quinta-feira, 31 de março de 2011

Degraus na terra

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

                     Herberto Helder

quarta-feira, 30 de março de 2011

Gente e mais gente

Gente estranha, gente calma, gente que quebra a alma. Gente triste, gente contente, gente igual e tão diferente. Gente grande, gente especial, gente tão conhecida e tão banal. Gente alegre, gente parecida, gente tão amarga ou tão sofrida. Gente que ri, gente que chora, gente que corre e nunca demora. Gente que aprende, gente que ensina, gente que é homem e gente que é menina. Gente livre, gente morta, gente que se esquiva e anda à solta. Gente da rua, gente da vida, gente que foge rumo à saída. Gente que engana, gente que mente, gente que é feliz e finge que sente. Gente que é força, gente que é vitória, gente do mundo e gente de glória. Gente que é gente, gente de raiz, gente que escreve e ama o que diz. Gente que é grito, gente que é avesso, gente que é mito de gente com preço. Gente de caverna, gente lampião, gente que é luz na escuridão. É esta gente que faz a Viagem, gente que chega, gente que fica e gente que parte para outra paragem. Gente que fica para sempre no coração da gente.

Gente



O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
Comsã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
Que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente



 

ANA HATHERLY

Um Calculador de Improbabilidades

(2001)




terça-feira, 29 de março de 2011

Lugar 2

Lugar 2 - Nesse lugar, viajava um homem em bilhete de ida e volta, por entre as brumas da memória que há muito tempo lhe faltou.
Caminhava entre espectros de gente, ufana e solitária, errante e soturna, marcada e negra como o breu de que vestia os seus dias
Estava à espera do metro, a um centímetro de si, a um milímetro da felicidade,
porque quem espera não alcança,
quem desespera sempre tomba
quem tropeça quer cair...
Estava, assim, vazio de espanto, passageiro da noite da sua angústia,
Tricotando a manhã que tardava em chegar,
mais perto do sorriso que só ela lhe sabia dar...
E, nesse momento, salvei-me!

Lugar 1


«Lugar 1 – nesse lugar havia uma mulher que não queria ter filhos de seu ventre. Pedia aos homens que lhe trouxessem os filhos de suas mulheres para educá-los numa grande casa de um só quarto e de uma só janela; usava um xaile preto junto de seu rosto; tinha uma maneira distante de fazer amor: pelos olhos e pela palavra. Também pelo tempo, pois desde os tempos de sua bisavó, voltar a qualquer época era sempre possível. A mover-se, olhava por vezes com fixidez um sítio o mais belo de sua casa a casa toda porque toda a casa era bela e começava nesse olhar ora o tempo das crianças, ora o tempo dos homens. Mulheres, não havia outra, além dela, nunca ultrapassavam a entrada, que dava para a terra, terra de jardim onde se podiam dar passeios. Os homens ficavam contentes porque ela dizia todas as vezes não és tu que importas, é o seguinte. Certificavam-se, portanto, de que, no momento antes, haviam sido o próximo.» (…)


O Livro das Comunidades

Maria Gabriela Llansol

(Ed. Relógio d’Água)

segunda-feira, 28 de março de 2011

Poema numérico

Há um Oito na minha vida
que se esconde atrás dos meus sete ofícios...

Roubei o número à R.

Teatro

      O actor é a outra face do autor, uma outra fase do amor.

domingo, 27 de março de 2011

Zon

Frases ouvidas ao telefone:

- "A minha mulher não saiu de casa à espera que a viessem montar!"
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- "O senhor tem computador?"
- "Tenho sim...  tá ao fundo da escada!   É o da água ou o da luz?"
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"Boa tarde! Era para activar o meu desqualificador."
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"Bom dia! Eu quero ter o canal sexual em minha casa..."
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 "Era para saber se já tinham motivado a minha tvbox!"
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Uma cliente: "Atão vieram cá montar a minha vizinha de cima e não me montaram a mim porquê ?!"
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"Era só para dar o número do pib para descontar no banco."
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Uma cliente: "Era só para dizer que já me montaram... Aliás, acabaram mesmo agora de me montar, e por acaso fiquei muito satisfeita... fiquei mesmo, o que é foram-se logo embora sem me sintonizar os canais..."
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 "Era só para activar a TVSporting..."
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Uma cliente: "Pois ... realmente montaram-me lá em cima e depois montaram-me em baixo e quanto a isso tudo bem. Só não gostei foi que me riscassem o chão todo!!!"
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"Tenho a Superbox ligada"
_____________________

 
"Queria desistir da playbox"
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Despiste técnico:
Assistente: "Desligue e ligue a powerbox e já deve ficar a funcionar "
Cliente:  "Já fiz e não dá nada !"
Assistente : "Depois de ligar a powerbox, que luzes é que tem acesas ?"
Cliente:  A da sala e a da cozinha, porquê, faz interferência?"

________________
 
Assistência Técnica rede móvel:
- O Sr. quer que eu tire o chispe?
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Olhe, queria saber se já tenho o room service activado.
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Olhe, só liguei para dizer que se alguém me ligar pode deixar mensagem, porque agora vou desligar o telemóvel.
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Não tenho fax, eu quero é que me envie um fax por carta.
_____________________

Menina, queria que o meu número não aparecesse nos retrovisores dos outros telemóveis.
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Cliente: Olhe, queria alterar o meu tarifário para Hamburger Life.
_____________________

 
Cliente: Fiz uma chamada para outra pessoa e tiraram-me dinheiro do telemóvel. Mas então sou eu que pago?
_____________________

 
Assistente: A senhora deverá ligar o número do serviço para ouvir as suas mensagens .
Cliente:  Ligo para esse número e peço para falar com quem?
_____________________

 
[dificuldade em captar rede]
Assistente:   Experimente retirar a antena e voltar a colocá-la.
Cliente: Nem pensar! A antena vem agarrada e depois parto isto tudo...  Dava cabo da minha vida.
_____________________

 
Cliente brasileira: Ponham um sambinha na música de espera!  Estes fados são horriveis!
_____________________

 
Cliente: Queria saber se o meu número está conferencial ou não...
_____________________

 
[indicação de teclado bloqueado e de rede disponível]
Cliente: O meu telemóvel tem um garfo e uma colher no visor...
Assistente: Qual é a marca e o modelo do seu equipamento?
Cliente: É um Inox 510.
_____________________

 
Cliente: Que quer dizer isto... chamadas de emergência?
Assistente: Significa que o telemóvel da senhora não tem rede neste momento
e só pode fazer chamadas de emergência.
Cliente:  Ai, que alívio! Pensei que era para ligar para o Hospital. Estava aflita a pensar quem é que estaria nas emergências.
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Cliente: Estou aqui com um problema no meu telemóvel...
Assistente: Qual é exactamente a situação?
Cliente:  É que não me lembro do ping e o que é pior é que perdi o pum...
_____________________
 

sábado, 26 de março de 2011

responder com a vida...


"Uma pessoa sempre responde com a sua vida inteira às perguntas mais importantes. Não importa o que diz entretanto, com que palavras e argumentos se defende. No fim, no fim de tudo, com os factos da sua vida responde às perguntas que o mundo lhe dirigiu com tanta insistência (...) Quem és tu?... Que querias realmente?... Que sabias realmente?... A que foste fiel ou infiel?... A quê ou a quem mostraste ser corajoso ou cobarde? ... (...) O importante é que no fim, uma pessoa responde com toda a sua vida."

SÁNDOR MÁRAI
"As velas ardem até ao fim"

sexta-feira, 25 de março de 2011

WOODY




Na minha próxima vida, quero viver de trás para frente. 
Começar morto, para despachar logo o assunto.
Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.
Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.
Trabalhar 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo.
E depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí torno-me um bebé inocente até nascer.
Por fim, passo nove meses flutuando num “spa” de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, e depois – “Voilá!” – desapareço num orgasmo.
WOODY ALLEN

quarta-feira, 23 de março de 2011

Liz

Quero lá saber do Socras.
Choro a Liz, a última das divas...
PEACE, Cleópatra!

terça-feira, 22 de março de 2011

Como a qualidade se torna em m---a


Isto já foi uma série boa.

Contudo, as TV´s, como muitos artistas, não sabem sair de palco em grande. Toca a esticar a corda. Estes Walkers estão transformados nuns anormais, tontos e imbecis. Um ex-AA que afugenta os fantasmas nas guerras que os USA vão mantendo, uma mãe hiperactiva e com falta de peso, um filho gay cujo sonho (reprimido) é ser pai (ou mãe) e o não sê-lo torna-o azedo e arrogante. Outro filho que saiu de cena em tempo a pretexto de andar fugido à justiça e de se andar a encontrar. Duas filhas tolas (uma divorciada e uma viúva---o pobre do Rob Lowe teve que morrer para sair daquilo) que se tornaram o maior lugar comum e cliché que qualquer mulher moderna e inteligente devia repudiar. Uma enrolou-se com um artista/modelo de cuecas...a outra com um carpinteiro/modelo de qualquer coisa...ambos com discursos que nem um doutorado em Filosofia tem. Só falta o professor de ténis, o canalizador e o homem da tv cabo. Realmente, viver da fama criada é fácil...dificil é manter a boa fama. Eu desisti de assistir áquele lamentável arrastar de famas antigas. Kill all the Walkers...Now. (Nem hoje dou paz).

O «nosso» Gui


Todos os anos lhe dou os mesmos jarros... Porque para mim é um IRMÃO!
Aqui o reproduzo pois mais uma primavera conheceu o GUI.

O dia nasceu aflito de incómodos:
naquela hora, há muitas luas atrás, no dia seguinte ao primeiro da primavera,
ele nascera sem aviso.
Outrora, uma velha pitonisa dissera a sua mãe:
seria ele unguento na chaga
neve no deserto,
riso no pranto.
E teria tesouras nas mãos,
uma rosa vermelha na fronte
e um desassossego
na ansiedade das horas menos boas que teria de viver.

Chorava com a voz do riso de Charlot
Mordiscava a felicidade por entre os interstícios das boas memórias
e espalhava recados de escárnio e mal dizer
por entre os escolhos da Vida,
por entre os escorpiões mutilados
que lhe picavam a consciência...
Sentia-se desigual entre os seus pares -
é que sempre tinha tesouras em suas mãos
rodeava-se de mar adentro
sofria pelas dores que não sofria
e paria as gargalhadas com que enfeitava as vidas dos outros

Por suas mãos passaram as luzes do mundo,
as neves de Klimanjaro,
os equinócios do Equador,
as touradas reais de Pamplona,
os jardins suspensos da Babilónia,
os palhaços mais encantados de Budapeste,
os chicotes incendiados de um certo Vice,
as alegrias mais sinceras do Limoeiro,
os consentimentos menos audazes de Neptuno,
os odores menos nobres deste povo,
os "viragom" engolidos perto do silêncio do horror,
as cançonetas mais dolentes da Europa,
as conciliações mais cansadas do Bolhão,
as virgínias mais insanas do condado,
as magas das regras ansiolíticas e quejandas,
o disco-sound mais mexido da Ria de Aveiro,
as cores mais negras do etíope,
os feiticeiros mais audazes de Oz,
os sete palmos da terra derradeira,
mil e uma rotas trilhadas com uma fátima esperança (e outras preces menos promissoras),
os desencontros incompreendidos dos Dom Quixotes e das Dulcineias,
o doce paladar da Torre Eiffel,
as amizades cosidas a ponto de ouro...

De repente, embalado pela profecia da velha cega dos búzios,
ele parou.
Olhou em redor,
colheu as magnólias,
desceu do autocarro,
pousou a mala do infortúnio,
desfez os contratos de uma vida,
entregou as becas togadas de um gole só
e jogou a carta fatal...

E rumou ao país das tesouras...

Mil anos, Eduardo, Guilherme, nome sem nome -
passou por nós uma brisa que me recorda que existes:
Assim eu pudesse murmurar ao teu ouvido quando precisas...

segunda-feira, 21 de março de 2011

A minha prima Vera


Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira.

Che Guevara

domingo, 20 de março de 2011

Poema a tantas mãos


Se eu pudesse voar assim, rasando as águas,
pegaria nas minhas asas de vento
e dobraria os cabos dos meus medos,
movido pelas garças do tempo,
porque mais ciosas do meu chão...

Num rodopio sem fim,

lançaria ao rio as mágoas

e esperaria que a maré vaza
as despejasse no lodo dos dias

Levaria em minhas asas sementes de esperança, os sonhos, a força e o desejo de conseguir ser sempre Eu com todos os Outros.
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Voaria.
Simplesmente voava. Vento e mar.
Liberdade, inocência...
Voaria.

Seria ave.
Maior desejo não há.

Pois sendo ave, serena e poderosa
gravaria o teu nome, importal
com as asas feitas penas,
na superfície das águas

E chegaria aonde antes nunca estivera...
Ao mais recôndito canto de mim...
Tocaria a minha alma,
Levemente...
E descobriria que, afinal, também sou Luz...
E voaria...
Voaria entre as aves...

Mas incompleto, rente aos palmos de chão apenas,

sobra-me só a vista aérea em que me debruço, lentamente,

a chorar por não partir.

Maratona de ser homem,

sacudiria os estorvos,

suspenderia a

a inteligência,
e sôfrega, viveria a pulsação dos sentidos,
até à luz, aquela luz imensa
do silêncio de mim...de ti...de nós...

...tocava-te ao de leve
com a minha asa
carregada de ternura
pedia-te desculpa
dizia-te quanto te amei,
amo e amarei...

Porque sou gaivota,
errante, minha, nossa,

Se amo, sou perdoado...

sábado, 19 de março de 2011

Caos

Este post, ao que parece, estava a causar «caos» na magnólia. Vejamos se a comunicação foi restabelecida.

Espuma de barco


Para fazer um barco,
comprei a mais bela tábua de passar a ferro,
...que reforcei com as varetas de um velho guarda-chuva
e envolvi com três toalhas plásticas,
embebidas em cola de madeira.

Depois, lambi os dedos,
fechei os olhos,
e reclinei-me a pensar no mar.

Que as ondas e os caprichos da espuma e do sal,
trazemo-los já dentro de nós,
quando temos a coragem de respirar bem fundo.

Fernando Franco (alguém que também vela pelo sono dos meninos mal amados)

Pai


A ele...

Porque me beijou sempre que eu mais precisava, me deu a mão quando deixei de ter chão...
E agora dava o meu mundo e as minhas palavras sobrantes para lhe conseguir dar um ramo de sons para que ele ainda se fizesse perceber, de viva voz...

Poema por completar


"Se eu pudesse voar assim,
rasando as águas ..."

Manuel Aguiar Pereira


Vamos completar o poema?
Aguardo...
Na véspera do dia deles...

sexta-feira, 18 de março de 2011

à rasca?


Um dia, isto tinha de acontecer. Existe uma geração à rasca? Existe mais do que uma! Certamente! Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos. Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor. Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada. Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação. E éramos (quase) todos felizes. Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou. Foi então que os pais ficaram à rasca. Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado. Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais. São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração. São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar! A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas. Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados. Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional. Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere. Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam. Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras. Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável. Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada. Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio. Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração? Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos! Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós). Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida. E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupam injusta, imerecida e indevidamente?!!! Novos e velhos, todos estamos à rasca. Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.

Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles. A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.

Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço? Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta. Pode ser que nada/ninguém seja assim.

Mia Couto (Que outro poderia ser) - lido no facebook


Obg Passi pelo canal aberto...

quarta-feira, 16 de março de 2011

F.

video

Porque hoje lembrei-me muito dela...

A mão


A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se


O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita


O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende


E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta



ANA HATHERLY
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
(2003)

terça-feira, 15 de março de 2011

Flor


Uma pequena homenagem a quem, hoje, completa mais um aniversário.

Beijinhos e até sempre.

Gui

Bela Flor


Bela flor, longos cabelos,
moça com olhos de sombra,
flor de neve sempre branda,
dentes frios, rubra boca.

Cansado de tanto andar,
chega teu amado agora.
Que o coração se te alegre!
Quem te deu dor vai-se embora.

A água clara que corre,
tal como se vê agora,
assim é que há-de bailar
toda a gente à tua volta.

Canção da América do Sul, Quíchuas
Versão: Herberto Helder.


5 lições


1 - Primeira lição importante - Senhora da limpeza

Durante o meu segundo ano no ensino superior, o nosso professor
deu-nos um teste.

Eu era um aluno consciente e respondi rapidamente a todas as questões
até ler a última:

"Qual é o nome da mulher que faz a limpeza na escola?"

Isto só podia ser uma brincadeira. Eu tinha visto a mulher da limpeza
inúmeras vezes.

Ela era alta, cabelo escuro, à volta dos 50 anos, mas como poderia eu
saber o nome dela?

Eu entreguei o meu teste, deixando em branco a última questão. Mesmo
antes da aula terminar, um dos estudantes perguntou se a última
questão contava para nota.

"Absolutamente," respondeu o professor. "Nas vossas carreiras irão
encontrar muitas pessoas. Todas são significativas. Elas merecem a
vossa atenção e cuidado, mesmo que tudo o que vocês façam seja sorrir
e dizer 'olá'."

Nunca esquecerei aquela lição. Também aprendi que o nome da senhora era
Dorothy.


2. - Segunda lição importante - Boleia na chuva

Uma noite, pelas 11:30 p.m., uma mulher de origem Africana, estava
apeada numa auto-estrada do Alabama , a tentar aguentar uma valente
chuva torrencial. O carro dela tinha avariado e ela precisava
desesperadamente de uma boleia.

Completamente encharcada, ela decidiu fazer stop ao carro que se
aproximava. Um jovem, branco, decidiu ajudá-la, apesar de isto ser uma
atitude corajosa naqueles dias de racismo (década de 60). O homem
levou-a até um lugar seguro, ajudou-a a resolver a sua situação e
arranjou-lhe um táxi.

Ela parecia estar com muita pressa, mas mesmo assim tomou nota da
morada do jovem e agradeceu-lhe.

Uma semana mais tarde batiam à porta do jovem. Para sua surpresa, uma
televisão enorme era-lhe entregue à porta. Um cartão de agradecimento
acompanhava a televisão.
Dizia:

"Muito obrigado por me ajudar na auto-estrada na outra noite. A chuva
não só encharcou a minha roupa, como o meu espírito. Foi então que
você apareceu. Por causa de si consegui chegar ao meu marido antes de
ele falecer. Que Deus o abençoe por me ter ajudado e ter servido
outros de maneira tão altruísta.

Com sinceridade, Mrs. Nat King Cole."


3 - Terceira lição importante - Lembra-te sempre daqueles que servem

Nos dias em que um gelado custava muito menos do que hoje, um
rapazinho de 10 anos entrou no café de um hotel e sentou-se a uma
mesa. Uma empregada de mesa trouxe-lhe um copo de água.

"Quanto custa um gelado de taça?" perguntou o rapazinho.

"Cinquenta cêntimos," respondeu a empregada.

O rapazinho tirou do bolso uma mão cheia de moedas e contou-as.

"Bem, quanto custa um gelado simples?" perguntou ele.

A esta altura já mais pessoas estavam à espera de uma mesa e a
empregada começava a ficar impaciente.

"Trinta e cinco cêntimos," respondeu ela com brusquidão.

O rapazinho contou novamente as suas moedas.

"Vou querer o gelado simples." Respondeu ele.

A empregada trouxe o gelado, colocou a conta encima da mesa, recebeu o
dinheiro do rapazinho e afastou-se.

O rapazinho terminou o seu gelado e foi-se embora.

Quando a empregada foi levantar a mesa começou a chorar. Em cima da
mesa, colocado delicadamente ao lado da conta, estavam 3 moedas de
cinco cêntimos...

Não sei se está a ver, ele não podia comer o gelado cremoso porque
queria ter dinheiro suficiente para deixar uma gorjeta à empregada.


4 - Quarta lição importante - O obstáculo no nosso caminho

Em tempos antigos, um rei mandou colocar um enorme pedregulho num
caminho.. Depois escondeu-se e ficou a ver se alguém retirava a enorme
pedra. Alguns dos comerciantes mais ricos do Rei passaram e
simplesmente se afastaram da pedra, contornando-a. Alguns culpavam em
alta voz o Rei por não manter os caminhos limpos. Mas nenhum fez nada
para afastar a pedra do caminho.

Apareceu então um camponês, carregando um molho de vegetais. Ao
aproximar-se do pedregulho, o camponês colocou o seu fardo no solo e
tentou deslocar a pedra para a berma do caminho. Depois de muito
empurrar, finalmente conseguiu. O camponês voltou a colocar os
vegetais ás costas e só depois reparou num porta-moedas no sitio onde
antes estivera a enorme pedra.

O porta-moedas continha muitas moedas de ouro e uma nota a explicar
que o ouro era para aquele que retirasse a pedra do caminho. O
camponês aprendeu aquilo que muitos de nós nunca compreendem!

Cada obstáculo apresenta uma oportunidade para melhorar a nossa situação.


5 - Quinta lição importante - Dar quando conta

Muitos anos atrás, quando eu trabalhava como voluntário num hospital,
conheci uma pequena menina chamada Liz, que sofria de uma doença rara
e muito grave. A sua única hipótese de salvamento parecia ser uma
transfusão de sangue do irmão mais novo, de cinco anos, que já tinha
tido o mesmo problema e sobrevivido milagrosamente, desenvolvendo
anticorpos necessários para a combater. O médico explicou-lhe a
situação da irmã e perguntou-lhe se ele estaria disponível para dar o
seu sangue à sua irmã.

Eu vi-o a hesitar por uns instantes, antes de respirar fundo e dizer
"sim, eu faço-o se isso a salvar."

À medida que a transfusão ía correndo, ele mantinha-se deitado ao lado
da sua irmã, sorrindo. Todos nós sorríamos, vendo a cor a regressar à
face da menina. Foi então que o menino começou a ficar pálido e o seu
sorriso a desaparecer.

Ele olhou para o médico e perguntou-lhe, com a voz a tremer, "Será que
eu começo a morrer já?".

Sendo muito jovem, o menino não compreendeu o médico; ele pensou que
teria que dar todo o seu sangue à irmã para a poder salvar.


Flor sem tempo




Nasceu um caule.
Que protege.
Que inflama.
Que serena...
Cabe na palma da mãe Zélia,
na cova de uma pena mais do que suave...
Cresceu ufana, de riso fácil e quente,
perto das fontes das lágrimas que teima em esconder...
Vê-se do mar,
revê-se nas ondas,
soletra saudades
dos seus e das suas que acolhe sem pejo,
secando as
pétalas que leva para casa, aquecendo-as ao lume...
Endeusa o verão do seu contentamento, nuno de sua graça,
golfinho cria no colo terno da rosa mãe...
É flor, mas não tem nome.
Tem nome
mas é de flor...


O abraço de ternura, pleno de parabéns, da C. e do P.
Por tudo, pelas fontes, pelos abraços, pelos risos, pelos prantos...

segunda-feira, 14 de março de 2011

Investigação de paternidade


Os homens que passam, minha mãe,
são os pintores perdidos nas cores que não escolheram,
são os poetas errantes, imersos nos poemas que não escreveram,
são os adúlteros infames plenos do vazio dos leitos alheios,
são os vagabundos sem chama vazios do pleno do nada em que a sua vida se tornou,
são os sonhadores inocentes rotos pela miséria das quimeras do ouro dos outros,
são as sombras do pai que eu não conheci,
E que só tu sabes decifrar...

Qual deles, minha mãe?
Qual deles?
O pintor que errou o poema?
O poeta que encheu os teus sonhos?
o vagabundo dos poemas imperfeitos?
O sonhador que nunca chegou a passar?

Quero a certeza do incerto,
a raiz feita caule, feita dor,
porque um dos homens que passa, minha mãe,
será tudo aquilo que tu quiseres que um dia eu venha a sentir por ele...