terça-feira, 12 de agosto de 2008

Memória de Torga






A Dor de Me Perder.

De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não, nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.
A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia.
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.
******************

Comunhão.

Tal como o camponês, que canta a semar
A terra,
Ou como tu, pastor, que cantas a bordar
A serra
De bracura,
Assim eu canto, sem me ouvir cantar,
Livre e à minha altura.
Semear trigo e apascentar ovelhas
É oficiar á vida
Numa missa campal.
Mas como sobra desse ritual
Uma leve e gratuita melodia,
Junto o meu canto de homem natural
Ao grande coro dessa poesia.
*************************
Lezíria

São duzentas mulheres. Cantam não sei
Que mágoa
Que se debruça e já nem mostra o rosto.
Cantam, plantadas n'água,
Ao sol e à monda neste mês de Agosto.

Cantam o Norte e o Sul duma só vez.
Cantam baixo, e parece
Que na raiz humana dos seus pés
Qualquer coisa apodrece.
**********************
Conquista.

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre nãu sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afugou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!
******************
Ignoto
... ... ... ... ... ... ... ... ...
Sinto o medo do Avesso.
... ... ... ... ... ... ... ... ...
Miguel Torga, Antologia Poética.


7 comentários:

Jota Cê Mascarenhas disse...

É sempre bom reler Torga, um dos poetas que melhor cantou a nossa alma e a nossa terra no sec. XX e que mais perto de nós sempre esteve. Lembro que muitas vezes a caminho de S. Martinho de Anta, Adolfo Rocha parava no nosso Museu de Amarante para ficar "horas" a olhar o seu busto.
Que diálogos de silêncios cúmplices deveriam escrever-se nesses olhares entre o homem e o bronze!

Passiflora Maré disse...

Obrigada Jota Cê, é sempre bom encontrar alguém que se emociona com os mesmo cânticos, os mesmos raios de sol,os mesmos olhares.

Elsa C. disse...

Eis uma poesia caracterizada por um forte sentimento telúrico, desveladora dos grandes problemas (filosóficos) humanos: a vida, a morte, a identidade e a liberdade!

Há sistemas (doutrinas) filosóficos que dispenso. Meros jogos de retórica, de vacuidade verbal. Decrescendo de intensidade, não resistem a novos e outros olhares.
Ao invés, há poemas que encerram a sabedoria, a experiência e a virtude de toda uma vida.

Felizmente que a Filosofia se dissemina e prolifera em todas as manifestações artísticas: literatura, música, pintura, cinema...porque o importante é o nível simbólico da mensagem, nunca a roupagem que a adorna. Porque o importante é a mestria com que se desoculta o dito, seja ele em linguagem catalogada academicamente como filosófica ou não. Porque a essência do homem é complexa, análoga a uma teia de aranha, que resiste a reducionismos. Não se encarcera uma alma rica...peregrina, inquieta e problematizadora.

Se cada um, quando confrontado com um destes poemas, se exercitar na arte do sentir e do pensar, haverá uma confluência de Artes, perpassando o criador, o leitor-criador ou recriador. Mais: terá filosofado.

Passiflora: com um destes poemas, dispensarei (como sempre)o manual de Filosofia, tão "criteriosamente" adoptado!

(Não é por acaso que gosto de iniciar as aulas de Filosofia com a leitura e análise do "Cântico Negro" de José Régio.)

Merci, Passiflora

P.s.: creio que me excedi...na extensão do comentário.

Anabela Magalhães disse...

Porque, tal como eu te digo inúmeras vezes, está mais do que na hora de parires o teu blogue, Elsa C.
Obrigada pela profundidade do teu comentário. Ainda bem que passei por aqui.
Obrigada, Passiflora, pela partilha do excepcional Torga.

Elsa C. disse...

A.M.M.:

Admiro a tua persistência, mas o resultado será o mesmo: nada de parir um nado-morto! Sei que sou muito disciplinada e metódica em algumas esferas.
Quanto à blogosfera, não.
Quero experienciar a sensação, talvez ilusória, de liberdade, saltitando de blogue em blogue, sendo surpreendida pela qualidade e pela beleza do que é dito, visto, ouvido...

E sabes?
A.M.M. não significa, "apenas" Anabela Matias Magalhães, também significa À
M(inha) M(aneira)!

Beijocas.

Passiflora Maré disse...

Obrigada...

CLAP!CLAP!CLAP! disse...

De Torga lembrarei uma curiosidade que apenas o foi para mim até hoje pois nunca antes o revelei.Segundo rezam os Diários, no dia em que nasci Ele andava sapatos na mão pés na areia caminhando na praia da minha adolescência!