quarta-feira, 25 de junho de 2008

O poema crescido


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.


Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.


— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.


— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
(Herberto Helder)

2 comentários:

Armando S. Sousa disse...

Finalmente aqui está, o maior poeta português, do século XX.
Depois há alguns, que falam, do Fernando Pessoa...

Anónimo disse...

Ver post de 16 de Abril de 2008 em que esta magnolia já tinha colocado um poela do grande HH.
Um magnólico viciado