segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Augusta


Nos arredores de Lisboa, Augusta, que teria hoje 96 anos, morreu sem ninguém dar por nada. Nem família, nem amigos, nem serviços públicos. Uma vizinha, apenas ela, bateu a todas as portas que pôde, por estranhar a sua ausência. Da família, da GNR, de todos, apenas a indiferença. Nem a segurança social, nem os serviços de saúde. Ningué...m. Era apenas uma velha num prédio de uns subúrbios. Passou oito anos a bater a portas. A burocracia impediu que alguém fizesse alguma coisa. A porta não podia ser arrombada. A GNR até gozou com a preocupação da vizinha. Coisas de velhos, terão pensado.
Mas Augusta, cidadã portuguesa, era também contribuinte. E aí deram por falta dela. Tinha uma dívida. Sem um único contato, a frieza da máquina leiloou o seu apartamento. Quando os novos donos chegaram, a porta foi finalmente arrombada. E lá estava Augusta, morta no chão da cozinha. Tinha morrido há oito anos sem que ninguém tivesse dado ouvidos à vizinha.
O que impressiona, para além da solidão que permite que alguém morra sem que ninguém dê por nada, é que o mesmo Estado que dá pelo não pagamento de uma dívida ao fisco não dê, não queira dar, pelo desaparecimento de um ser humano. Que o contribuinte exista, mas o cidadão não. Que quem tinha a obrigação de pagar impostos tenha deixado de existir nos seus direitos. A metáfora é macabra. Mas é poderosa. Este Estado que não se esquece - não se deve esquecer - de nós quando é cobrador, mas para quem não existimos quando nos é devida alguma atenção.

Diz-se que só há duas coisas certas na vida: a morte e os impostos. Parece que para o Estado português só a segunda parte é verdadeira.

Lido no Expresso Online (Daniel Oliveira)

2 comentários:

Carmo disse...

Terrível... isto vem acordar os fantasmas de quem vive sozinho e isolado...
Quando soube da notícia pareceu-me impossível....
Em que mundo vivemos?
Onde estão os amigos afinal? (Porque a família já não devia existir)
Nem a vizinha conseguiu nada
O anonimato das grandes cidades, onde até gosto de viver, mas que é implacável...

Doloroso... muito!

Carmo

Anónimo disse...

Viver em sociedade requer viver em boa vizinhança. Requer solidariedade, compromisso e prudência.
Requer o bem estar de todos. oferecer e ajudar.
Boa vizinhança... preocupação com os outros não necessita de mordomias.
Bate-se à porta e procura-se
Boa vizinhança comporta-se de maneira civilizada. É solidária e pensa que um dia pode chegar a nossa vez .

Pobre senhora
Pobre sociedade

Pobre de Nós
Pobre de Todos.

Pode ser que estas tristes noticias nos façam mudar de comportamento, e, pensar mais nos outros..

Tenho nome de Flor.