quarta-feira, 23 de abril de 2008

Amor, sem trégua nem egoísmo.





«- Caguei-me - repetiu, e desta vez desfez-se em lágrimas.
(...)
- Não digas às crianças - pediu, a olhar-me da cama com o olho que ainda via.
- Não digo a ninguém - tranquilizei-o. - Direi que está a descansar.
- Não digas à Claire.
- Não digo a ninguém. não se preocupe com isso. Podia ter acontecido a qualquer pessoa. Esqueça o assunto e descanse o mais que puder.
Corri as persanas para obscurecer o quarto, saí e fechei a porta.
(...)
Voltei em bicos de pés ao quarto onde ele dormia, ainda a respirar, ainda vivo, ainda comigo - mais um revés desencadeado por aquele homem que eu conhecera interminavelmente como meu pai. Senti-me péssimo por causa da sua heróica e vã luta para se limpar antes de eu chegar à casa de banho, e da vergonha inerente, e da desgraça que ele próprio se considerava. No entanto, agora que terminara e o meu pai dormia profundamente, pensei que não podia ter pedido nada mais para mim próprio antes de ele morrer: isto também estava certo e era assim que devia ser.
Limpamos a merda do nosso pai porque ela tem de ser limpa, mas na esteira desse limpar tudo quanto nos resta para sentir é sentido como nunca antes foi. Também não era a primeira vez que compreendia isto: depois de contornarmos a repugnância, ignorarmos a náusea e mergulharmos para além dessas fobias fortificadas como tabus resta uma tremenda quantidade de vida para acarinharmos.
(...)
Agora que o trabalho estava feito, não poderia ser mais claro para mim o motivo por que isto estava certo e como devia ser. O património era, então, isso. E não porque limpar a porcaria fosse simbólico de qualquer outra coisa, porque não era; antes por não ser nada menos nem nada mais do que a realidade vivida que era.»

O mais sentido e emocionante trecho do Livro de Philip Roth "Património"

9 comentários:

César Paulo Salema disse...

Escolheste o trecho que mais amei no livro que há meses vos aconselhei a ler.
Obrigado pela sintonia, Carmen.

Passiflora Maré disse...

Estamos cá para isso.
Um Bj.

Armando S. Sousa disse...

Philip Roth, para mim o melhor escritor vivo.

Um mestre das palavras, apesar de o livro "Património", ser uma das obras menos conseguidas dele.

Um beijo.

Passiflora Maré disse...

Armando não posso concordar contigo. Este livro é de uma imensa ternura e dedicação. E as palavras são magistralemnte usadas, para chegar ao mais profundo dos sentimentos. O Imenso amor que um filho tem pelo seu pai moribundo, preso no seu corpo que já só é sofrimento.

Armando S. Sousa disse...

D.
O livro é tudo isso que dizes, aliás como te disse um dia destes de viva voz.
No entanto quando lês a obra do Philip Roth,que é muito autobiográfica, vês que este livro, é apenas mais um, e não uma das obras fundamentais dele.
Não li todos os livros do Philip Roth, mas dos que li os que mais gostei foram, A mancha humana, Pastoral americana, teatro Sabath.
Deixei para o fim um livro que também gostei muito, que é Conspiração contra a América. Deixei-o para o fim, porque o Phil Roth também mostra extrema ternura pelo pai neste livro, mas o pai, na altura que se desenrola a história, é um homem de acção.
O livro Animal moribundo, foi o pior que li dele.
Falta-me ler o Todo o mundo, que está ali há meses, em lista de espera.
Uma beijola

Anónimo disse...

Gostei tanto Maré!
Um bj
F.S.

Guilherme Salem disse...

Gostei Maré....também já li o livro.
Mais uma o Roth..(tal como a Yourcenar)....que é sempre uma boa escolha, além de inteligente. Bjs Carmen

Anónimo disse...

O AMOR no seu estado mais puro e cru...
BRAVOOOOOOO, Maré. O texto é do ROTH mas a escolha foi sua e revela-a.
Um beijo. E já agora folgo em saber que "you are back in Town"!

Anónimo disse...

Assim que me foi dado começar a sentir o perfume desta Magnólia, fiquei curiosa e li o livro, num sábado, num empréstimo da Alm.(E) e este trecho foi, também, o que mais me impressionou - acho que violenta o pudor ( do pai e de nós, leitores) e faz-nos sentir "um soco cá dentro", mas é também a demonstração máxima do grande e talvez máximo amor ( e que eu também acho que é aquele que une pais e filhos).
Boa escolha.
Bj.
C. (EN).