terça-feira, 29 de julho de 2008

Eclipse da Lua.



O quarto continuava ermo.
E a janela aberta.
A mata lá fora mais densa do que nunca.
Entrou no quarto uma mulher.
Belos cabelos negros, rosto anguloso, nariz um pouco aquilino e algumas sardas na pele queimada.
Olhos cor de mel, que na maioria dos dias eram amarelos, fendados, como os dos gatos.
O seu corpo esculpido a bisturi.
O seu nome Regina.
A sua paixão, seduzir.
Tinham-lhe falado na magia daquele quarto, onde os amores não aconteciam.
Veio vê-lo e escolheu-o.
Mandou-o limpar. A mata ficaria intacta.
Trouxe um guarda-jóias. Só.
O primeiro homem, muito jovem, que veio com ela ao quarto, chamava-se Artur. Não que isso tenha qualquer importância ou interesse. O homeme era um fantoche, todos o eram, para ela.
Ela vinha ali endeusar-se, seduzir, reduzir o homem apenas à sua condição de admirador... sem fuga.
Ela entregava-lhes o corpo, e gozava com a sua ausência, e com a entrega deles.
Nada levavam em troca.
Apenas permitia, deles, o toque no belo animal, que era. Aumentando até à exaustão o séquito de admiradores, o narcisismo, que era o traço mais nítido do seu carácter.
Também as jóias aumentavam. Eram o seu carácter exterior.
À media que o quarto ia sendo visitado por Regina e pelo seu rol de homens febrilmente enfeitiçados, o quarto ia ficando cada vez mais como uma clareira, no meio de uma floresta selvagem.
Habitava nele o cheiro dos animais selvagens, e as suas paredes escuras pareciam ter recuado para a floresta.
Quem prescrutasse os fundos do quarto podia ter visto, neles, milhares de olhos ferinos nele emergentes. À espera...
Mas só enfeitiçados lá iam. E o enfeitiçado não vê o feitiço!
E Regina continuava e continuaria por muitos anos, enquanto houvesse bisturis, e "esculptores" e "reconstrutores", a seduir naquele quarto.
Fria, calculista, sedutora, com a sua bela presença feiticeira.
Um dia, quase quarenta anos depois, morta Regina, voltou Artur.
O quarto estava forrado a cinzas e as paredes eram a selva.
Artur saiu dali em liberdade.
Havia dado volta à sua prisão e verificou que já não existia.
Sorria...

3 comentários:

Armando S. Sousa disse...

O texto está muito bom, tentei descortinar alguma história similar que eu conhecesse, mas não cheguei a lado nenhum.
Uma beijola.

Elsa C. disse...

O texto está com a elevada qualidade com que já nos habituou, Passiflora.
Só tenho pena que, simbolicamente, a mulher se transmute de deusa em demónio... que enfeitiça.
É verdade que todos padecemos de bipolaridade. Somos
"Sapiens-demens".
Quando é que a mulher é o cárcere do homem? E o inverso? Seremos enfeitiçados ou deixamo-nos enfeitiçar? Ou não será o imprevísivel, o incontrolável da vida aquilo que, muitas vezes, a engrandece?

Passiflora Maré disse...

Armando, esta, tu não conheces, nem tão pouco eu, inteiramente, fui buscar um pouco ali um pouco acolá e construí algo novo.
Obrigada Elsa.
Poucas mulheres são assim, mas existem mulheres deste calibre. Eu já as encontrei. Saiba que eu, infelizmente, encontro-as com mais facilidade, estou num sítio propício a ver tais "qualidades".