.
a magnólia descansa.
até regressar em flor.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Em terra firme

Que terra é esta?
Que doido feiticeiro deixa nos montes soalheiros, 
oliveiras, vinhas e sobreiros,
nos vales espalha, prazenteiro, o frio nevoeiro,
Mas dá as gentes que deles sobem a visão divina do dia verdadeiro?
 
(Foto e texto de MAP)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Quase Natal

“entre mim e o meu silêncio há gritos de cores estrondosas
e magias recortadas dos sonhos que acontecem naturalmente.
eu sou a cama onde me deito, todas as noites diferente,
eu sou o sorriso estridente dos pássaros no céu todo,
eu sou o mar, o oceano velho a abrir a boca numa
gruta que assusta as crianças e os homens que conhecem o mundo.
eu sou o que não devia ser e rio, rio,
rio, porque sou puro, porque sou um pouco de alegria,
(…)
porque minha é esta esperança e esta vontade
de nascer em cada manhã, em cada rosto, em cada
fósforo acesso, em cada estrela. rio, rio, rio, porque meu
é o amor e o luto e a fome e todas as coisas
que fazem esta vida que não entendo e persigo.
eu sou um homem vivo a sentir cada pedra,
eu sou um homem vivo a sentir cada montanha,
eu sou um homem vivo a sentir cada grão de areia.
desordenadamente, eu sou alguém que é eu sem o saber,
entre mim e o meu silêncio há um desentendimento
esculpido nas flores e nas nuvens, rio, rio, rio,
eu sou a vida e o sol a iluminar-me.”

José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Os meus auditores

No dia em que, emocionalmente, dei a última aula a um grupo magnífico do cej. Recebi mais do que dei. E tenho consciência que dei muito! Ficaram as rosas e algumas lágrimas pelo chão e a certeza de que nunca me apartarei deles, agora noutro cargo, menos científico, mas com muita criatividade para explorar! Porque sei que vão ser GENTE!
Decisão do Desembargador José Luiz Palma Bisson, do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferida num Recurso de Agravo de Instrumento ajuizado contra despacho de um Magistrado da cidade de Marília (SP), que negou os benefícios da Justiça Gratuita a um menor, filho de um marceneiro que morreu depois de ser atropelado por uma motocicleta. O menor ajuizou uma ação de indenização contra o causador do acidente pedindo pensão de um salário mínimo mais danos morais decorrentes do falecimento do pai.
Por não ter condições financeiras para pagar custas do processo o menor pediu a gratuidade prevista na Lei 1060/50. O Juiz, no entanto, negou-lhe o direito dizendo não ter apresentado prova de pobreza e, também, por estar representado no processo por "advogado particular". A decisão proferida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo a partir do voto do Desembargador Palma Bisson é daquelas que merecem ser comentadas, guardadas e relidas diariamente por todos os que militam no Judiciário.

Transcrevo a íntegra do voto:

“É o relatório.
Que sorte a sua, menino, depois do azar de perder o pai e ter sido vitimado por um filho de coração duro - ou sem ele -, com o indeferimento da gratuidade que você perseguia. Um dedo de sorte apenas, é verdade, mas de sorte rara, que a loteria do distribuidor, perversa por natureza, não costuma proporcionar. Fez caber a mim, com efeito, filho de marceneiro como você, a missão de reavaliar a sua fortuna.
Aquela para mim maior, aliás, pelo meu pai - por Deus ainda vivente e trabalhador - legada, olha-me agora. É uma plaina manual feita por ele em paubrasil, e que, aparentemente enfeitando o meu gabinete de trabalho, a rigor diuturnamente avisa quem sou, de onde vim e com que cuidado extremo, cuidado de artesão marceneiro, devo tratar as pessoas que me vêm a julgamento disfarçados de autos processuais, tantos são os que nestes vêem apenas papel repetido. É uma plaina que faz lembrar, sobretudo, meus caros dias de menino, em que trabalhei com meu pai e tantos outros marceneiros como ele, derretendo cola coqueiro - que nem existe mais - num velho fogão a gravetos que nunca faltavam na oficina de marcenaria em que cresci; fogão cheiroso da queima da madeira e do pão com manteiga, ali tostado no paralelo da faina menina.
Desde esses dias, que você menino desafortunadamente não terá, eu hauri a certeza de que os marceneiros não são ricos não, de dinheiro ao menos. São os marceneiros nesta Terra até hoje, menino saiba, como aquele José, pai do menino Deus, que até o julgador singular deveria saber quem é.
O seu pai, menino, desses marceneiros era. Foi atropelado na volta a pé do trabalho, o que, nesses dias em que qualquer um é motorizado, já é sinal de pobreza bastante. E se tornava para descansar em casa posta no Conjunto Habitacional Monte Castelo, no castelo somente em nome habitava, sinal de pobreza exuberante.
Claro como a luz, igualmente, é o fato de que você, menino, no pedir pensão de apenas um salário mínimo, pede não mais que para comer. Logo, para quem quer e consegue ver nas aplainadas entrelinhas da sua vida, o que você nela tem de sobra, menino, é a fome não saciada dos pobres.
Por conseguinte um deles é, e não deixa de sê-lo, saiba mais uma vez, nem por estar contando com defensor particular. O ser filho de marceneiro me ensinou inclusive a não ver nesse detalhe um sinal de riqueza do cliente; antes e ao revés a nele divisar um gesto de pureza do causídico. Tantas, deveras, foram as causas pobres que patrocinei quando advogava, em troca quase sempre de nada, ou, em certa feita, como me lembro com a boca cheia d'água, de um prato de alvas balas de coco, verba honorária em riqueza jamais superada pelo lúdico e inesquecível prazer que me proporcionou.
Ademais, onde está escrito que pobre que se preza deve procurar somente os advogados dos pobres para defendê-lo? Quiçá no livro grosso dos preconceitos...
Enfim, menino, tudo isso é para dizer que você merece sim a gratuidade, em razão da pobreza que, no seu caso, grita a plenos pulmões para quem quer e consegue ouvir.
Fica este seu agravo de instrumento então provido; mantida fica, agora com ares de definitiva, a antecipação da tutela recursal.
É como marceneiro que voto.
JOSÉ LUIZ PALMA BISSON - "Relator Sorteado”

domingo, 14 de dezembro de 2014

o mar em falta


"Quando a liquida ilusão
lhe sustentava o sonho
cruzava, fantasma irreal, oceanos à bolina.

Faltou-lhe o mar.
Pasmado o vento
sobram-lhe, pesadas e concretas, pegadas errantes
no areal molhado.

Espera, encalhado, 
uma maré de ressurreição..."
MAP (palavra e imagem)

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Nas tuas águas

Sei.
De uma gota de feliz lágrima
Que se quer brotar em rio
Sem mácula de mar,
Sem sombra de sal,
Sem vestes de limos quentes...

Mas não é certo que dentro de um rio há mar?
Sei.
Pouco.
Mas isso basta-me para o pranto,
O outro lado do meu espanto...

Nas horas


Há uma cama desfeita no meu peito
Ninguém a vem cobrir
Será vento?
Será um lamento pelas horas que lá não te vi?
A janela indiscreta dos teus lábios sabe a fel,
Do mel da minha insônia.
Vens?
Por quantas portas?
Por que lençóis?
Sem hora marcada
Com a marca das horas..

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Purificando o espaço

Com Fúria e Raiva Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"


Badalhocas

Começa hoje mais uma descida ao poço da indigência., da ignorância e da pobreza mental...cada vez mais fundo esse poço fica  e cada vez mais podre..sempre com o .alto patrocínio/apresentação das nossas TVI e Teresa Guilherme...hellas...palavra para quê ? fica tudo dito...e o país anda bem...e bem haja esta MERDA....Que Pobreza.....

terça-feira, 29 de julho de 2014

2ª edição - para vós!