sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022


 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

36

 


sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

BALANÇO DE UM ANO DE MURMÚRIOS



O relógio do novo tempo aproxima as nossas solidões e os nossos burburinhos.
Está quase chegado o minuto derradeiro de um ano de mágoa, muita mágoa, de júbilo profissional, de fim de labor num limoeiro amado, de dor, de pouca cor.
Vi as sombras do vírus e pouco mais.
Testei muito sempre em busca de uma nota negativa.
Vacinei-me como nunca.
Porque acredito naquilo que é credível e não sou um filho das trevas.
Falei muito de crianças.
Por não as ter.
Por só as ter.
Vi os sobrinhos amados a crescer em graça e sabedoria.
Voltei aos adultos marotos e ao crime de 1ª página ou da última, aquela que ninguém lê.
Rejubilei com o regresso dos ABBA e deleitei-me, sempre, com os meus livros e os meus filmes (aqueles que nunca me desiludem).
Deixei o meu comboio de anos e lancei âncoras no meu Palácio de Justiça preferido.
Ouvi falar de Aleppos fantasmas e de sírios pesadelos
E desacreditei na raça humana.
Lancei foguetes pela queda do um monstro nas Américas
e continuo a aguardar o tombo de um seu primo na Amazónia.
O som do silêncio pairou sobre as cidadelas.
Nunca vi tanto desalento nas vidas das gentes.
Vi gente amada presa a um branco leito, espantando a morte, sem o conseguir,
decifrando olhares, reaprendendo a olhar.
As cegonhas partiram para parte incerta.
Nunca cá estiveram, de facto.
Serei eu que as espanto?
As marés não chegaram a salgar-me,
o mar adentro que me colou às cinzas das algas
tocou-me ao de leve e nunca me molhou.
Senti suores, mal-olhados, frémitos, invejas mal contidas, ocultos passos dentro de mim.
E senti o meu Deus como nunca em mim.
Pairei no fundo da alma,
encostei os olhos à lama dos tempos,
e chorei, chorei, chorei muito.
Por Ela.
Por mim.
Hoje quero-me assim filho da desgraça -
o novo relógio parece-me igual, em forma e conteúdo,
o novo tempo tem já saudades do velho tempo,
aquele em que o balanço dos dias e das noites
não tem receio das tornas que tiver de dar aos herdeiros da alegria.
Amanhã é um novo dia. E um novo ano.
A noite fez-se para amar,
O tempo... faz-se para passar!
Ao lado da Constança para sempre (um outro nome para a constância)...
Com desejos de novos desafios, de muita saúde para os que amo e os que muito estimo...
Depois do pior ano da minha vida, só pode vir o melhor.
Bom ano (maior do que a soma dos seus dias).
Eu... vou com as aves… falar com a minha Mãe.
Porque ela não me morreu.

 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Mimo

Corro.
Como se as pedras me pesassem.
O sol magoa-me.
O 22º ano apoquenta-me.
Como se fosse acre e duro.
Mimo-me.
Com a saudade.

 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

ODE MATERNAL

 ODE MATERNAL

O meu mundo nunca mais vai ser o mesmo a partir de agora.
Tenho a felicidade suprema de ter sido criado por dois progenitores exemplares que marcaram, de forma indelével, a minha existência e do meu Amado irmão Henrique.
A cruz recente da minha querida Mãe marcar-me-á para todo o sempre - a sua abnegação, a sua entrega à oração, o seu exemplo de serenidade mesmo quando a doença traiçoeira atacou sem aviso e sem piedade.
Em finais de Agosto, roubaram-me a esperança de a ver como uma sobrevivente do infame caranguejo.
Depois de sucessivos e exaustivos internamentos em Leiria e no «seu» IPO (que desde 2015 nunca a largou), chegou a hora de lhe dizer «adeus», num «até sempre e até breve», próprio que quem Crê.
Amou os filhos como ninguém.
Sustentou a doença do companheiro como poucas.
Sempre apoiou os meus voos, ela para quem todos os meus desenhos eram Picassos e as minhas redacções Hemingways.
Amparou-me em todas as minhas quedas, secou todas as minhas lágrimas, sussurrou-me sempre ao ouvido que eu devia fazer a diferença neste mundo. Eu e o meu irmão.
De pouco ou nada lhe vali nos últimos tempos de breu - tudo deve à acção misericordiosa de meu irmão Henrique que foi um Deus, quase que deitado a seu lado.
O meu mundo mudou.
Tenho faróis acesos mas apenas virtuais e não palpáveis.
O meu coração ainda está em carne viva.
A minha saudade também.
Fica aqui este estandarte de agradecimento profundo a todos e todas as que chegaram ao meu lado, me abraçaram e me tocaram na minha Dor.
Por escrito, pelo FB, por SMS, por telegrama, por postal, por aperto de mão, pela presença física nas exéquias em Leiria ou em minha casa, por tanto incenso e muita mirra.
Sei que ela é uma gaivota.
Sempre o foi.
Mas agora voa por aí, escutando os meus silêncios e murmúrios, soletrando as minhas alegrias e tristezas, caiando de sol a falta que ela tanto me faz e fará.
Sei que sou um HOMEM diferente pelo facto de a ter tido por MÃE. Por me ter moldado, ela e meu Pai Joaquim, como ser que anseia por LUZ e muita PAZ.
(…)
Porque, há, de facto, qualquer coisa de Deus na forma como me amaste, Mamã.
Eternamente GRATO.
Tentem passar um Bom Natal.
O meu vai ser o possível.
Em silêncio.
Por Ela.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

O poder do cão - pó, cinzas e ternuras

 

Cru.
Exangue.
Ensanguentado e poeirento como a vida.
Aquela de que se foge mas que nunca foge de nós.
Misturando géneros e estereotipos como o do velho cowboy «macho» ou o da saga de Abel e Caim.
Phil olha para as montanhas como se visse silhuetas de cães raivosos.
Mais ninguém os vê.
Talvez só Bronco Henry.
Que ficou para trás da sua memória e do seu corpo de varão.
Rose desafia a tempestade e casa-se com o infortúnio ao lado de um homem dócil.
E um menino rapaz a caminho da adultícia confessa o indecifrável na primeira fase que abre o filme:
«Quando meu pai faleceu, eu só queria a felicidade da minha mãe. Que tipo de homem eu seria se não ajudasse minha mãe?»
Afinal, o ataque dos cães é inevitável.
Como se a ternura que o cowboy sádico sentia pelo seu amor de ontem fosse o rastilho para a fúria dos inocentes.
(...)
Cru.
Como se fosse veludo ao nosso olhar.
A mesma realizadora de O PIANO, Jane Campion constrói uma obra gigante - cheia de lezírias e trigo loiro - que vai levar o 1º Oscar para as mãos enormes e acres de Benedict Cumberbatch (entre ele e Andrew Garfiled, mon coeur balance!).
Como se fosse em Montana.
Mas afinal é na Nova Zelândia, o país mais ao contrário do nosso. Tanto, mas tanto a lembrar um Paul Thomas Anderson, o mais dos magnólicos poetas da imagem.
Mora este filme na Netflix.
E iluminou hoje a minha noite.
Cheia de sombras e de poeira.
De suor pagão e presságios bíblicos.
Não choveram sapos.
Mas ladraram cães.
Aqueles que só Phil vê.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

De cor

sei de cor a cor que me queres dar
a alvorada que teima em anoitecer no meu canto
a água feliz com que visto as minhas vestes,

de homem em busca da cor do teu espanto...



sexta-feira, 3 de setembro de 2021

The new ABBA (imortais)


 https://www.youtube.com/watch?v=hWGWFa3jznI&list=RDhWGWFa3jznI&start_radio=1

 

 

Volto de novo a eles.
Numa era de trevas e de sustos imensos, a todo nível, é notável como estas mulheres continuam a entoar a mesma emoção que, nos meus 15 anos, senti quando ouvi o Voulez-Vous, na festa de aniversário de uma grande amiga.
Estas duas canções - promessa de um album inteiro a 5.11 - soam a alegria, a esperança e a humanidade.
Os 4 membros da banda histórica e genial, oriunda das mil ilhas da Suécia, estão já na casa dos setenta.
Os mesmos anos nos quais irromperam sem dó nem piedade, desde o fulgurante WATERLOO na Eurovisão de 1974, estávamos nós a começar a respirar liberdade e um E depois do Adeus.
E o sucesso global foi instantâneo - em 15 de março de 2010, os ABBA foram introduzidos no Rock and Roll Hall of Fame pelos membros dos Bee Gees, Barry Gibb e Robin Gibb.
Sou fã confesso.
Dos de 1ª linha.
Dos que tudo conhecem, sobre discografia e letras até.
Primeiro em cassete, depois com vinil e finalmente em CD (já estavam nessa altura separados)
Em casa, os meus pais já nem me conseguiam ouvir.
Sofri com o fim do grupo e temi que nunca mais voltassem.
Apresentei-os aos meus sobrinhos que os devoraram também (e é privilégio de muitos poucos conseguir tocar tantas gerações diferentes e sucessivas).
O génio da dupla de compositores (letrista Bjorn Ulvaeus e músico Benny Andersson) é difícil de replicar (e quem duvidar, ouça CHESS).
Na linha das duplas mais épicas da música contemporânea (a história há-de sempre falar deles).
E eis que afinal voltam, depois de um revivalismo musical que nunca os fez esquecer, embalados pelo meteórico e planetário sucesso do musical e dos filmes MAMMA MIA.
Com este I still have faith in you e um Don´t shut me down, sempre com a mesma sonoridade e força melódica.
O disco vai chamar-se VOYAGE e vai conviver com um concerto com «bonecos digitais», sempre num novo espaço com capacidade para 3000 pessoas no parque olímpico de Londres chamado Abba Arena.
Os avatares digitais de Benny, Agnetha, Anni-Frid e Björn foram criados com a mesma tecnologia de imagens geradas por computador (CGI, na sigla original) usada pelas grandes produções de Hollywood. Uma equipa da Industrial Light & Magic, do criador de Guerra das Estrelas, George Lucas, desenhou e animou as quatro figuras copiadas a partir das versões de carne e osso, não as actuais, mas mais jovens (versão de 1979).
“Estamos a navegar em território virgem. Com a ajuda das pessoas que fomos viajamos para o futuro”, explicou Benny Andersson.
Confesso que me emocionei a voltar a ouvir estas vozes e estas harmonias sem igual.
E voltei aos tempos áureos de Leiria onde só havia quimeras e sonhos bons, águas frescas e muita saudade do futuro.
E voltei à sala da Ana Paula onde ouvi pela 1ª vez o Voulez-Vous ou o As good as new...
Para sempre, como se não fossem, afinal, só cantigas.
Porque não são...

sábado, 19 de junho de 2021

O vento foi um pássaro

O vento foi um pássaro e fugiu para fora de si mesmo quando os homens o quiseram capturar. Deixou de ter corpo, fez ninho nas nuvens e viaja com elas para pousar quando se cansa. É por isso que o vento canta. 

 


Mia Couto

terça-feira, 18 de maio de 2021

Um licor da Dinamarca

UM LICOR DA DINAMARCA
Não tenho o hábito de beber, nem sequer socialmente.
Gosto demasiado da minha sobriedade para procurar alívio ou escape em formas de adormecimento e desinibição mais do que artificiais.
E fui, pois, ver este DRUK com a curiosidade cinéfila de perceber se era um fenómeno de moda aquele que premiou variadíssimas vezes esta obra este ano.
O seu realizador é por mim respeitado desde A FESTA e A CAÇA, sempre com este actor maior do que a vida (Mads Mikkelsen).
O país - a linda Dinamarca - é só um dos mais causticados pelo flagelo do alcoolismo.
Ou devo dizer pelo consumo excessivo de álcool? Onde acaba um e começa o outro?
Interessante esta reflexão filosófica e sociológica sobre esta realidade que todos os anos mata MUITA gente.
E não o poetizemos, com alusões a Bukowski ou Millor Fernandes.
O álcool mata. Ponto final.
Vemos aqui as suas diversas fases - melancolia, iniciação, planalto, ascensão, euforia e queda.
E parte-se da peregrina tese de que o ser humano devia nascer com uma pequena quantidade de álcool no sangue e que a embriaguez moderada abre as mentes para o mundo ao nosso redor, diminuindo os problemas e aumentando a criatividade. Se Hemingway foi um génio literato, se Churchill foi um génio político, vencedor de Nobel, e eles bebiam muito mesmo, porque não beber para replicar esse génio? Esquecem, claro, que o génio já existia antes do álcool...
Mas este filme não é só sobre o álcool e o seu nefasto efeito na nossa vida normalizada e melancólica. É a reflexão sobre o poder de controlo ou descontrolo que escolhemos ter sobre essa mesma vida. E aí a fita é sublime em contenção interior e, paradoxalmente, em efervescência etílica, própria do aparato que qualquer bebida espirituosa provoca no ser humano, mesmo que se diga que se bebe pouco.
É, pois, necessário ver esta película (que tem um dos mais belos términos que este ano vi na tela).
E como alguém já escreveu: «A "vexata quaestio" não é o efeito do álcool no comportamento do ser humano, mas o excesso e o abuso do mesmo, por um lado e, por outro, a capacidade para resistir à atracção fatal do redemoinho do vício. Há um ponto de equilíbrio? Certamente que sim, mas é tão diminuto, tão frágil, que o tremendo esforço a que obriga para alguém lá se manter é digno dum funâmbulo profissional. O deslize dali para a desgraça é tão fácil quanto previsível».
Dá vontade de concordar com aqueles que opinam que é absurdo dizer, conforme a linguagem popular, que alguém se esconde na bebida, quando é certo e sabido que, pelo contrário, a maioria esconde-se na sobriedade.
Sobretudo num país como o nosso com altíssimos índices de consumo de álcool, também e sobretudo junto das camadas mais jovens (vivo numa cidade de praxes e de excessos, claro).
Bebei mas, por favor, não vos multiplicais (fala alguém que muito ajuizou em tribunais de Crianças)...
Não percam.

 

quarta-feira, 12 de maio de 2021

O último poema de um PAI

Há um homem perdido dentro da sua mente.
Como se fosse um puzzle, com entradas e saídas temporais, portas que se fecham, rostos que não se repetem, nomes que não fazem sentido.
Num apartamento de classe média alta, jaz um ancião, de nome Anthony (curiosamente, o mesmo nome do enorme ACTOR que lhe dá corpo e alma, e que até tem a mesma exacta idade – nascidos ambos a 31 de Dezembro de 1937), sem conhecer as pessoas que consigo se cruzam, numa enredada teia de loucura e desatino própria de quem está doente e perdendo as coordenadas geográficas e mentais de toda uma vida.
Engenheiro de profissão, diz-se agora bailarino, a arte que teria preferido à dos cimentos e pedras cortantes. Porque, afinal, é no fim da vida, quando se perde a razão, que os nossos verdadeiros anseios e amores (e ódios) acabam por se revelar. A verdade não gosta da realidade. Muito mais da ilusão e da perda de tino.
Vive, afinal, com a filha Anne (que vemos na pele de Olívia Colman, uma tardia actriz que todos os anos nos maravilha, aqui a viver o mesmo nome da sua rainha do Oscar, película de Yorgos Lanthimos), num apartamento que pensa ser seu e que não quer, a todo o custo, abandonar.
Homens e mulheres estranhos sucedem-se no hall de entrada, as suas cuidadoras não resistem ao seu mau feitio e tudo cai por cima de uma filha que sofre com aquele desatino de um Pai que, a tudo e a todos, vai gritando ao mundo que sempre preferiu uma outra filha, entretanto falecida, àquela que dele cuida com enlevo e generosidade.
Custa ver o definhar de alguém, o cair das folhas de um Ser Humano, a baba e ranho acesos por uma degenerescência mental, o canto de cisne de um homem que ouve Callas todos os dias (e o excerto de Casta Diva é magnífico) e que já nem sequer distingue a voz da filha da da enfermeira do lar onde afinal o acabam por colocar.
E é magnífica a realização de Florian Zeller, que também assina o argumento, ao lado do Oscarizado Christopher Hampton, nascido no Faial, nos nossos Açores (o de Ligações Perigosas, Carrington e Expiação, e que se apresta para assinar o argumento fílmico do Sunset Boulevard que vai dar o 1º OSCAR à «minha» Glenn Close).
Tudo começou por uma peça. E a atmosfera do filme é teatral a todo o gás e a toda a trama. Vemos a casa, o espaço, o tempo, as pessoas sempre pelos olhos de Anthony num exercício empático que quase nos leva à loucura visual e auditiva.
Zeller descreve o seu filme “como uma espécie de suspense, convidando o público a construir a narrativa, como eu fiz no teatro. Eu queria que o público se sentisse próximo aos personagens.” Na adaptação de sua própria peça, ele aponta que “o cinema e o teatro nos lembram que somos parte de algo maior que nós mesmos. Apesar das qualidades labirínticas do original, há uma sensação de alegria na peça que eu queria manter no filme.”
Hopkins mereceu o OSCAR por este retrato, aquele que já lhe devia ter sido também entregue por DESPOJOS DO DIA, em 1993/1994 – perfeito, irrepreensível, de uma tocante vulnerabilidade, própria de quem não faz já de si próprio, saindo mesmo da sua pele (o que Frances MacDormand nunca faz em NOMADLAND e que, por isso, para mim, torna injusto este Oscar de 2021, muito mais justo nas mãos de Carey Mulligan).
“Faço isto há muito, sei alguns truques...”, ri-se o actor. Que adoptou o absurdo como lema. “O nascermos é a grande blague”.
*
É uma peça, um filme sobre a demência.
E, por ele, sou chamado para outra informação que recebi recentemente.
Um adolescente começa a ler um poema de Rudyard Kipling, rompendo o silêncio numa sala cheia de idosos: "se puder manter a calma/quando todos à tua volta já a perderam", quando um deles, doente de Alzheimer completa com um murmúrio: "você será um homem, meu filho!".
Para combater a perda de memória que afecta 800 mil pessoas no Reino Unido, instituições especializadas e hospitais começaram a recorrer à poesia, a mais absurda de todas as artes e a mais sublime de todas as verdades alternativas da vida.
A melodia e o ritmo de versos conhecidos conseguem bater na porta da memória, servem de detonador que activa a palavra e as lembranças.
Quando os pacientes "escutam uma palavra que conseguem lembrar de um poema, eles ganham o dia", contou Elaine Gibbs, directora do lar para idosos Hylands, que abriga 19 idosos em Stratford-upon-Avon, terra natal de William Shakespeare, região central da Inglaterra.
Com os cabelos grisalhos presos e vestido florido, Miriam Cowley ouve com atenção uma jovem que lê o poema "À Margarida", de William Wordsworth, um clássico nas escolas britânicas.
"Sabia o poema, mas tinha esquecido. Aprendi quando era menina", lembrou esta antiga professora, que sofre com a perda de memória recente. "Terei belos sonhos, sonhos tranquilizadores, de margaridas e árvores", comemorou.
E nós com ela.
Os poemas salvam-nos sempre.
Afinal, o Anthony não chegou a perder as suas folhas, a sua árvore permanece de pé mesmo que só veja ninfas em vez de frangos, ventos em vez de carros, luas em vez de luzes.
Foi uma noite forte.
Mas voltei com o Anthony comigo para casa.
E pensei, serenamente, no meu Joaquim e no meu Luís Manuel.
A alquimia do Cinema faz disto – o distante torna-se perto, a dor alheia é tida como nossa.
Até à redenção e ao genérico final…
E à próxima cantata de Einaudi (que também assina a partitura musical, a par de Nomadland)...


sábado, 1 de maio de 2021

Diz-me a verdade...

Conta-se que o dono de um pequeno comércio, amigo do grande poeta Olavo Bilac, abordou o escritor na rua e lhe pediu:

Sr.Bilac, estou precisando vender o meu sítio, aquele que o senhor conhece tão bem. Poderia redigir um anúncio para o jornal?

Olavo Bilac, muito solícito, apanhou um papel e escreveu:

"Vende-se encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer no extenso arvoredo, cortada por cristalinas e marejantes águas de um ribeirão.
A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda".

Meses depois, o poeta topa com o homem e pergunta-lhe se havia conseguido vender o sítio.
Nem pensei mais nisso, disse o amigo.
Quando li o anúncio é que percebi a maravilha que tinha!



domingo, 25 de abril de 2021

Romanceiro

Romanceiro

*

Sou louco por letras.
Amanso a minha ira com os ditongos de Tolstoi.
Mastigo pós de brilhar com as histórias de Allan Poe.
Durmo ao som dos sonhos de Mia.
Rasgo a minha cólera com as fúrias de Agustina.
E embarco pelas ruas de Zafon, à hora certa dos relógios de Praga.
Baralho os tempos e as esquinas de Agatha.
Adiciono a espuma dos meus dias à turbulência de Faulkner
e vejo as sombras de Vian
no ombro esquivo de Yourcenar.
Quando Pessoa me tirou o sono
as letras molharam-se
por não saberem, afinal,
quem dos seus mil rostos falava assim.
As notas de rodapé embriagaram-me
com a água pé de Proust
e a amêndoa amarga de Cervantes,
o dos insanos moinhos em saga atroz.

As tramas matam os estilos.
Os poemas sabem a prosa.
As linhas cortam as frases
E o teu piano namora a minha voz.

Li.
E nunca mais fiquei só.

(PG), 2021



terça-feira, 20 de abril de 2021

Boa noite, tristeza

Dificilmente encontraria melhor motivo para quebrar o jejum de cinema em sala, após meses de confinamento forçado, do que a visualização do filme de Chloé Zhao, NOMADLAND, o mais que merecido Oscarizado filme do ano.
Para mim, ver Cinema é ir à sala e deixar a televisão em paz.
Mesmo que numa sala com apenas 5 ou 6 companheiros de aventura numa tarde de Coimbra.
Éramos seis na sala.
Os bastantes.
Os suficientes.
Deixei o meu sofá entregue aos ácaros e saí para, quase em tom de gala, assistir à projecção de um filme numa sala que me é querida, aqui em Coimbra.
Saudei a menina dos bilhetes, minha eterna cúmplice neste ritual quase sagrado, e entrei pelo breu dentro.
E ouvi Einaudi a assaltar a sala escura e ávida de gente.
Confesso que ia expectante e com a ideia pré-concebida de que este filme seria mais um documentário do que uma obra fílmica.
Errei.
Redondamente.
Não é só um road-movie este «Nomadland».
É um filme que SÓ PODE ser visto em grande écran.
E é mais do que isso.
Venderam-me como uma adaptação do livro de 2017 da escritora e jornalista Jessica Bruder e reflecte, em 2011, o impacto da crise financeira de 2008, retratando cidadãos norte-americanos desfavorecidos que viajam pelo Oeste do país e que vivem de empregos temporários.
Mas este não é um filme comum, tão atípico se veste.
Não é um filme de despedidas mas de eternos reencontros, entre gente nómada, que decide viver assim às fatias, sem poiso certo, considerando que a nossa casa, o nosso lar, reside onde está o nosso coração, sem argamassa ou tijolo.
Entre a Dakota do Sul, o Nebraska, o Arizona, Nevada e a Califórnia, o nosso mapa acende-se ao som do piano de Einaudi, penetrando em mundos tão desconhecidos e quase inóspitos.
Ali não há chão, há muitos chãos, há poeira e mil pós de estrelas que caem todos os dias nas nossas mãos.
Ali temos reais nómadas, a fazer de actores e actrizes, a fazer dos seus próprios papéis de vida como se fosse muito mais fácil assim.
É tão mais difícil fazer de nós, acreditem.
E eles e elas fazem de si próprios, encontrando trabalhos temporários e mal pagos só para subsistirem, verbalizando que lhes basta ter visto uma família de alces à beira rio ou um conjunto de pelicanos perdidos no Alaska, não esperando nada mais da vida.
Não têm planos.
Apenas a falta deles.
Vão-se reencontrando, depois de lutos e lutas insanas contra o tempo ou a falta dele, filhos a pais que não querem sedentarizar no lar perfeito e imobilizante, irmãs que se amam mas que se querem apartar.
E há Frances MacDormand, Fren, de sua graça no filme.
É superlativa neste registo, em contenção (pouco própria do seu feitio algo histriónico) e profundidade dramática (embora continue a apostar na vitória da minha musa Carey Mulligan, na noite de 25 de Abril).
O seu retrato em frente a um velho cinema de aldeia onde passa o filme «The Avengers» é antológico e contraditoriamente perfeito.
Tudo ali lhe lembra o marido recém-falecido, ele que nunca quis sair do mesmo local e sempre acreditou que à vida apenas bastava uma casinha branca e uma cerca de trigo loiro.
E Fren sai à procura de si.
Dos seus silêncios.
Das suas ausências.
Das suas lonjuras.
De uma América cem vezes perdida e mil vezes encontrada.
As paisagens da alma de Fren sabem ao gelo e à neve do Colorado e ao calor do Arkansas.
Já alguém quis ver no filme uma viagem rumo ao "pesadelo americano" vivenciado pelos invisíveis sem voz, vítimas dos múltiplos atropelos do capitalismo.
Não me interessam as razões para estas partidas.
O que me afectou na fita de Zao foi a imensa tristeza que me causou.
De uma tristeza que se quer sentir.
Com a maior das alegrias.
Como a cor das quedas de água, das andorinhas andarilhas, dos bisontes cegos de medo.
No fundo, a América, ou seja qual for a nossa casa, é muito mais a paisagem agreste das montanhas e dos vales, o choro da criança que anseia por ser mimada pelos pais, o mar que toca nas rochas como se se tratasse de um solo de violino, o Sol que amanhece pela fresta da barraca, do que a argamassa, o tijolo e a materialidade de que nos querem vestir.
No fundo, abraçar a crença de que pela estrada, por trás das montanhas, haverá sempre um vislumbre de novidade e futuro, muito futuro, mesmo que sem direito a pujança financeira e sucesso social.
Ouve-se por ali:
“One of the things I love most about this life is that there’s no final goodbye. I’ve met lot of people out here and we don’t ever say a final goodbye. We just say ‘I’ll see you down the road’. And I do… I see them again.”
Swankie, uma nómada real e erigida a actriz, diz a certa altura:
"I think I’ve had a pretty good life. How many people can say that?"
É verdade - vemo-nos por aí.
Para todos os que escolheram partir.
Para sempre ou só até ao próximo encontro terreno.
*
Assim vale a pena fazer Cinema.
Assim vale a pena viver para ver isto.
Uma tristeza que faz bem.
Como se, por hora e meia, a pandemia desaparecesse e, no seu lugar, só me aparecessem poeiras, águias rainhas e escarpas montanhosas por trás do Sol poente, marcas de um Deus Maior que a todos ama mesmo sem ser por todos amado.


sábado, 17 de abril de 2021

Bom dia, tristeza...

 


Bruscamente em Janeiro passado...

É a hora das cotovias.

E dos segr


edos.

Esta doença mata.

Mesmo.

Matou o meu colega de Curso António.

Matou uma minha vizinha de metros.

Matou mil e um desconhecidos que nunca pensaram que uma gripe pudesse ser assim letal.

Por causa dela andamos há uma no e pico a respirar por máscaras de pano por toda a face, andamos a afogar-nos em todos os tactos com soluções de álcool, andamos a descansar os apertos das mãos que já não se dão.

A madrugada é anunciada por números negros.

Chegou a peste aos solavancos nesta paleta de vendavais e de dias de sol como o de hoje onde, aparentemente, nada poderá ser doentio.

Sentem-se os toques das medusas, das andrómedas e dos morcegos e já não se cantam as avé-marias, porque as bocas estão presas por outras luvas e porque os mortos são levados à terra sem hinos ou elegias

Dizem que a final vai tudo ficar bem, que as andorinhas vão regressar de locais inauditos onde aprenderam a canção das primaveras, um nome mais próprio para os próximos verões malditos

Já não sei da minha rua, já só sei da janela do meu quarto onde os dias fogem às noites e as noites se molham de dia

Quando chegou a moléstia, nada deixaria adivinhar o que por aí vinha – a própria Saúde andava confusa com tanta comunicação contraditória e indecisa.

Mas chegou por um ano de dois vintes, onde nada foi igual ao passado e onde até se duvidava do futuro.

Por muito cuidados tidos, o vírus chegou a casa de muita gente.

Também à minha, num Janeiro doloroso.

Só me pegou a mim.

Ao de leve.

Quase como uma gripe frágil e escondida.

Mas temi por mim e pelos meus.

Desesperei enquanto não soube que a minha mãe, doente de risco, estava escalada para a vacina, protestei, lutei…

Cumpri as quarentenas, retemperei o fôlego de novos ânimos, espantei a angústia e a melancolia e fui salvo pelo Cinema e pela boa TV.

São sempre as Streisand e os Bogart que me salvam, não há nada a fazer.

Webinei às toneladas, desesperei com tantos microfones, ansiei por mil olhos presenciais e não só digitais e continuei sempre a trabalhar pela formação de magistrados em Portugal, tantas vezes à distância, mas sempre com o coração certo e a porta dele sempre aberta.

E temo ainda por tudo aquilo que por aí ainda virá.

Que mundo é este que entrego nas mãos dos meus amados 13 sobrinhos, ao sabor de uma partícula ínfima como o pó e que nos é capaz de matar?

Que esperar da impaciência de tanta gente que, confinada há meses, grita por uma réstia de ar livre, mesmo que sob a ameaça de uma coima?

Inconsciências vi muitas, sobretudo nas esplanadas da Praça da República nesta Coimbra.

Intolerâncias senti muitas, entre aqueles que teimam em teimar e em negar o óbvio – o bicho mata, sem apelo nem agravo, e não nos pergunta nem faz em nós o contraditório.

Ufano, como se cumprisse uma promessa, uma espécie de adeus, hoje levanto o alçapão do meu medo e grito bem alto, para lá das quarentenas:

- a falta que me fazem os meus!

 

*

Cuidem-se.

Não ouçam os loucos que se pensam sãos e que incitam as gentes ao impensável e ao insano.

Não temam o que a Ciência tem para nos oferecer.

Os riscos são tão mais elevados.

Que o diga o António.

Que o diga o Daniel.

Que o diga a Maria de Sousa.

Que o diga o meu Luís Sepúlveda.

Que o diga a Maria José Valério

Que o dia a Cecília de Guimarães.

Que o dia a Adelaide João.

Que o dia a cidadã x da minha rua de baixo.

Que o digam os 16 937 cidadãos portugueses que já morreram sem hinos, salmos ou dignas exéquias.

 

Sobrevivi a isto.

Está - quase – tudo na nossa mão.

 

Meu caro Daniel Sampaio, long life, e fico à espera de o ler…



 

 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Diz-me a verdade a mentir



É oficial.
Só me mente quem eu quero.
Só me traz más novas quem eu escolho.
É assim que vou vogando pela casa grande da Alice, sem esperar tristeza que me vergue ou júbilo que me desassossegue.
Cá por perto, o branco coelho vigia as minhas horas e os meus famintos olhos e por aí, pelas esquinas dos caminhos, becos, ruelas, ruas e avenidas, as notícias tombam como papel pardo sob chuva oblíqua.
Leio as que quero.
Rasgo as que me magoam.
Não é sempre assim que se escolhem as epifanias?
Nem só acredito no que vejo.
Mas vejo tanto em que não queria acreditar.
E misturo os pincéis da realidade com o véu etéreo do poema em que me revejo e que insiste em não me deixar.
Dizem-me que as crianças são reis nesta peça de frémitos crescidos.
Contam-me que há magos que enlouqueceram no brilho da luz boreal que os cega.
Sussurram-me que vamos sair melhores e mais inteiros destes tempos de cólera.
Segredam-me que os bons ventos irão calar o peso das ogivas.
Gritam-me, com o mais doce dos olhares, que deixará de haver perigo nos afagos dos adultos.
*
É por isso que hoje, dizem, é o dia das mentiras.
As que se podem dizer.
Mesmo que com o melhor tom da nossa voz verdadeira.
As que cabem na palma da nossa vontade de largar tudo e voltar para a cidadela de Alice, ao encontro da flauta do louco Chapeleiro, esse que nunca deixou de viver dentro de mim.
Fujo da verdade?
Talvez.
Mas não é a verdade a mais pura das mentiras?

 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

2021