domingo, 31 de maio de 2009

À espera do poema


Apesar da ignorância da rota desses navios
que descem o tejo, da mulher que nos subúrbios
os vê passar tão rente à sua mágoa,
da moça tímida espiando o mundo
da janela que em breve o escuro virá selar,

ficam bem os sinos esvoaçando sobre a tarde
de inverno em que buscas a justa palavra
e não vê deus a tua aflição: o que cala,
o que finge, o que mente — agreste destino
que te cabe, tingido pelo clarão da dúvida.

Mas ficam bem, ficam bem as meretrizes
de rápido volteio, as matronas alvoroçando-se
para o chá, o aplicado médio funcionário
calculando o produto interno bruto, o amoroso
pagando diária corveia de soluços, os altos
dignitários recebendo honras e tributos.

Sobretudo fica bem a mulher gorda espremendo-se
num ginásio desfeita em suor e penitência.
Mas também ficam bem o contrafactor vigiado
pela lei, o usurário de sebo nos fundilhos,
o proxeneta de olhar felino e os desabrigados
desta rua (embora sobre eles caia o duro
gume do inverno, deles é o reino dos céus).

Ficam bem os poetas pobres que padecem
todo dia a fome da beleza, os críticos
impotentes ficam muito bem, os pretos desta praça
que são alegres e passam bem, o cívico
que ganha o dia de olho no parquímetro
fica bem apesar dos amáveis impropérios.

Ficam ainda bem os canídeos que defecam
nos passeios e as madames que os trazem
pelas trelas sempre prontas a pregar civilidades
a esses que falam alto e têm modos estrangeiros.
Mas que fiquem bem as raparigas de cabeças ocas
que têm como único tesouro a juventude
para que não seja a lamentação
o tributo dos vindouros dias.

Só eu não fico bem, senhor meu,
que aguardo toda a tarde pelo poema
que não vem, embora navios subam
o tejo aulindo através do nevoeiro.
Mas tudo está bem quando é o deus
quem assim o quer.

(JOSÉ LUÍS TAVARES, poeta caboverdiano,in Agreste Matéria Mundo, 2004)

sábado, 30 de maio de 2009

Os filhos da erva


Filhos da erva
Passam os anos.
Por sobre nós
Sombras de ar irão amar-nos
Ventos para os nossos amigos
Os castanhos e amarelos
Do Outono as nossas cores
Agora na aurora da nossa vida.
Façamos jura
e nunca crescer
Os nossos espíritos têm de ser no encontro
Mais audaciosos do que nunca.
Todo o saber
Antigo das florestas e dos trilhos
Ajudar-nos-á:
Guardaremos o elo
E o selo e nunca sentiremos
A mínima mágoa

EZRA POUND (1885 - 1972) - Fim do Tormento / O Livro de Hilda - seguido de 4 poemas de H.D.(tradução de Filipe Jano)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Sopra um vento quente


Este silencio,
blanco, ilimitado,
este silencio
del mar tranquilo, inmóvil,

que de pronto
rompen los leves caracoles
por un impulso de la brisa,

Se extiende acaso
de la tarde a la noche, se remansa
tal vez por la arenilla
de fuego,

la infinita
playa desierta,
de manera

que no acaba,
quizás,
este silencio,

nunca?


Eliseo Diego (Cuba)

Gente e Espaços sem sorrisos
















Hellas...também as há...

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O sorriso das estrelas

domingo, 24 de maio de 2009

Tourada



Quem é o touro?
E quem é o cavaleiro?
Eu sei, mas não digo!

Horror


Não vou colocar aqui os links que vos permitiriam ver o que vi.

Armei-me em forte e dono de estômago de avestruz e visionei o video da execução/decapitação do jornalista americano Daniel Pearl. Além desse, vi mais 3 videos de decapitações (feitas com facas, o que demora um pouco) de outros refens...masoquismo meu ? lição: por muito fortes que nos achemos há limites para a nossa sensibilidade e sanidade.....acho que foi do pior que alguma vez presenciei..prefiro assistir a autópsias, onde sempre há respeito pelo corpo e pela pessoa que foi.

Só escrevo para afugentar as imagens horriveis daquelas gargantas a serem cortadas, dos gritos, dos estertores e do sangue a jorrar.

Um conselho: nunca queiram ver isso. Imaginem, será sempre melhor que a realidade.

Nem sei que foto aqui ponha. Nenhuma? ou qualquer coisa ? qualquer coisa que seja viva e segura....como o mar (segura no sentido de perene)

sábado, 23 de maio de 2009

Peixeirada


César...tu, Mestre destas coisas, vê lá se consegues colocar aqui, tirando do YouTube, a verdadeira e vergonhosa peixeirada do Jornal da Noite da TVI entre a MMG e o M.P. Bastonário.

É de antologia. Dificilmente se assisitirá a algo igual nos próximos tempos.

Viva a Vida







Toca a viver, seja lá como for (dentro da legalidade, claro)...um beijo e abraço a todos e obrigado.



A vida, tal como a poesia, já dizia a poetisa, mastiga-se e come-se.



Boa digestão. Beijos e Abraços (cheios de jarros para enfeitar qualquer espaço)

Quarto de Lua

Minha estrela polar
poeira de luz
espirro de nuvem
solstício do meu esquecimento
Não sei por onde andas,
perdida entre os átomos da paciência
e da lonjura que se faz perto.
Procura-me,
encontra-me entre as nebulosas do sétimo céu
e não digas de onde vens -
não mates o meu espanto,
não limites o meu espectro,
não arranques o veludo
de que é feita a distância que - ainda - existe entre nós...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Assim vimos e assim nos vamos
















Despojados, Despudorados, Amorais, Livres...assim entramos e saimos da vida...alguns conseguem viver sempre assim...abençoados (registo uma morte na familia...já não bastava o J.B.da Costa...a morte chegou mais perto). Desculpem a mensagem....ate logo

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Chegou hoje à cidade de Deus






João Bénard da Costa deixou-nos hoje.
Foi ver o último filme de Tarantino noutra dimensão, sem pipocas ou serpentinas.
Deus lhe saberá dar um tempo extra e um sofá confortável para que ele continue a ver cinema grátis...
Para sempre!

A baía do adeus


Porque graças a ti descobri
(dirás que já era tempo
e com razão)
que o amor é uma baía linda e generosa
que se ilumina e se escurece
conforme venha a vida

uma baía onde os barcos
chegam e vão embora

chegam com pássaros e augúrios
e vão embora com sereias e neblinas
uma baía linda e generosa
onde os barcos chegam
e vão embora
mas tu
por favor
não vás embora.



Mario Benedetti (Uruguai - morto o poeta aos 88 anos, no dia 17 deste mês)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Alergias


Estou quase erradicado do blog....tanta planta, tanta flor...bonitas, mas cheias de polen...e eu que, agora nesta idade, desenvolvi uma alergia aos polens...tenho passado horrores (garganta, olhos, nariz e, por vezes, a própria respiração).
Olhei o blogue e tive um ataque...a Passi não tem culpa...mas fiquei em cuidado..não consigo respirar no meio de tanta planta e flor....um beijinho Passi...

domingo, 17 de maio de 2009

No sorriso louco das mães


No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batemos dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.

Gotas e candeias puras.

E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e orgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.

E bate-lhes nas caras, o amor leve.

O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo.
São silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,em volta das candeias.
No contínuo escorrer dos filhos.
(...)

Helberto Helder

sábado, 16 de maio de 2009

Climatis


Para todos os que faltam nomear, o Armando, a Alfazema, a R., a Princesa Pat, a Eu, a Anabela, o Clap, a Avó Pirueta, a Elsa, o Pé.


Ceanothus thyrsiflorus repens

Para o Augusto, por serem azuis e de Maio.

Os Jarros

Para o Jonas

O Jasmin

Para o César

A rosa e os botões da rosa


Para a zézinha e meninos.

Os belos novelos






Para os amigos Paula e Zé Manel, como prometido.

Para a Cris com o aroma ambicionado por Margens do Douro


Deixo-vos com as caneleiras ou Miquélias.
O meu jardim parece um laboratório de essencias para perfumes.


Como, por razões óbvias, não posso deixar-vos sentir o aroma,
aqui fica a sua definição no feminino e no masculino.

Definição feminina

Imagine-se o aroma de um limão meio maduro meio verde,
com casca fina e rija. Misture-se um pouco de aroma de pau
de canela trazida do oriente pelas primeiras naus portuguesas.
Estando a mistura neste ponto, junte-se um pouco de sal
e essência de homem quando a mulher o deseja.
Deixe-se ficar tomando o sol de uma tarde de fim de primavera,
quando se instala a solidão.
E quando se desejar meter o nariz no meio das flores,
o perfume acontece.


Definição masculina


Imagine-se o aroma de uma laranja verde com casca luzidia,
tão fina, como a pele de uma mulher jovem.
Misture-se com os aromas de umas quantas bagas de vinha virgem,
um pouco de gelo e três gotas de Moscatel do Douro Superior.
Quando tiver imaginado este aroma,
junte-se um pouco do aroma de mel de urze selvagem.
Deixe-se ficar tomando o calor tórrido do primeiro beijo
entre um homem e uma mulher apaixonados.
Quando se desejar comer essas flores, o perfume está lá.


Publicado pela primeira vez há cerca de um ano.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

A porta

O desejo.
A solidão.

Os que partem


Cada vez são mais os que partem, longe ou perto de nós....
Tentemos não os esquecer.

A festa de Babette II


Ainda que nem sempre consigamos percebê-lo, a vida sorri-nos de formas diferentes:
para uns, a fartura nunca chega a ser suficiente,
para outros, o MUITO POUCO (quase nada!) é motivo de alegria e partilha.
Estas imagens são a prova de que não sabemos valorizar o IMENSO que temos e que não aproveitamos e, muito menos, dividimos.
Vejam por favor:

quinta-feira, 14 de maio de 2009

O Maestro


Trazemos connosco o passado como um cometa arrasta a sua cauda. Naquele tem­po, eu lia o Livro do Desassossego e encontrava nele o mapa da minha cidade in­terior. Percorria as suas palavras lúcidas e tristes, cismava naquelas verdades que parecem mentiras, contemplava esse grande estilo frio e penumbro­so, aceso só para dentro, que me é tão real como um sonho.
Via no patrão Vasques o símbolo da banalidade útil da vida. Fazia dos meus dias a escrita meticulosa de uma contabilidade da alma e an­dava pela Rua dos Douradores - onde também há universo! - como se fosse sempre o estrangeiro que todos, por vezes, nos sentimos.
Até os res­taurantes económicos e sombrios, onde apenas se pode estar bem sozinho, me pareciam os únicos lugares do mundo, além das ruas desertas onde os passos ecoam, dignos de um destino metafís1co.
Num desses restaurantes, conheci um homem que aí jantava e tinha no sorriso com que saudava a minha entrada na sala o último vestígio de uma anti­ga e quase esquecida proximidade humana.
Esse sorriso, que começou por cessar a meio da sua escas­sez, foi, com o tempo, dilatando-se, até se tornar claro e oferecido. Numa noite de chuva, o homem, sentado na mesa próxima da minha, dirigiu-me uma palavra e eu notei que até a longínqua indife­rença dos astros se havia alterado. Tempo passado, deixou cair uma frase e o meu espanto viu-se como uma cor.
Até que, num entardecer doce de primave­ra, mais queirosiano que pessoano, se aproximou de mim, disse que morava perto e convidou-me pa­ra um concerto em sua casa.
Como o sabia solitá­rio, imaginei-o solista de um qualquer instrumento e acedi a acompanhá-lo. Mas, em breve, seria escla­recido sobre a sua arte. Entrámos em casa e sen­tou-me num sofá gasto. Feliz por ter a assistência que todas as noites lhe faltava, pegou numa batuta, dispôs a partitura sobre a estante e começou a diri­gir, com gestos intensos, uma orquestra imaginária que tocava a Quinta Sinfonia de Mahler.
Quando chegou o adagietto, o seu êxtase esteve à altura do som pungente que saía do gira-discos onde rodava, na .sua monotonia circular, um disco com a versão daquela sinfonia dirigida por Abbado.
Percebi en­tão que, todas as noites, ele dirigia, daquela manei­ra singular, uma grande obra, convencido, como tantos outros que pensam criar o que já está criado, de que assim prestava um alto serviço à cultura. Na véspera, confessou-me, tinha regido Il Trovatore, da Callas e do Karajan. E acrescentou com orgulho: «Correu-me muito bem!»
O concerto a que assisti também foi magnífi­co. Quando me despedi, pensei: ao contrário do homem da minha primeira crónica, que, no café, apagava as palavras que escrevia, sem que delas tenha sobrado sequer uma, este, com a sua direc­ção imaginária, lega ao futuro uma obra que perdu­rará - vasta, sólida e gloriosa.
Um, tudo criou e nada deixou; o outro, tudo deixa sem nada criar.
Dos dois, qual é, afinal, o mais prevenido?

José Manuel dos Santos – coluna Impressão Digital – in Expresso de 14.10.06

terça-feira, 12 de maio de 2009

Mais noite que a noite


SENTIMENTO DO MUNDO


Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos, minhas lembranças escorrem
e o corpo transige na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram que havia uma guerra
e era necessário trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso, anterior a fronteiras,
humildemente vos peço que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho desfiando a recordação do sineiro,
da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer

mais noite que a noite.

sábado, 9 de maio de 2009

Euronews

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(foi no PORTO em 2008)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Resposta a Guilherme e a Eva



Porque aqui não grita.
Encanta.
Por ser desse mar
e ser hoje o dia do seu natal...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Ao acaso

Tal e qual...ao acaso e sem qualquer sentido ou pensamento pre-definido.