quarta-feira, 21 de maio de 2008

As máscaras da morte




«- Esta noite estás com um ar meditabundo - disse o meu pai, procurando conversa.
- É capaz de ser a humidade que dilata o cérebro. É o que diz o Barceló.
- Há-de ser mais qualquer coisa. Estás preocupado com alguma coisa, Daniel?
- Não. Estava só a pensar.
- Em quê?
- Na guerra.
O meu pai assentiu com ar sombrio e sorveu a sua sopa em silêncio. Era um homem reservado e, embora vivesse no passado, quase nunca o mencionava. Eu tinha crescido na convicção de que aquela lenta procissão do pós-guerra, um mundo de quietude, miséria e rancores velados, era tão natural como a água da torneira, e que aquela tristeza muda que sangrava pelas paredes da cidade ferida era o verdadeiro rosto da sua alma. Uma das armadilhas da infância é que não é preciso compreender para sentir.
Na altura em que a razão é capaz de compreender o sucedido, as feridas no coração já são demasiado profundas. Naquela noite primitiva de Verão, caminhando por aquele anoitecer escuro e traiçoeiro de Barcelona, não conseguia apagar do pensamento o relato de Clara à volta do desaparecimento do pai. No meu mundo, a morte era uma mão anónima e incompreensível, um vendedor a domicílio que levava mães, mendigos ou vizinhos nonagenários como se se tratasse de uma lotaria do inferno. A ideia de que a morte pudesse caminhar ao meu lado, com rosto humano e coração envenenado de ódio, envergando uniforme ou gabardina, que fizesse bicha no cinema, risse nos bares ou levasse as crianças a passear no parque da Ciudadela de manhã e à tarde fizesse desaparecer alguém nas masmorras do castelo de Montjuïc, ou numa vala comum sem nome nem cerimonial, não me entrava na cabeça. Dando voltas àqilo, ocorreu-me que talvez aquele universo de cartão-pedra que eu dava por bom não fosse mais que uma decoração. Naquele anos roubados, o fim da infância, como os comboios espanhóis, chegava quando chegava.»

Trecho De "A Sombra do Vento" de Carlos Ruiz Zafón

4 comentários:

Armando S. Sousa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
César Paulo Salema disse...

Um livro fantástico que já li há 5 anos.
Um must!

Armando S. Sousa disse...

Vou ler este livro. Não conheço nada de Carlos Ruiz Zafón, mas com o que me disseste e com a leitura deste pequeno trecho, desconfio que o senhor Zafón, vai passar a ter um novo leitor.

Um beijo.

Anónimo disse...

Este pequeno trecho lembra-nos o acontecimento mais traumático e terrível que ocorreu antes da 2ª Guerra Mundial. "A Guerra Civil Espanhola". Obrigada PM. Fiquei com curiosidade e vou ler o livro, deve ser muito interessante.
Bjs
Ti...A