domingo, 27 de abril de 2008

A CRÍTICA




Tenho um livro que leio frequentemente cujo nome é "O Futuro Está Aberto", que no essencial se resume a uma conversa, que se chama o diálogo de Altenberg e cujos protagonistas são Karl R. Popper e Konrad Lorenz, moderados por um grande jornalista vienenese da época, Franz Kreuzer.


Além desta conversa, este livro contém os textos de um simpósio sobre Popper, ocorrrido em 24 a 26 de Maio de 1983, em Viena, com os seguintes temas:

1º dia -Ciência e hipótese.
2º dia- Os três mundos.
3º dia- A Sociedade Aberta.

Deste livro, eu vou deixar aqui hoje dois pequenos apontamentos sobre a crítica, o que ela deve ser e a importância da mesma no desenvolvimento da cultura humana.


Lorenz:...A linguagem continua a ser algo de natural. Muitos pensadores eminentes agarram-se ainda à convicção de que deve haver algo de inexplicado e ipso facto de extranatural. Nessa medida sou um monista, se quiseres. Apesar de reconhcer a minha não compreensão do problema do corpo-espírito. A ideia, porém, de que tudo o que o meu pobre cérebro não entende se deve encontrar fora da natureza, como por exemplo lês subcutaneamente no Mistério Inexplicado de Erwin Chargaff, não a posso partilhar.


Popper: Eis-nos de volta a um tema importante, o da importância da crítica. Através da linguagem, tornamos as teorias criticáveis. E é isso que é colossal. Tens toda a razão, estou inteiramente de acordo contigo, de que existem dois grandes períodos na evolução: A vida e o homem. E o homem - o homem é sobretudo linguagem. O que é que torna possível a evolução cultural? A crítica. A língua torna possível a crítica, e através da crítica desenvolvemos depois a cultura.


Lorenz: Com a linguagem surgiu uma comunidade, uma comunidade que jamais existira antes, do saber e, logo, do querer.


Popper: Enquanto não retirámos as nossas teorias de nós próprios, estávamos identificados com elas, e por consequência não as podíamos criticar. O galo não é capaz de distinguir o seu Eu das suas expectações, das suas teorias.


Lorenz: O galo destrói todo aquele que o queira criticar - e nós não o fazemos.


Popper: O galo não sabe criticar as suas teorias. Nós podemos falar, por exemplo, sobre se somos egoístas ou não. (...) Aliás, acrescentei a esses três estádios...um quarto, ou seja a função argumentativa da linguagem. Podemos discutir se uma frase é verdadeira ou não....


Já na parte que no referido livro que diz respeito ao Simpósio é colcocada por Wallner a Popper uma questão.


Wallner: Havia ainda uma outra questão a pôr, mas não sei se quer tratá-la agora. Uma das críticas que ocasionamente se ouvem face aos seus princípios metafísicos é a de que estes se orientam segundo o chamado senso comum, o que seria pois uma fundamentação biológica.


Popper: Nada a fazer! (risos na assistência) Eu sou pela liberdade de pensamento. Cada um deve dizer o que considera útil. E a crítica não deve consisitir em observações de carácter geral como, por exemplo: trata-se de um ordem de ideias biológica ou não-sei-que-mais; antes deve ser concreta, e dizer: porque é que isso não é aceitável? Mas esta crítica concreta é muito rara. Normalmente deparamos com críticas deste tipo: isto é dogmático. De que serve isso? apenas podemos responder: por favor, meu amigo, critique! E então ele responde: já critiquei, já afirmei que era dogmático. Mas isto não é crítica. A crítica deve tentar mostrar a razão por que uma teoria ou uma opinião não é aceitável, isto é, não é aceitável o seu conteúdo. Dogmático é o indivíduo que não aprofunda essa crítica em detalhe. De um modo geral, as críticas que ouvimos são totalmente desinteressantes. É aflitivo. Uma crítica interessante é sempre extremamente louvável.

2 comentários:

Armando S. Sousa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Armando S. Sousa disse...

A tendência actual, de relativização da verdade e do politicamente correcto, deram um golpe grande na capacidade de actuar com um espírito crítico. Logicamente, quando Karl Popper diz que “as críticas que ouvimos são totalmente desinteressantes” é quase impossível contesta-lo, quando ele foi o principal impulsionador da epistemologia no século XX.
Hoje é frequente dizer-se, e por isso a qualidade da crítica é cada vez pior, que todas as opiniões são respeitáveis.
Sobre isso li há um ou dois anos atrás, o livro, os dez mandamentos do século XXI, do filósofo espanhol Fernando Savater, no qual ele escrevia, as palavras são minhas, que é um absoluto disparate, dizer-se que todas as opiniões são respeitáveis. São as pessoas e não as crenças, que são respeitáveis, porque senão, a humanidade não teria podido dar um único passo em frente. Isto como é lógico, também se pode aplicar à crítica.
Depois há o facto, da maioria das pessoas, não conhecer o principal ensinamento de Wittgenstein, que é, se não sabe falar de uma coisa, cale-se.
Mas a falta de qualidade da crítica pode também ser devido ao facto, como escreveu Pino Aprile de “o homem moderno viver para estupidificar”.
Este jornalista italiano, depois de ter feito uma entrevista a Konrad Lorenz, teve a ideia de escrever um livro, a que chamou, “o elogio do imbecil”. Para isso trocou imensa correspondência com o cientista austríaco e o livro é o reflexo dessa correspondência, em que o autor, tenta demonstrar a Konrad Lorenz, que a “ inteligência opera em benefício da estupidez e alimenta a sua expansão” e tenta provar que o que está acontecer nas sociedades modernas, é o fim da inteligência.
Diz o autor, que a inteligência “foi o grande salto distintivo do ser humano, a característica que nos permitiu dominar o mundo e ser a espécie eleita, mas já não é mais necessária, tornou-se obsoleta como os pêlos que nos cobriam o corpo, a cauda ou andar a quatro patas”.
Diz Pino Aprile em jeito de conclusão, que os inteligentes construíram o mundo, mas quem disfruta dele e triunfa são os imbecis. Por muitos comentários e críticas, que li ao longo destes quase quatro anos de blogger, estou inclinado a dar razão a Pino Aprile.

Uma beijola