quinta-feira, 5 de junho de 2008

Maria e Salomé



Maria.
-Dizes-me tu, Salomé, o que é um amor impossível?
Salomé.
- Não posso dizer-te nada sobre amores impossíveis,
Nunca vivi nenhum. Vivi amores de minutos, de horas, de dias,
e de anos. Nunca nenhum impossível.
Todos eles tiveram, o seu início,
o seu clímax e o seu fim.
Maria.
- Vês as coisas de forma muito estática.
Esses amores de minutos, de horas ou de dias,
porque não tiveram continuidade??
Salomé.
- Ninguém os quis agarrar.
Não tinham suficiente alarme, emergência, estado de sítio,
recolher obrigatório, paixão, rebelião, fogo, sentido,
desespero, loucura, para ultrapassarem o tempo exacto que duraram.
Maria.
- Procurei nos livros. Visionei nos filmes. Sondei os amigos.
Falei comigo a sós, mas nada descobri.
Salomé.
- Mas, e o que soubeste, de toda essa busca?
Maria.
- Uns diseram-me que um amor impossível é o que não tem futuro.
Outros, que é aquele que encontra tantos encolhos,
que os amantes dele desistem.
Outros contaram histórias de amores
sem maçãs, nem laranjas, nem pão, nem cores,
que nasceram e morreram em vão.
Salomé.
- Ficaste com respostas?
Maria.
- Não.
Salomé.
- Eu penso que não há "amores impossíveis".
O amor cresce com a força com que agarramos,
o que temos e o que nos damos
e com o modo com que nos bastamos e respeitamos.
Cada Amor é a união dessa força solar primitiva
que converge de duas pessoas e é também
a circunstância de nele conviverem essas pessoas
irremediavelmente distintas e sós.
Maria.
- Queres tu dizer que o amor se constrói todos os dias?
Como algo que nunca está perfeito?
Como um caminho, a que não se conhece o rumo?
Salomé.
- O amor é exactamente como o caminho. Faz-se caminhando.
Maria.
- Estou no princípio de um caminho.
Alevantada por um vendaval de loucura.
E a única certeza que tenho
é a da convergência das forças repelentes,
que me acabaste de mostrar.

5 comentários:

Anabela Magalhães disse...

"O amor cresce com a força com que agarramos, o que temos e o que nos damos e com o modo com que nos bastamos e respeitamos."
Gostei muito... e o caminho faz-se caminhando...

Armando S. Sousa disse...

"O amor é exactamente como o caminho",não podia estar mais de acordo, infelizmente ou felizmente tive que pagar um alto preço para aprender isso. Já me perdi algumas vezes, no caminho e no amor.
Um beijo.

Anónimo disse...

É Maré, é quase um lugar comum mas não posso deixar de dizer que definiu bem "a coisa" (permitindo-me usar uma expressão muito sua). É que como diz a canção (desculpem mas esta semana estou numa de Mafalda Veiga) porque ao verdeiro amor "só chega quem não tem medo de naufragar"!
E a Maria é sem dúvida uma corajosa e hábil Navegadora....
Daquela daqui de baixo!

Anónimo disse...

Como disse a fã (viciada) em comentário ao post Laura e Paulo, a"escrita a quatro mãos" resultou belíssima.
E é claro, P. ( como poderia deixar de ser?) que neste pedaço do (mesmo) amor impossível, há mais fogo, mais entranhas, mais terra...acima, mais fantasia, mais etéreo, mais reflexão...

Bj.
C. (EN)

Anónimo disse...

Parabens! Gostei muito. Bem hajas.
Bj
Ti...A