sábado, 26 de julho de 2008

Quarto Minguante



O quarto estava ermo.
Mais só do que nunca.
A noite entrava sem ser convidada
por entre as sombras daquele canto.
A colcha velha pairava de dia e no breu
como capa de vida,
como solistício daquela esquina
onde uma mulher e um homem - mais sós do que todos os outros -
se amaram outrora em segredo, em surdina...
Os lençóis e as marcas nele deixadas já foram lavados,
os vestígios desses toques clandestinos perderam-se no tempo.
O quarto continuava sombrio,
o soalho sabia à saudade dos pés que o pisaram,
os móveis em castanho rangiam à passagem das horas...

Muitos anos depois,
ela voltou ali.
Sentiu o quarto ermo
E cheirou o perfume dele -
à pele curtida do suor que caíra sem aviso,
ao não que então dele ouvira,
quase sincero, quase solene...

Muitos mais anos depois,
ele voltou ali.
Cheirou o soalho molhado pela escuridão
E sentiu a presença dela -
o sim que ela esperava,
a resposta inesperada,
a felicidade adiada...

Ainda hoje quando ali volto,
o quarto continua ermo,
e de janela aberta,
até que outros nele queiram entrar,
na cama se deitar,
e tentar contar outra história...

2 comentários:

Maria do Carmo Cruz disse...

Uma história? Dua histórias? Não sei, mas percebi a existência da saudade "do que poderia ter sido". Não há saudade mais dura nem amarga. Se ao menos eu...
Que nunca aconteça convosco, meus Amores. Abraço, Avó Pirueta

Anónimo disse...

Muito bem escrito.