quinta-feira, 24 de abril de 2008

Galeria. Retrato n.º 3. Carlinho, Besouro.





Nasceu quieto.
Branco.
Calado.
Olhos sem luz.
Tudo presságios.
Maus.
Outros, seus pares, aprendiam a escrever, a contar e a ler.
Ele rimava besouros com garrafas.
Flores com campos.
Meninas com sorrisos.
Os outros aprendiam Equações Matemáticas, Geografia, Biologia.
Ele metia besouros nas garrafas.
Amava os campos.
Sabia as flores que atraíam os besouros.
Contava os besouros no fim da jornada.
E histórias épicas sobre a apanha dos besouros.
De largo sorriso, oferecia os besouros e as flores às preferidas do seu coração.
Foi muitas vezes escondido pelos pais, nos dias festivos.
Não viu nenhum irmão casar-se, ou baptizar-se.
Nesses dias, deambulava sozinho e com fome.
Comia flores, engarrafava besouros.
Bebia a água das fontes.
Um dia, já homem foi trabalhar.
Nas obras.
Passou um besouro.
Foi atrás dele.
A prancha não era o campo.
A planura ficava lá muito em baixo.
Esqueceu-se das alturas.
Voou por ali abaixo feito besouro.
Acabou no fundo do andaime.
A cara esborrachada na garrafa.
E os besouros aflitos, a rodá-lo...

13 comentários:

Armando S. Sousa disse...

Tens realmente uma grande veia poética.
Está absolutamente bem escrito este retrato do Carlinho.

Mas, sobre a realidade do Carlinho, tenho que te dizer, que sempre o achei, o mais intelegente daquela família.

Uma beijola.

Anónimo disse...

Sinceramente, PM, não entendi a história e acho-a um pouco redonda no que escreve.
Mas continue que concerteza há outros armandos - presumo que seja família, não? - que a apreciem!
O Guilherme também um pouco duro demias no que opina e o César talvez o mais ingénuo e tocante.
Mas gosto d ecá vir tocar a magnólia.
LV

Passiflora Maré disse...

LV, a história parece-me tudo menos redonda, trata-se de um rapaz "meio atrasado" cuja única ou quase única paixão na vida era apanhar besouros e metê-los em garrafas. O resto está bem explícito.
A poesia , também é opaca....

Armando S. Sousa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Armando S. Sousa disse...

Os armandos, são cada vez menos. É nome em desuso no país.
A familiaridade não vêm para o caso, relativamente a um poema estar bem ou mal escrito, a estilizar ou não uma realidade.

não sei o que é uma história redonda, ou por outras palavras sei, mas não me parece uma bola, especialmente por estar escrito na perpendicular.

“Nasceu quieto. Branco. Calado. Olhos sem luz. Tudo presságios”, é natural as crianças nascerem a berrarem… agarrando-se à vida. Este nasceu com um atraso mental, sem aspas.

“Os outros aprendiam Equações Matemáticas, Geografia, Biologia”, metaforicamente falando, pois aprendiam o aeiou, a somar 1+2 e outras coisas que se aprendem na primária. O carlinho, apanhava besouros e despejava-os na sala de aulas...

“Foi muitas vezes escondido pelos pais, nos dias festivos...”, apesar de ser o mais inteligente daquela família, os pais consideravam-no um absoluto deficiente mental, mas tiveram alguns dissabores, que não vou contar para não alargar muito este comentário.

“Um dia, já homem foi trabalhar. Nas obras”, usualmente chama-se a esta profissão, trolha no Norte de Portugal, e parece que pedreiro no Sul”.

“Passou um besouro. foi atrás dele…”, os trolhas, muito usualmente trabalham nas alturas: nas pranchas. Ele viu um besouro, e como não discernia mais, foi atrás dele.

“Acabou no fundo do andaime. A cara esborrachada na garrafa. E os besouros aflitos, a rodá-lo...”, quem cai de um andaime, e não interessa a altura do prédio, normalmente fica maltratado. neste caso morreu. na realidade a PM dá um sentido poético ao facto.

dizia o meu avô, e também estava escrito em letras garrafais, num local que eu conhecia extremamente bem quando era pequenote “ não aceito criticas de quem sabe mais, mas de quem tenha feito melhor”.

LV exponha à consideração pública os seus textos, depois falamos.

Anónimo disse...

Ah, ah, o familiar da maré lançou-me as garras.
Precisa ela assim tanto de advogado?
Não sou tolo.
Não escrevo, infelizmente mas sei ler e sei gostar ou não gostar.
Viva a liberdade!

Armando S. Sousa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Eu venho sendo fã destes "retratos" dos "absolutos" naturais...
E este Carlinho ( que é real) também mexeu com a minha "quietude da normalização" carimbo social.
Gostei.
E para os "ruídos" que por vezes aqui se têm ouvido, Lou
Marinoff, As Grandes Questões da Vida, já me deu isto "Encontrámos o inimigo:erámos nós".
Bj.
C.(EN)

Armando S. Sousa disse...

é triste que uma pessoa que diz "viva a liberdade", me trate por "familiar da maré", quando o meu nome está bem visível.

é deveras tristes, ainda por cima, quando não me escondo atrás do anonimato, para dizer aquilo que quero e penso.

no entanto concordo que a liberdade é um bem muito elevado, e muitas das vezes, mal usado.

a PM está longe de precisar de um advogado, aliás não podia ser mais explícita no seu comentário e também vinha bater à porta errada.

um poema não tem nada a ver com leis, aliás, é popular os advogados, serem desprovidos de poesia e da sua compreensão.
é uma coisa intrinsecamente profissional.

nem sei se o anónimo, anónimo, é ou não o anónimo, lv, mas se for o anónimo lv, espero que tenha compreendido a "esfera".

um abraço

César Paulo Salema disse...

Amei o teu besouro, Maré.
E nem precisava da explicação do Armando.
E já agora, Armando, não responda mais a alguns anónimos, LV ou não -as acções escritas ficam para quem as pratica também!
Abraço e beijo.

Anónimo disse...

Sou Álvaro.
Advogado. E gosto de poesia.
Para que fique a constar nos autos.

Passiflora Maré disse...

Àlvaro, LV , desejo de toda a minha alma que seja um advogado sublime.
Se assim for, e só assim, porque se tudo leu tudo entendeu, eu posso de novo rever toda a perspectiva pela qual estava a encarar o meu julgamento.
Eu sento-me sempre na bancada superior e infelizmente, dada a idade, no meio.
Se o "básico" e o "acessório" despoletou a ira peço com toda a humildade e deferência a maior das descuplas.
Eva Negra, não quero dizê-lo, mas não podemos camuflar-nos para sempre. Há sempre algo que nos escapa e que gera a ira.

Guilherme Salem disse...

Álvaro LV...sinta-se em casa e escreva sempre. A poesia é para todos e de todos. Seja lá onde for que nos sentemos no dia a dia. Eu, que todos têm como inimputável, ou inconveniente, desejo ver muitos visitantes iguais a si. Venha e Comente sempre. Sem medos e sem falsos pudores. Não me interessa o que faz, ou quem é. Sei que compareceu aqui e, por isso, merece estar e ficar.