quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Uma PENa!


Morreu ARTHUR PENN.

Realizador de um dos filmes da minha vida - QUATRO AMIGOS.

Mais conhecido pelo BONNIE AND CLYDE que encenava de uma forma provocadora para os códigos do cinema (e não só) da época a vida aventurosa do famoso casal de assaltantes de bancos Bonnie Parker e Clyde Barrow, que no início da década de 30 sobressaltou a sociedade americana.


“O Pequeno Grande Homem” (1970), com Dustin Hoffman; “Duelo de Gigantes” (1976), com Marlon Brando e Jack Nickolson, são dois westerns realizados a seguir e que reflectiram sobre o fim deste género que marcara o cinema clássico americano.

Para além de ter realizado três dezenas de filmes, Arthur Penn, nascido em Filadélfia, em 1922, foi também encenador de teatro e produtor de cinema e de televisão.


Recorda-se ainda o seu papel como conselheiro de John F. Kennedy na preparação do debate deste com Richard Nixon, em 1960, que iria marcar não só o curso da candidatura presidencial na América, como do próprio país.

O segredo dos teus olhos


Ouve-se assim este filme...


Sei de uma parábola nova que revejo nos teus olhos, sempre que os miro e os decifro.
sei de uma nova canção que me vem de dentro, sempre que me olhas de relance, sempre que me dói a sombra de tanto te amar.
sei de uma nova história de amor, sem nomes, sem cantos, sem lume,
que me embala os dias e me sufoca as noites,
pronta a enfeitar-me as varandas da minha saudade,
aquelas em que me debruço, sem medo, sem rede, sem toque, sem mácula...

sei de um novo rosto
que me desnuda, me desflora, me emociona,
e parto para a noite como passageiro dos dias, sem bilhete de corpo inteiro,
apenas com a marca da saudade que me deixas,
sempre que reinventas um novo nome para ti mesma...

Segunda pele

Procuro incessantemente este filme.

E não o encontro em lado algum.

Vem de Espanha. Fala de amor alternativo. De desejo do mesmo género.

De emoção e de actores em estado de graça.

Ouço esta música todos os dias. Porque sim. Porque seria a banda sonora da Magnólia, se eu soubesse colocar música neste local de alma

Quem o tem? Onde o encontro?

Como colocar a música logo que se entre neste canto?

Coimbra no centro do Mundo

Como?



No popular se diz: 'Esse menino não pára quieto, parece que tem bicho-carpinteiro'
A minha grande dúvida na infância...
Mas que bicho é esse que é carpinteiro, um bicho pode ser carpinteiro???
Correcto: 'Esse menino não pára quieto, parece que tem bicho no corpo inteiro'
Está aí a resposta para o meu dilema de infância!


Batatinha quando nasce, esparrama pelo chão.'
Enquanto o correto é: ' Batatinha quando nasce, espalha a rama pelo chão.'
De facto, se a batata é uma raiz, ou seja, nasce enterrada, como ela se esparrama pelo chão se ela está por baixo dele?

'Cor de burro quando foge.'
O correcto é: 'Corro de burro quando foge!'
Mas o burro muda de cor quando foge??? De que cor ele fica??? Porque é que ele muda de cor???

Outro que no popular toda a gente erra:'Quem tem boca vai a Roma.'
Bom, esse eu entendia, de um modo errado, mas entendia! Pensava que quem sabia comunicar ia a qualquer lugar!
Contudo, o correcto é: 'Quem tem boca vaia Roma.' (isso mesmo, do verbo vaiar).

Outro que todo o mundo diz errado,
'Cuspido e escarrado' - quando alguém quer dizer que é muito parecido com outra pessoa.
O correcto é: 'Esculpido em Carrara.' (Carrara é um tipo de mármore)

Mais um famoso.... 'Quem não tem cão, caça com gato.'
Entendia também, errado, mas entendia! Se não tem um cão para ajudar na caça o gato ajuda! Tudo bem que o gato só faz o que quer, mas confia-se que o bicho estará de bom humor!
O correcto é:"Quem não tem cão, caça como gato".... ou seja, sozinho!'

Vale o que vale. O que é muito...

Chegam cedo de mais


Chegam cedo de mais, quando ainda não podem escolher
nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias
e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança
da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez


quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo
incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os
trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e
falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade.


Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los
da dor como aos filhos que não iremos ter nunca
porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão


culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem
cartas mais tarde – uma ou duas palavras para se aliviarem dessa espada.
E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem.



maria do rosário pedreira
a casa e o cheiro os livros
gótica
2002

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Sala dos Capelos


Descobri na blogosfera este blogue muito interessante sobre histórias antigas de professores universitários, de uma Coimbra de outras eras e de alunos mais ou menos dotados.
É gerido pelo Antero, um santo do meu altar...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A pergunta dos seus olhos




Ontem à noite voltei a ter uma epifania.

Vi, pela 1ª vez, O SEGREDO DOS SEUS OLHOS, uma película argentina de 2009.
E rejubilei...


Oscilando entre o presente em que Benjamín recorda e o passado em que procura resolver quem violou e matou uma jovem na sua própria casa, Juan José Campanella constrói um elaborado quebra-cabeças onde a história se desenrola em três tabuleiros simultâneos.
O mistério policial clássico com laivos de film noir, com o investigador no papel do "incorruptível" desencantado metido em cavalarias demasiado altas, desdobra-se ao mesmo tempo no melodrama de amores desencontrados que dá ao filme o seu centro emocional, e nas discretas alusões políticas que lhe dão um aroma simultaneamente histórico e claustrofóbico.
Os acontecimentos de um nível reflectem-se nos outros de modos distintos mas constantes, com Campanella a não fazer mais do que uma adequadíssima gestão dos vários níveis em função do que a história lhe pede e do que o espectador precisa de saber.
A sonata que se vai ouvindo povoa o filme de interrogações e de emoção, o que que vai enriquecendo a trama deste homem e desta mulher em busca de uma revelação - a do crime e dos seus sentimentos.
Porque há perguntas que só se fazem sem verbalizações, há respostas que se encontram sem ser nas palavras solteiras e gastas, logo, enganadoras...
Uma SURPRESA MUITO AGRADÁVEL, justamente galardoada com o OSCAR do Melhor filme estrangeiro do ano que passou.


domingo, 26 de setembro de 2010

A Cinderela fez 11 anos

Num destes dias, ela fez 11 primaveras. Verão como vai ser grande!
Para a sua sombra, comprei chaves de segurança para que nada lhe faça mal.
E estarei sempre a seu lado, para que os invernos não lhe toquem e para que os outonos só lhe dêem folhas vivas!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Nossa Senhora de Praga





Um obrigado à H. pelas belas fotos de uma cidade encantada.
E um abraço ao N. que ali se cultiva para ser feliz!



quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A minha Alexandria





E o tempo é tão escasso...




Voto de silêncio

video

Manequim


Fiz-te à medida da minha solidão
(je t’ai faite à la taille de ma solitude)


Paul Éluard

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Falso testemunho


Bill e Sam, dois amigos entrados na terceira idade, encontravam-se no parque todos os dias para alimentar os pássaros, observar os esquilos e discutir os problemas mundiais.
Um dia, Bill não apareceu.
Sam pensou que ele poderia estar constipado ou coisa semelhante.
Entretanto, Bill não apareceu nos dias e semanas seguintes.
Sam ficou preocupado.
Como eles se conheciam somente do parque, Sam não tinha a menor ideia onde Bill morava e ficou impossibilitado de saber o que de facto lhe tinha acontecido.
Passado um mês, Sam estava chateado pois ficou a pensar na última vez que tinha visto Bill.
Mas, indo ao parque como de costume, lá estava sentado Bill no lugar habitual!
Sam ficou felicíssimo e se aproximou de Bill.
- "Então, Bill, o que aconteceu consigo?"
Bill respondeu:
- 'Estive na cadeia.'
- 'Cadeia?' gritou Sam. 'E por que motivo?'
Bill disse:
- "Você conhece a Vanessa, aquela garota loira e deliciosa da padaria onde eu vou de vez em quando?"
- "Claro que me lembro dela", disse Sam. "E daí?"
- 'Bem, um dia ela foi à Policia e denunciou-me por estupro.
E eu, com os meus 89 anos de idade, fui todo feliz para o Tribunal e considerei-me "Culpado"...
O cabrão do Juiz sentenciou-me a 30 dias por falso testemunho!!!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Entre o Lis e o Lena




Espelho meu, espelho meu, há alguém mais falso do que eu?


I'm Still Here, o suposto documentário sobre um actor desalinhado em "reinvenção criativa" já está nos cinemas dos Estados Unidos. Ontem, o seu realizador confirmou as suspeitas: é afinal uma ficção em registo de documentário. E assim se discute porque gostamos tanto de celebridades, da sua pretensa realidade e do género "mockumentary"
O mágico revelou o seu truque e a verdade está cá fora. Uma semana depois da estreia de I'm Still Here nas salas americanas e no dia em que o filme se estreou no Reino Unido, Casey Affleck revelou-se: o seu filme é mesmo um mockumentary, Joaquin Phoenix estava mesmo a criar com o cunhado realizador uma peça de performance art sobre um actor decadente que queria ser rapper. Retrato de uma cultura obcecada pelas celebridades, piada pouco private sobre os bastidores de Hollywood, atestado de uma cómica malaise século XXI.
"Nunca tive a intenção de enganar alguém. A ideia de um ‘engodo' nunca me passou pela cabeça", diz Affleck ao New York Times. Mas fez, como disse sexta-feira ao jornal, um exemplo de "cinema gonzo", o estilo inaugurado pela mescla de factos e ficção e uma pitada de subversão de Hunter S. Thompson. A ideia era documentar a queda de uma estrela, o seu desligamento da realidade, os ares de superioridade face aos outros, o Hades da celebridade. Uma das inspirações do realizador foi, adequadamente, Inferno, de Dante Alighieri. E frisa que Phoenix tem aqui "uma actuação extraordinária, a actuação da sua carreira".
Alguns críticos de cinema foram enganados, ainda que profusamente elogiosos quanto ao filme que viram, primeiro no Festival de Veneza, depois em Toronto e depois em visionamentos nos EUA: Roger Ebert, no Chicago Sun-Times, sentiu que o filme era "um documentário triste e doloroso cuja finalidade é pouco mais do que pregar mais um prego no caixão" de uma estrela perdida; Owen Gleiberman, da Entertainment Weekly, achou o "documentário fascinante e assustador", "uma peça artística de verité exploitation" que dava uma resposta "triste" à pergunta que muitos faziam desde 2008, quando Phoenix começou esta história no talk-show de David Letterman. Gleiberman retractava-se ontem no site da revista semanal, escrevendo em título sobre Phoenix: "Talvez ele seja um actor tão formidável quanto Brando."

Desde a conversa com Letterman - quando Phoenix não parecia o mesmo que foi nomeado para o Óscar de Melhor Actor em Walk The Line (2005) e em que deveria promover o seu filme mais recente, Two Lovers - que se perdia em silêncios. De aspecto desalinhado, anunciava a vontade de ser estrela de hip-hop. E especulava-se: o que teria acontecido ao filho de hippies baptizado como Leaf Phoenix, irmão do falecido actor River e da mulher de Casey Affleck, Rain? Depois, Affleck anunciava que ia documentar essa "reinvenção criativa" de Phoenix.

"Um dos grandes temas da nossa cultura é a ideia de celebridade e vê-las na sua ascensão e queda", explica Robert J. Thompson, do Centro Bleier para a Cultura Popular da Universidade de Syracuse. "Numa altura em que Lindsay Lohan é breaking news em todos os canais quando vai a tribunal, faz sentido que actores e realizadores queiram explorar isto. E o mockumentary é uma forma esteticamente adequada. É uma ideia natural. O facto de terem feito este filme diz-nos que há uma série de coisas interessantes a passar-se naquele mundo de Hollywood, faz-nos pensar na mistura entre realidade e não-realidade."

Até ontem, continuavam as perguntas. I'm Still Here é uma performance? Os vídeos no YouTube de pretensas actuações de Phoenix como rapper que acabavam mal eram parte disso? Affleck dizia, há semanas: "Não é um engodo."


Em Veneza, na conferência de imprensa que acompanhou a estreia do filme, foi parco nas palavras, estratégia que explicou ontem no New York Times. A ideia era "criar um espaço" em que se "acredita que o que está a acontecer é real". No festival, em que Phoenix apareceu já de barba feita e ar solar, Affleck falou da inspiração que foi Gus Van Sant (foi seu actor no deambulante Gerry) e negou que o seu "documentário" fosse um embuste.

Para Robert J. Thompson, a premissa apresentada para o filme era "plausível". Viu em directo a prestação inaugural de Phoenix frente a David Letterman e pensou, tal como o argumentista de humor João Quadros, que o P2 ouviu sobre o caso em Agosto, "que havia ali algo muito suspeito". "Se estivesse a ver aquilo em 1975 teria acreditado", diz o professor. Mas os tempos são outros. Ainda assim, o especialista em cultura popular considera que quem acreditou que I'm Still Here era um documentário não é "um papalvo". "Quantos actores vimos já a passar por isto? É todo um género [televisivo], os Behind the Music (Vh1), os E! True Hollywood Story (canal de cabo E!)..."

No fundo, esta é a altura certa para I'm Still Here. Vivemos numa época em que a obsessão pelas celebridades e o fascínio pela sua suposta "vida real" que passa nas televisões (seja em programas por eles produzidos, de "apanhados" ou de famosos em festas e passadeiras vermelhas) se juntam à ideia de acesso a tudo e todos, alimentada pelas câmaras e Internet omnipresentes. E depois há as séries de televisão que há uma década vêm a alimentar o regresso do mockumentary, de O Escritório ou Parks and Recreation ao mais recente e multi-premiado Uma Família Muito Moderna.


Desfeito o enigma, confirmadas algumas das mais escabrosas expectativas sobre o conteúdo do filme (em que sim, há sexo drogas e star system), Affleck confessa que uma das suas expectativas foi gorada. "Não pensei que a questão ‘real ou não' existisse depois de o filme ter sido visto na íntegra." De I'm Still Here, só uma imagem é "real": um pedaço de um filme feito com os irmãos Phoenix a actuar na rua em Los Angeles. Um outro suposto filme de família foi encenado. Takes e mais takes e uma imagem envelhecida graças a gravações sucessivas numa cassette VHS em que originalmente morava Paris, Texas.

O filme, que ainda não teve comprador para Portugal e por isso não tem data de estreia mas estará disponível em vídeo-on-demand na web a partir de dia 24, é então um pacote de que todos fazemos parte graças à globalização. "Andy Kaufman trabalhava na televisão, mas toda a obra dele transcendeu as fronteiras do meio. O filme [I'm Still Here] é apenas uma peça disto, houve Letterman e todas as reacções ao que foi posto no YouTube, a reacção ao filme quando ele saiu, mesmo a entrevista ao New York Times fazem parte disto", opina Thompson. Um capítulo, talvez o último: Phoenix estará quarta-feira, novamente, no Late Night With David Letterman. As himself.


UMA HISTÓRIA DE FAZ-DE-CONTA FABULOSA.

COMO SÓ O CINEMA, ESSE ETERNO E MARAVILHOSO INTRUJÃO, CONTA...

domingo, 19 de setembro de 2010

Alice


No outro dia, comprei (mais) uma Alice no País das Maravilhas.

Quando pedi para embrulhar o livro para oferta, a livreira perguntou: é para adulto ou para criança? Devolvi a pergunta com outra: quantos livros permitem esta dúvida, além da Alice?

Não imagino alguém perguntar se Os Maias ou o Sexus são um presente para adulto ou para criança.
Nem a questionar se O Pêndulo de Foucault ou as Memórias de Adriano deverão ser embrulhados com um papel repleto de ursos, balões ou rebuçados. Ou a colocar a hipótese de A República, O Estrangeiro, A Faca não corta o fogo, A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer ou o Tractatus Logico-Philosophicus serem oferecidos a uma criança.

Apesar desta Alice ser para um adulto, apeteceu-me responder que era para uma criança, como se o leitor tivesse as duas idades. E fosse crescendo ou diminuindo, conforme o lado do cogumelo trincado.


MJF

Onde anda você?


E por falar em saudade onde anda você
Onde andam seus olhos que a gente não vê
Onde anda esse corpo
Que me deixou louco de tanto prazer
E por falar em beleza onde anda a canção
Que se ouvia na noite dos bares de então
Onde a gente ficava,onde a gente se amava
Em total solidão
Hoje eu saio da noite vazia
Numa boémia sem razão de ser
Na rotina dos bares,que apesar dos pesares
Me trazem você
E por falar em paixão, em razão de viver
Você bem que podia me aparecer
Nesses mesmos lugares, na noite, nos bares
Onde anda você?

Vinicius de Moraes



Katie Melua já não vem a este canto este ano.
Só em Março de 2011.
Lá estarei... a escutar as cantatas desta bendita cigarra!

Eu sou o amor


Se Visconti fosse vivo, poderia ter assinado este filme italiano de 2009.


Tilda Swinton é sublime num filme gloriosamente operático que reinventa o melodrama clássico e a saga familiar para um tempo em que eles já não existem
Atente-se na "chave" que dá título a este grandíssimo filme: Maria Callas, ela própria, interpretando a ária da "Mamma Morta" de Giordano, na banda-sonora do "Filadélfia" de Jonathan Demme, que Tilda Swinton vê uma noite na cama à beira de adormecer, antes de o marido chegar e mudar de canal sem sequer lhe perguntar o que está a ver. A frase que Callas canta é "Io sono l'amore" - "eu sou o amor" - e é nesse momento em que o marido a ignora como mera presença utilitária que a divina, gloriosa Tilda toma perfeita consciência do seu papel na poderosa família milanesa.
Ela é a verdadeira "mamma morta" (aliás, mais tarde, alguém lhe dirá "tu não existes"), até o amor lhe cair do céu, numa noite de Inverno, na pessoa de um visitante inesperado que nem sequer fica para tomar café.
É complicado explicar o que se passa em "Eu Sou o Amor" sem correr o risco de menorizar a terceira ficção de Luca Guadagnino, porque o que eleva o filme ao estatuto de obra-prima é a abordagem operática, virtuosa, formalista, estilizada, hiper-romântica e pós-modernista com que o cineasta siciliano encara o melodrama clássico e a saga familiar, o modo como ele instala no classicismo do género um corpo estranho através de Tilda Swinton.
Vamos, ainda assim, tentar: conhecemos os Recchi, poderosa família industrial milanesa, à volta da mesa do jantar de aniversário do patriarca, que acaba de decidir deixar o negócio de família ao filho e ao neto. Nesse jantar que respira um travo de passado glorioso, de aristocracia fora-de-tempo, percebemos também o papel que as mulheres nele desempenham: Rori, a matriarca, fiel guardiã da tradição familiar; Betta, a neta, de temperamento artístico, que começa a sentir-se limitada pelas expectativas da família; e Emma, a mulher do filho, a anfitriã perfeita, uma mulher discreta que aceitou representar o papel que lhe foi distribuído. Mas que, muito rapidamente, compreendemos que não lhe chega.
Emma é, evidentemente, Tilda Swinton, e a sua presença introduz o pauzinho na engrenagem da saga familiar; é um "corpo estranho" - não apenas pela sua personagem ser uma "intrusa" que, aceite pela família, nunca se sentiu inteiramente parte dela, mas também porque a presença física da actriz, pálida, alta, observadora, cria um contraste, lança um desequilíbrio, introduz uma nota de dissonância no conforto luxuoso que a rodeia. Esse contraste é depois amplificado pelas cenas de exteriores rurais onde se desenrola o "affaire" de Emma, de uma sensualidade exacerbada que se opõe à rigidez estruturada do palacete dos Recchi. Guadagnino mantém essa emoção a borbulhar subterraneamente durante todo o filme (sabiamente sublinhada pela música do compositor minimal John Adams), para apenas a deixar sair em momentos judiciosamente escolhidos, como uma panela de pressão que já quase não consegue aguentar a tensão.
É inevitável pensarmos em mestre Visconti (há um travo de "O Leopardo" a passar por aqui, um fôlego de grande ópera italiana) ou em mestre Sirk (a transcendência da história banal através da encenação arrebatada e gloriosa), mas o que é notável em "Eu Sou o Amor" é que Guadagnino consegue marcar a distância dos mestres, criar o seu próprio modo de os actualizar e modernizar, sem medo de correr riscos e sem se retrair para não parecer ambicioso.
Fá-lo com a preciosa ajuda da divina Tilda, a comprovar como é uma das maiores actrizes contemporâneas, e de um elenco impecável onde encontramos o actor e encenador Pippo Delbono e os veteranos Gabriele Ferzetti e Marisa Berenson (é impossível não recordar "Morte em Veneza"...), como quem sublinha que a estrutura rígida do melodrama exige o tal corpo estranho para rebentar por todos os lados e construir algo de novo que se insere numa tradição e a reinventa sem pruridos.
"Eu Sou o Amor" é uma obra-prima.
(JM)
Há muito tempo que o cinema não me fazia sentir assim...

sábado, 18 de setembro de 2010

Apelação ou agravo?


Após a presença de sucessivas de Duarte Lima, Carlos Queiroz, Carlos Cruz e novamente Carlos Queiroz a perorarem as suas teses argumentativas junto de Judite de Sousa, os partidos com assento parlamentar decidiram alterar o equilíbrio de poderes na próxima revisão constitucional e dotar a Justiça portuguesa de mais uma instância de recurso: a RTP.
Assim, entre a condenação em tribunal de 2ª instância e o recurso ao tribunal de 3ª instância, os arguidos poderão recorrer ao novo tribunal de 2,5ª instância, presidido pelo colectivo de juízes formado pela meritíssima jornalista conselheira Judite de Sousa e pela excelsíssima meritíssima jornalista conselheira Fátima Campos Ferreira.

De maneira a que a equidade judicial fique assegurada, todos os portugueses que não tenham direito a recorrerem ao tribunal de 2,5ª instância, por manifesta falta de notoriedade, poderão sempre recorrer aos fóruns da TSF e da SIC Notícias ou ao espaço reservado às cartas dos leitores no "Correio da Manhã".

Fica ainda decidido que, caso os arguidos não concordem com a maneira como os seus casos foram tratados na RTP, terão sempre direito a recorrerem a instâncias europeias, nomeadamente a BBC e a Eurosport.


Vítor Elias

Meu pé de água lima

Li isto.


… tomar agua en la hora correcta maximiza su efectividad en el cuerpo humano?


2 vasos de agua después de despertar ayuda a activar los órganos internos.
1 vaso de agua 30 minutos antes de comer ayuda a la digestión.
1 vaso de agua antes de bañarse ayuda a bajar la presión sanguínea.
1 vaso de agua antes de irse a dormir evita apoplejías o ataques al corazón.
Ó água que corres por mim, não te afastes!

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Quase outonal


Porque neste quase início de Outono sabe-nos bem lembrar a essência do Homem: a Liberdade de escolher outros caminhos e porque são caminhos e não destinos, a Felicidade e a Paz.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Faz inverno no meu recanto, meu irmão amado

«Winter» dos U2 ouve-se no fim da fita «Brothers» de Jim Sheridan.

E placidamente vejo o teu rosto.

Para nunca mais me largar!

Mais um violino para madredeus



“Vai placidamente no meio do barulho e da confusão, lembrando-te de quanta paz existe no silêncio"

Francisco Ribeiro (in memoriam)

O crime compensa

O Google celebra Agatha Christie...
Em boa hora!

sábado, 11 de setembro de 2010

Tela


Se eu fosse pintor passava a minha vida a pintar o pôr do sol à beira-mar.
Fazia cem telas, todas variadas, com tintas novas e imprevistas. É um espectáculo extraordinário.
Há-os em farfalhos, com largas pinceladas verdes.
Há-os trágicos, quando as nuvens tomam todo o horizonte com ar de ameaça, e outros doirados e verdes, com o crescente fino da lua no alto e do lado oposto a montanha enegrecida e compacta. Tardes violetas, neste ar tão carregado de salitre que torna a boca pegajosa e amarga, e o mar violeta e doirado a molhar a areia e os alicerces dos velhos fortes abandonados...
Um poente desgrenhado, com nuvens negras lá no fundo, e uma luz sinistra. Ventania. Estratos monstruosos correm do norte.
Sobre o mar fica um laivo esquecido que bóia nas águas-e não quer morrer...


Raul Brandão- Os pescadores- Pequenas Notas
recolhido em aguarelas de turner - aguarelast.blogspot.com/

9-11




As mãos que edificaram torres babélicas
são as mesmas que as deitaram abaixo como castelos de cartas.

São estes os sinais dos tempos: a essência humana é capaz do melhor e do pior!
A tempo de recordar o "9 eleven".



Venha agora o «pastor» e destrua tudo - e não há quem o cale, por amor de Alá e de Deus?

Também quero distribuir lambadas...


A minha cidade foi abalada, como é raro na memória, por um crime brutal, esta semana. Houve sangue, a jorrar da jugular, tentativas várias de simulação, armas do crime guardadas em casa porque ninguém quer ficar com o faqueiro incompleto, confissões e a habitual demanda pela desejada inimputabilidade. Tudo certo. Ou melhor, nada certo. Mas é a vida. E a vida passa a vida a mostrar coisas que não estão certas. E tenho pena. Muita. Mas... enfim... Os códigos existem para ser aplicados e há que dar serventia ao de penal, que até é um semi-novo e tudo. Agora... e o que é que se faz a quem dá a notícia, falada, escrita, tudo, com a preciosa e indispensável indicação de que o principal suspeito é o filho ADOPTIVO da vítima?!

Hã?! O que é que se faz?!

Liga-se para as televisões e jornais e dá-se uma aula de adopção, com especial ênfase nos efeitos da adopção plena?! Tira-se o dia para explicar a toda a gente que também há filhos biológicos que matam os pais, mulheres que matam maridos, maridos que matam mulheres, irmãos que se dão tiros, enteados que se põem a degolar gente da nova família?! Não... a sério... expliquem-me o que é que se faz?! Porque eu não sei!!! Juro! Imprimem-se flyers com a menção "O adoptado é teu filho!" e afixam-se nos postes da EDP?! Expliquem-me! É que a mim só me apetece mandar um berro e distribuir lambada!!!


Lido em «Por aqui passei eu...» da R.


Eu sublinho e subscrevo!

Porque queremos continuar a falar delas...







Sessão de lançamento da obra
"Estudos de Homenagem a Rui Epifânio"
O evento terá lugar no próximo dia 17 de Setembro na Biblioteca Almeida Garrett do Palácio de Cristal no Porto, pelas 18:00.
A apresentação da obra ficará a cargo de Armando Leandro, Maria Joana Marques Vidal e Maria João Leote de Carvalho

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Tempus fugit

O relógio não tem tempo. O tempo é que precisa dele...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O pós 3 de Setembro de 2010


... e os meninos voltaram a sorrir e a querer brincar à luz do dia, sem medo do afago dos adultos...



Mas nós vamo-nos mantendo vigilantes, ok?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Café central


Estampa-se o sol em delicados raios sobre o mármore branco e liso...
Tão bela é a vista que o Verão pinta na floreira da minha varanda.
Castanho da terra e o verde das plantas unem-se.
A água que tenho no copo, fresca, brilha,
E eu aqui sentada, sozinha na varanda da minha vida,
só penso como, em vez do copo de água, me apetecia um precioso café,
mesmo que fosse num café de um qualquer subúrbio ...


R.T.A. («Tenho nome de flor»), setembro de 2010

Recomeço



Quando as aves partirem com o oiro do novo tempo,
sossegarei a minha inquietude nas águas da nascente de um Outono febril,
perto do solstício do imponderável...

Caminhadas



A Calantha esteve mais de 30 anos sem o mar, num tanque do Aquário Vasco da Gama, em Lisboa.
Desde que foi devolvida ao oceano, no ano passado, esta tartaruga nadou 10.600 quilómetros, em linha recta, e conseguiu atravessar o Atlântico, numa das maiores migrações conhecidas.


Quem anda devagar, quem anda?!

À espera de Setembro


CAFÉ DE SUBÚRBIO (14)

Já não há mármore na mesa,
Onde o poeta ou o pintor
Esboce um verso, um traço de beleza:
Dê um sinal de si, se for.

Lembro os perfis desses clientes,
Debruçados no espelho do tampo claro e liso,
Como se vissem aflorar, em águas doentes,
Ainda impreciso, um rosto de Narciso.

E o lápis vagueava, a imaginar o rumo
Da voz que só em nós se sente e escuta,
A expandir-se da névoa, entre névoas de fumo,
No crispado da escrita, na lânguida voluta.

Eles, rostos de boémia, o chapéu desabado.
Na xícara, o café a arrefecer da espera.
E o mármore feliz de se ver violado!
E um frémito, em redor, da Primavera!

Acabados o café e a inspiração,
Lançavam para ali o cobre da despesa.
Logo vinha o criado (era criado, então!),
Arrecadava o cobre e, sem hesitação,
Limpava todo o oiro do mármore da mesa.

António Manuel Couto Viana
(1923 – 2010)
As escadas não têm degraus, nº4
(Cotovia, 1991)