sexta-feira, 31 de julho de 2009

Quixote e Dulcineia


Herr Alleswisser fez um castelo de livros e, sem mais delongas, instalou-se nele; ponta a ponta, foi lendo a sua casa e, lendo, sentia-se feliz.
Um dia, de tanto ler paredes e pilares, o castelo ruiu; e Herr Alleswisser achou-se soterrado sob a sua cultura e viu-se nu, com fome, com sede, exposto à bruta crueza do Mundo.
Hoje, Herr Alleswisser é um sem abrigo e vive debaixo da ponte Erscheinigungsbrücker, onde passam os carros que seguem para Berlim Oriental.
Só quando confrontado com a vertente prática das ruas que apenas conhecia como ideia nesses livros que lia é que Herr Alleswisser compreendeu que a Literatura, só por si, não constitui a Cultura.

Que ser culto, implica viver na mesma proporção em que se teoriza, sob pena de o sabor de uma carne ou de um peixe não ser a carne ou a peixe mas apenas uma sensação da saliva que surge à boca ao pensar-se uma iguaria abstracta que não é mais que metáfora.
Ao descobrir isso, Herr Alleswisser obteve o impensável: perdeu tragicamente o seu castelo, para encontrar na condição de sem-abrigo aquela completude que buscava.

Dulcineia, meus Quijotes, está ao virar da esquina, não ao virar da página!



Publicada por Miguel Joao Ferreira in http://persona08.blogspot.com/



Boas férias e um grande MAR...

2 comentários:

Maria Madalena disse...

Passei por aqui para lhe enviar um beijinho Amigo e desejar umas óptimas férias.

AugustoMaio disse...

Boas férias a todos. E sempre mar, esse verbo fantástico.