sábado, 11 de setembro de 2010

Tela


Se eu fosse pintor passava a minha vida a pintar o pôr do sol à beira-mar.
Fazia cem telas, todas variadas, com tintas novas e imprevistas. É um espectáculo extraordinário.
Há-os em farfalhos, com largas pinceladas verdes.
Há-os trágicos, quando as nuvens tomam todo o horizonte com ar de ameaça, e outros doirados e verdes, com o crescente fino da lua no alto e do lado oposto a montanha enegrecida e compacta. Tardes violetas, neste ar tão carregado de salitre que torna a boca pegajosa e amarga, e o mar violeta e doirado a molhar a areia e os alicerces dos velhos fortes abandonados...
Um poente desgrenhado, com nuvens negras lá no fundo, e uma luz sinistra. Ventania. Estratos monstruosos correm do norte.
Sobre o mar fica um laivo esquecido que bóia nas águas-e não quer morrer...


Raul Brandão- Os pescadores- Pequenas Notas
recolhido em aguarelas de turner - aguarelast.blogspot.com/

2 comentários:

Anónimo disse...

Para si P.
Eu pintava um quadro com fundo branco , com sorrisos e olhares brilhantes de crianças e colocava ainda pombas a simbolizar a Paz!
Como não sei pintar...
Envio beijinhos .
Tenho nome de Flor

Anónimo disse...

E eu um muro pleno de Alices, com coelhosbrancos a dar horas e com muitas flores de amores perfeitos.
Porque você é fantástico!