segunda-feira, 9 de junho de 2008

Beijo 5



Ele ficou a vê-la caminhar, até à curva, ao fundo entre
os Aceres e as tílias.
Entrou na biblioteca, maquinalmente.
Percebeu que com ela não haveria promessas de amor eterno.
Teria de confiar na sua intuição. Muito tempo passaria até
as palavras a confirmarem.
O Doutor Silvata, bibliotecário chefe, chamou:- Alexandre!
Sobressaltou-se. O Silvata chamava um estranho.
A paixão incendiada. O olhar daquela mulher, onde havia
mergulhado. A perda da sua íntegra identidade. A alma dividida.
Sentia estranheza ao ser chamado Alexandre!
Precisava de integrar este Alexandre, num novo acabado de nascer.
Sentia, também, o corpo febril, desconfortável...
O Doutor Silvata aproximou-se, com a sua bonomia, e disse:
- Alexandre, é preciso arrumar e catalogar os livros novos
que chegaram ontem ao fim da tarde.
Vieram originais de Samuel Becket, Pablo Neruda, Heinrich Böll,
prémios Nobel de 1969, 1971 e 1972.
Chegaram também originais de alguns livros de Sartre, Camus,
Steinbeck e Brescht.
- Come d'habitude, são catalogados apenas nos catálogos
para instituições estrangeiras e arrumados no andar do fundo,
onde estão os livros censurados.
- Amanhã, contactas o grupo de tradutores clandestinos,
e entregas a cada um deles, um livro dos novos.
- Têm oito dias para fazer as traduções que entenderem.
Que venham de traje académico, pastas cheias, cara bem
escanhoada e óculos grossos.
Devem vir só aqueles que amanhã durante o dia puderem
passear perto das instalações da DGS na filial da Rua
Antero de Quental.
Com preferência para o grupo que passe à PIDE alguma
informação, com meia verdade, ou uma informação forjada.
Ninguém pode ser apanhado com livros nas pastas.
Plano B, amigos atletas de natação, com toalhas ao ombro,
por perto, para esconderem rapidamente o que for preciso.
- Sim, Doutor Silvata, sabemos os procedimentos.
Disse Alexandre.
Continuou o Doutor Silvata:
- Na primeira gaveta da minha secretária está a lista
de casas de estudantes, que este mês escondem os clandestinos,
que se virem em apuros.
Passa a informação apenas quando necessário.
Quanto a ti, lê o que quiseres, mas dentro da biblioteca.
Discrição.
- Ah!, exclamou o Doutor Silvata.
- As traduções só podem circular clandestinamente depois
de todos os livros recolherem de novo à biblioteca.
Este era o sal da vida de Alexandre, até há um mês atrás.
Sempre que chegavam livros novos, o que acontecia com alguma
frequência, a vida tornava-se uma festa.
A cumplicidade com os tradutores clandestinos e anti-regime.
As leituras novas sobre outras metrópoles e outras culturas.
Novas ideias, novas visões, que eram discutidas até
à madrugada, nas "Repúblicas".
Mas hoje tudo lhe era era penoso. As horas eram vazias.
A alma vadiava noutro corpo.
O Desejo atraiçoava-lhe a serenidade e os gestos.
A urgência em amá-la desasossegava-o.
Nunca tinha tido nenhum compromisso sério.
Nada, além de fogo de palha.
Tinha vinte e um anos, frequentava o quarto ano de Línguas
e Literaturas Clássicas, em Coimbra, sua cidade natal.
Pelos seus cálculos a Ester teria vinte anos.
Soubera que ela frequentava o terceiro ano de Arquitectura,
na Escola Superior de Belas Artes do Porto.
Sem o ânimo habitual desembrulhava os livros.
Separava-os por autores, e ia fazendo pilhas sobre a sua secretária.
No decurso das tarefas ia nascendo uma ideia,
que depressa passou a decisão.
Teria de vê-la essa noite, antes de ela viajar para o Porto.
Mandaria recado por um amigo comum.
O encontro seria na biblioteca.
O local de todas as saborosas infracções.

César, agora é contigo!

2 comentários:

Armando S. Sousa disse...

Esta sequência está fabulástica, mas vou ter que ver como isto tudo vai terminar, para fazer um comentário mais apropriado.

Anabela Magalhães disse...

Pois. Aguardemos o desenrolar da coisa.